De “kelper” a “malvinero”: Um falso patriotismo de Milei

9 de Setembro, 2026
5 mins leitura

Por Juan Carlos Giordano, deputado nacional eleito pela Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidos (FIT-U), e membro da Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina

A transmissão nacional de Javier Milei continua a dar que falar. Juan Grabois, por exemplo, felicitou o presidente. Em algumas plataformas de streaming e até mesmo entre jornalistas da C5N, consideram-na “valiosa, inteligente e adequada“. Outros, por sua vez, revelaram o que ela realmente é: uma manobra eleitoralista desesperada para travar a crescente rejeição popular contra o governo. Será que Milei se tornou, de repente, um patriota ou está a usar a causa das Malvinas para continuar com a pilhagem e reforçar a sua aliança com Donald Trump?

Não sei quanto tempo isto nos vai durar, espero que consigamos prolongá-lo por várias semanas“. É isto que se ouve dizer, nestas horas, a Santiago Caputo (Consultor politico, sobrinho de Luis Caputo, Ministro de Economia, e assesor principal do Milei), o artífice – juntamente com as suas tropas da SIDE (Secretaría de Inteligencia do Estado) – do texto que Milei leu na transmissão nacional. O objetivo era recuperar “a iniciativa política” de um governo em apuros, tentando contrariar o que as sondagens revelam: que Milei é um traidor da pátria. Chegariam mesmo a enviar uma lei ao Congresso.

Muitos de nós lembramo-nos de quando o general Galtieri, em 1982, tentou desviar para os ingleses a repulsa popular que se abatia sobre a ditadura, ocupando as ilhas. Mas, ao trair a guerra, isso voltou-se contra ele. A ditadura caiu devido à mobilização de milhões de pessoas. “Nenhum governo se saiu bem com o uso eleitoralista e oportunista das Malvinas“, afirmam, com razão, vários analistas.

A reviravolta oportunista de Milei deve-se ao seu alinhamento com os Estados Unidos. Donald Trump afirmou que poderia alterar a sua posição de apoio aos britânicos relativamente às Malvinas, porque o Reino Unido não o apoiou na sua agressão contra o Irão e quer que este contribua financeiramente para reforçar a NATO. A Milei ocorreu aproveitar este gesto para fazer o seu anúncio. Mas acontece que, nesta segunda-feira, Trump reuniu-se com o primeiro-ministro britânico Andy Burnham e nem sequer falaram das Malvinas.

Uma reviravolta retórica, não política

A que se deve o facto de Milei ter vindo a defender a autodeterminação dos habitantes das Malvinas e agora os ter rotulado de “população implantada num território usurpado“? Um ato “patriotero” de quem tem o quadro da pirata Margaret Thatcher na Casa Rosada? Não será o mesmo Milei que considerou uma “bobagem” o hasteamento da bandeira pelos jogadores no Mundial? Não há nele qualquer defesa da soberania.

No mesmo dia em que gravou a transmissão nacional, regressava do Chile, onde defendeu o ditador Augusto Pinochet (que apoiou os ingleses na Guerra das Malvinas) e se encontrou com o presidente daquele país, José Antonio Kast, que confirmou a abertura de uma rota a partir de Punta Arenas, no Estreito de Magalhães, para abastecer os petroleiros britânicos nas Malvinas.

A única coisa que o “patriota” Milei oficializou na transmissão nacional foram decretos de necessidade e urgência para aumentar em 30.000 milhões de pesos o orçamento dos serviços de inteligência da SIDE (70.000 milhões se somarmos o que já lhe tinha concedido a meio do Mundial) e mais de 200.000 milhões de pesos para os militares das Forças Armadas.

Houve também um comunicado da Presidência a anunciar queixas criminais contra as empresas do projeto ‘Sea Lion‘, a norte das Malvinas – a Navitas Petroleum (israelita) e a Rockhopper Exploration (britânica) e suas subsidiárias -, que há anos se preparam para a pilhagem petrolífera ‘offshore‘ e contra as quais Milei nada fez. Queixas criminais que nem sequer prosperam ou meras sanções insignificantes, como as que o anterior governo peronista aplicou?

Puras mentiras. Por exemplo, foi denunciado que a Southern Energy, com ligações à empresa Premier Oil PLC – que foi inibida em 2013 de operar no país por ter participado em explorações petrolíferas na plataforma continental argentina -, foi agora premiada pelo governo com os benefícios do RIGI (‘Regime de Incentivos para Grandes Investimentos‘) para atuar em Vaca Muerta1.

A verdadeira política para defender a soberania

Seria preciso ver o que Milei entende por soberania. Porque o que ele quer é entregar aos ianques aquilo que os ingleses têm vindo a levar. Vai continuar a colocar o nosso território nas mãos de multinacionais que ficam com a água, os glaciares, a terra, o petróleo, o gás e o lítio, tal como fez com o RIGI e agora tenta fazer com o “super RIGI“. Como é possível acreditar num governo que fala em defender a soberania nas ilhas enquanto continua a entregar o país?

Vai romper relações com a Inglaterra? Vai tomar medidas contra os capitais britânicos no nosso país? Vai sancionar os seus amigos capitalistas que fazem negócios com empresas inglesas nas ilhas, como o Elsztain (ver «Malvinas / Vão sancionar o Elsztain?»)?     Apesar de continuar com o seu discurso duplo, é claro que Milei gostaria que as Malvinas (e a Antártida) fossem colocadas à disposição das “grandes nações“, ou seja, dos Estados Unidos à cabeça e do Estado genocida de Israel, que faz com a terra palestiniana o mesmo que os ingleses fazem com as nossas Malvinas.

E atenção à criação do Conselho de Segurança Nacional, que reúne os ministérios da Defesa, dos Negócios Estrangeiros, dos Serviços Secretos e da Economia. Trata-se de um reforço do aparelho do Estado para o colocar ainda mais ao serviço da pilhagem e da entrega transnacional, além de reforçar o aparelho repressivo e de inteligência que irá contra o povo trabalhador.

Milei apelou à formação de uma “frente unida” para defender a soberania. Rejeitamos as suas mentiras e apelamos, em vez disso, à mais ampla unidade para derrotar a sua política de rendição, fome e subjugação.

O que é preciso fazer é romper as relações políticas, diplomáticas e comerciais com o Reino Unido e o Estado sionista de Israel. Anular todos os pactos políticos e económicos que nos vinculam aos ingleses, como o Acordo de Promoção e Proteção de Investimentos assinado entre a Argentina e o Reino Unido em 1990, sancionar verdadeiramente as multinacionais, expulsando-as por serem saqueadoras.

Anular a reforma da Lei das Geleiras, o RIGI, impedir que o Super RIGI” seja votado e acabar com o extrativismo de pilhagem

É preciso concretizar os lemas “Fora os ingleses das Malvinas“, “Fora o FMI da Argentina“, “Fora os ianques da América Latina“. Deixar de pagar, já, a dívida externa usurária e utilizar esses fundos para reativar a economia, aumentando os salários, as pensões e implementando um plano imediato de obras públicas.

Apenas um governo de esquerda e da classe trabalhadora poderá concretizar uma Segunda e Definitiva Independência para pôr fim aos pactos de colonização que nos prendem ao imperialismo.

  1. Formação geologica localizado maioritariamente na provincia de Neuquén, zona mais a norte da região da Patagonia, que fornece mais da metade do gás e petróleo de xisto produzido na Argentina. É um dos locais onde mais se pratica a ‘fraturamento hidráulico‘ (também conhecido como ‘fracking‘) fora da América do Norte, com a presença de empresas como RepsolChevronExxonTotalEnergiesPetrobrasShell BP []
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