Opôr-se ao genocídio israelita não é antissemitismo: rejeitamos a adesão do governo dominicano à definição da IHRA

10 de Setembro, 2026
4 mins leitura

Pelo Movimento Socialista de Trabalhadoras e Trabalhadores (MST), secção da UIT-QI na República Dominicana

O governo de Luis Abinader anunciou, a 24 de agosto, a sua adesão à definição de antissemitismo da Aliança Internacional de Memória do Holocausto (‘IHRA‘). Esta definição, cuja adesão a nível internacional é promovida pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita, considera antissemita toda a oposição ao projeto colonial sionista de construir um Estado étnico judeu na Palestina, incluindo as críticas ao caráter inerentemente racista do Estado israelita. O objetivo desta definição está alinhado com a doutrina da política externa israelita do chamado “novo antissemitismo“, que redefine o antissemitismo para criminalizar a solidariedade com o povo palestiniano e para vitimizar o Estado racista e genocida de Israel.

O antissemitismo, o ódio aos judeus, é uma forma de racismo que merece a nossa condenação absoluta. Na Europa, a Igreja Católica promoveu durante séculos o ódio contra os judeus e incitou massacres contra eles desde os tempos das cruzadas. Nos séculos XIX e XX, o czarismo e os regimes ultranacionalistas e fascistas impuseram discriminações legais contra os judeus, perpetraram pogroms e massacres, culminando no Holocausto perpetrado pelo regime nazi e pelos seus aliados. Atualmente, persistem a agitação racista e o ódio contra os judeus, especialmente nos círculos da extrema-direita.

Definir o antissemitismo de forma desonesta e enganosa, de modo a abranger as críticas ao Estado de Israel e ao sionismo, não protege as pessoas judias contra o ódio racial. Pelo contrário, estigmatiza os inúmeros judeus antissionistas que se solidarizam com o povo palestiniano e se opõem aos crimes de guerra e às deslocações forçadas contra o povo palestiniano, crimes através dos quais o Estado de Israel foi constituído desde a Nakba1 de 1948 até aos dias de hoje. Além disso, esta definição manipuladora da IHRA contribui para uma falsa equiparação entre a comunidade judaica e o Estado genocida de Israel. Isso aumenta, de facto, os riscos para as pessoas judias e, além disso, dificulta a verdadeira luta contra o antissemitismo.

O judaísmo não equivale ao sionismo, nem o antissionismo equivale ao antissemitismo. Existem organizações neofascistas que, simultaneamente, promovem o antissemitismo e apoiam Israel. Na própria República Dominicana, grupos paramilitares e neonazis, que atuam com o apoio do governo de Abinader, promovem ideias antissemitas e são, ao mesmo tempo, fervorosos defensores do Estado de Israel. Em outubro de 2023, um destes grupos neonazis atacou uma manifestação de apoio ao povo palestiniano no Parque da Independência, em Santo Domingo, com a cumplicidade da Polícia Nacional.

Condenamos o facto de o governo de Luis Abinader, ao anunciar a adesão à definição de antissemitismo da IHRA, ter reivindicado cinicamente a ditadura de Trujillo ao afirmar que “a República Dominicana sublinha o seu compromisso permanente na luta contra todas as formas de ódio, discriminação e intolerância religiosa, posição que tem vindo a ser defendida de forma consistente desde 1938, quando o Estado dominicano foi o único a oferecer asilo em Sosúa a um número significativo de refugiados judeus que fugiam dos crimes de guerra perpetrados pelo regime nazi“. Em 1938, governava o ditador Rafael Leónidas Trujillo, um racista e admirador dos regimes fascistas e antissemitas da Itália e da Alemanha. Trujillo liderou um genocídio em 1937 contra haitianos e dominico-haitianos, sob a ideia de “dominicanizar a fronteira“.

O governo de Abinader mente. A ditadura trujillista, a ditadura balaguerista e os governos subsequentes, incluindo o governo de Abinader, têm exercido o ódio racista e a discriminação institucionalizada contra pessoas negras, haitianas e dominicanas de ascendência haitiana, aplicando contra elas deportações em massa e uma repressão desmedida que viola as próprias leis e a Constituição dominicana. A República Dominicana continua a ser o país com a maior população em situação de apátrida, na sequência da desnacionalização de centenas de milhares de dominicanos de ascendência haitiana em 2013.

Embora entre 1938 e 1947 tenha chegado à República Dominicana um número muito reduzido de refugiados judeus, cerca de 700 pessoas, outros países acolheram um número muito maior de refugiados judeus. Trujillo, ainda nesse mesmo ano de 1938, estabeleceu relações diplomáticas com o regime nazi, pelo qual nutria admiração. Não permitiremos que Abinader e o seu governo reescrevam a história para branquear a imagem do trujillismo racista e criminoso.

Repetindo a hipocrisia trujillista, o governo dominicano finge preocupar-se com o antissemitismo, quando no país nem sequer existe legislação contra a discriminação racial e os crimes de ódio racistas. O que Abinader procura é encobrir as suas próprias políticas racistas e continuar a apoiar o genocídio perpetrado pelo Estado de Israel contra o povo palestiniano, as suas ocupações no Líbano e na Síria e a sua guerra de agressão contra o Irão. Além disso, com a adoção da definição de antissemitismo da IHRA, abrem-se as portas à criminalização da oposição ao genocídio israelita em Gaza, o que limitaria ainda mais as precárias garantias e liberdades democráticas na República Dominicana.Por tudo isto, exigimos:

– A rescisão da adesão do governo à definição de antissemitismo da IHRA;

– Que o governo dominicano se retrate da sua reivindicação da ditadura de Trujillo como suposto baluarte da luta contra o ódio e a discriminação desde 1938;

– Que cesse o apoio do governo de Abinader ao genocídio israelita em Gaza e na Cisjordânia,

– Que o governo dominicano ponha fim às suas deportações em massa por motivos racistas, restitua a nacionalidade aos dominicanos de ascendência haitiana e promova leis contra a discriminação racial e os crimes de ódio.

  1. Refere à expulsão de 1948 das populações árabes dos seus territórios pelos colonos judeus europeus para assim estabelecer Israel. Pode ser traduzido como ‘catástrofe’. Ver https://trabalhadores-unidos.pt/2025/05/15/palestina-o-que-foi-a-nakba/ []
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