Pela Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina
O governo de extrema-direita de Javier Milei ultrapassou a marca dos mil dias. São dois terços do total do seu mandato. O balanço é claro. O povo trabalhador tem vindo a sofrer de forma indescritível; Salários e pensões reduzidos a pó, desemprego crescente – com mais de 300 mil postos de trabalho perdidos -, quase 6 milhões de pessoas não conseguem pagar as suas dívidas.
Do outro lado estão os vencedores; os magnatas financeiros – que receberam com absoluta pontualidade cada um dos pagamentos da dívida externa -, O FMI – cujas exigências foram todas cumpridas -, as associações patronais nacionais e estrangeiras – que comemoraram ruidosamente a perda histórica de direitos sofrida pelos trabalhadores e trabalhadoras com a reforma laboral escravizante -, as multinacionais do setor energético e da megamineração – que se colocam na primeira linha para a pilhagem dos nossos recursos e a destruição ambiental, amparadas no RIGI (‘Regime de Incentivos para Grandes Investimentos‘), enquanto aguardam a aprovação do ‘Super RIGI‘ -, E, claro, os corruptos, como Manuel Adorni, Karina “3%” Milei1, e os seus amigos da causa $LIBRA.
É claro que houve resistência. Desde o início do governo que se têm sucedido mobilizações em massa. Os reformados têm vindo a manifestar-se todas as quartas-feiras, sem nunca faltar, apesar da repressão. Os estudantes universitários já realizaram quatro marchas nacionais com grande afluência. Houve mobilizações emocionantes dos trabalhadores do Garrahan2 e das pessoas com deficiência. Por quatro vezes, a burocracia da CGT (Confederação Geral do Trabalho da República Argentina), pressionada pela indignação crescente, viu-se obrigada a convocar uma greve geral. O povo trabalhador respondeu e encheu todas as manifestações.
O governo, preocupado, vê a sua popularidade a descer nas sondagens e percebe a indignação crescente. Aposta na reeleição, mas teme pelo seu futuro. O ‘establishment‘ económico “sente o cheiro” e começa a manifestar dúvidas sobre se deve continuar a apoiá-lo. Por que razão, apesar de tudo, continua a apresentar iniciativas de maior submissão e austeridade? Sem dúvida, a parte mais importante da resposta, a sua “força“, reside no apoio que, de diversas formas, lhe tem sido prestado ao longo destes mil dias pela oposição patronal, incluindo setores do peronismo. Não menos importante, claro, é o vergonhoso pacto que a burocracia da CGT tem vindo a manter com o governo.
Nas últimas semanas, assistimos ao surgimento de um sentimento anti-imperialista crescente, a partir do jogo contra a Inglaterra no Mundial e do “trapo” hasteado pelos jogadores da seleção com a mensagem “As Malvinas são argentinas“. Por isso, após uma manifestação com grande afluência no passado dia 6 de agosto, o governo não conseguiu concretizar a entrega de terras que considerava garantida.
Agora, numa reviravolta inesperada, Milei quer aproveitar o sentimento “malvinero” para se apropriar dele retoricamente. Uma manobra grosseira, uma tentativa mal sucedida para um presidente que se declarou “fã de Thatcher“, que nomeou uma ministra dos Negócios Estrangeiros que apelou ao respeito pelos “desejos” dos habitantes das Malvinas e que, até há uma semana, deixou correr todo o saque levado a cabo pelos piratas britânicos.
Por que razão cresce a indignação e é massiva a repulsa popular a Milei, mas, ao mesmo tempo, isso não é aproveitado pelo peronismo? Sem dúvida, porque ainda está viva na memória a política de austeridade contra o povo trabalhador e ao serviço do FMI do governo de Alberto Fernández, Cristina Fernández e Sergio Massa. Foi isso que levou, erradamente, um setor da classe trabalhadora a votar num reacionário de extrema-direita e capitulador como Milei.
Mas, embora o peronismo procure tirar partido da indignação atual e usá-la em seu benefício eleitoral, são milhares as pessoas que viram, ao longo destes anos, como deixaram passar as medidas drásticas e impuseram ajustamentos nos locais onde governavam, como Axel Kicillof na província de Buenos Aires.
É por isso que se está a verificar o crescimento da popularidade de Myriam Bregman e da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidos (FIT-U). Porque foram a esquerda e o sindicalismo combativo que estiveram presentes em todas e cada uma das lutas, apoiando-as incondicionalmente e opondo-se, no Congresso e nas ruas, ao plano de austeridade de Milei e do FMI. Além disso, o FIT-U é a única força que possui um autêntico programa alternativo, operário e popular, que começa por deixar de pagar a dívida externa, romper com o FMI e colocar todos os recursos ao serviço das necessidades populares mais urgentes.
Juntamente com dezenas de organizações, a FIT-U e o sindicalismo combativo participam hoje na grande mobilização unida, inicialmente lançada por Myriam Bregman, para a Marcha da Raiva no próximo sábado, 19 de setembro. Temos de ser dezenas de milhares na mobilização para a Praça de Maio, bem como nas diversas ações que estão a ser organizadas nas províncias.
É a oportunidade de unir todas as lutas, continuar a lutar contra a motosserra de Milei e do FMI e fortalecer a única alternativa que propõe que governem aqueles que nunca o fizeram e que não têm cumplicidade com o desastre atual: a esquerda e os trabalhadores e as trabalhadoras.
- Karina Milei, secretária-geral da Presidência, irmã do presidente Javier Milei, e apelidada de ‘el jefe‘, está a ser investigada na sequência da divulgação de gravações de áudio que sugerem o seu envolvimento num escândalo de corrupção. As gravações revelam um esquema que envolvia a inflação dos preços dos contratos de produtos farmacêuticos, no qual ela receberia 3% em comissões ilegais. Os rendimentos destes contratos fraudulentos de aquisição de medicamentos pelo governo ascenderiam a um montante mensal de aproximadamente 500.000 a 800.000 dólares para a Karina [↩]
- Hospital público pediátrico em Buenos Aires, que em 2024 viu o seu financiamento por parte do governo federal congelado [↩]