A ofensiva de Kursk na Ucrânia e as suas consequências

2 de Setembro, 2024
3 mins leitura

Por Sedat Durel, do Partido da Democracia dos Trabalhadores (IDP), secção da UIT-QI na Turquia

A operação de invasão total da Ucrânia pela Rússia já se arrasta há mais de dois anos. Para além de toda essa destruição, este expansionismo motivado por interesses imperialistas também levou ao reforço da NATO, o braço armado do imperialismo dos EUA e da UE.

Na primavera passada, com o intenso apoio militar recebido, havia a expectativa de que as forças ucranianas conseguissem fazer os russos recuarem na frente oriental. No entanto, os russos conseguiram manter as suas posições nos territórios ocupados, apesar das pesadas perdas sofridas pelos mercenários.

Enquanto a expansão russa na frente oriental não podia ser contida, a Ucrânia, que até então tinha concentrado a sua força principal numa estratégia de guerra voltada para o Leste, optou por uma mudança repentina de estratégia e, a 6 de agosto, lançou um ataque contra a região de Kursk, na Rússia. De forma inesperada, a Ucrânia assumiu o controlo de uma área de cerca de 1.500 quilómetros quadrados num curto espaço de tempo. Atualmente, cerca de uma centena de localidades encontram-se sob controlo da Ucrânia, tendo centenas de militares russos sido feitos prisioneiros. A área total conquistada pela Ucrânia em Kursk num curto espaço de tempo equivale a uma superfície maior do que a dos territórios ucranianos conquistados pela Rússia no último ano. Além disso, o avanço russo tinha-se concretizado à custa de perdas que se contam às centenas de milhares.

Putin tentou encobrir a sua incapacidade militar face à inesperada ofensiva em Kursk, lançando um dos ataques com mísseis mais abrangentes que realizou desde o início da tentativa de invasão da Ucrânia: ocorreram ataques aéreos que afetaram mais de metade do território ucraniano, incluindo as regiões de Kiev, Lviv, Kharkiv e Odessa, levando a crer que a Rússia estava a atacar com todos os meios de que dispõe. O ataque provocou cortes de energia, bem como vítimas civis. Enquanto as autoridades russas afirmam que será lançado um contra-ataque contra Kursk, só o tempo nos dirá se haverá alguma alteração no planeamento militar das forças de ocupação no leste da Ucrânia e quais serão os efeitos do ataque na política interna da Rússia e na luta de classes.

É claro que não consideramos aceitável que nenhum povo permaneça sob ocupação militar; no entanto, sem esquecer que o principal responsável pelo ataque ucraniano a Kursk é o expansionismo russo, devemos igualmente ter presente a hipocrisia do apoio prestado pelo imperialismo à Ucrânia. O imperialismo norte-americano, que obteve uma grande vitória neste processo, não deseja ver-se confrontado com uma Ucrânia confiante e uma Rússia totalmente derrotada. No final deste processo, o principal objetivo do imperialismo norte-americano é manter sob o seu controlo uma Rússia que não tenha alcançado todos os seus objetivos e que tenha sido enfraquecida tanto quanto possível, e, por outro lado, uma Ucrânia cuja dependência do imperialismo tenha aumentado.

Pode dizer-se que o facto de as forças ucranianas estarem, aparentemente com a aprovação da NATO, a levar a guerra para território russo nesta dimensão pela primeira vez constitui uma novidade. Até hoje, o imperialismo ocidental, que limitava o apoio prestado à Ucrânia exclusivamente a fins defensivos, demonstrou estar aberto a experimentar novas estratégias nesta guerra que, à medida que se prolonga, agrava as crises alimentar e energética a nível mundial.

Embora ainda seja muito cedo para afirmar que o ataque da Ucrânia a Kursk será determinante para o futuro da guerra, não parecem existir, à primeira vista, muitos motivos para tal. De acordo com as declarações de Zelensky, o ataque da Ucrânia a Kursk faz parte de um plano a longo prazo e, embora não tenha como objetivo ser duradouro, visa reforçar a posição da Ucrânia nas negociações de paz. Por outro lado, não se vislumbra qualquer desenvolvimento concreto que sugira que iniciativas semelhantes venham a ser bem-sucedidas ou que o resultado da operação indique que o fim da guerra esteja próximo.

A derrota do expansionismo russo, que nutre ambições imperialistas, na Ucrânia reveste-se de grande importância para a libertação da classe trabalhadora e do povo ucranianos, que lutam pela independência do imperialismo e dos oligarcas, ao mesmo tempo que continua a ter o potencial de fazer avançar um passo todos os trabalhadores do mundo na luta de classes global e na luta contra os regimes opressivos.

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