“A guerra no Irão revela o surgimento de um regime de guerra global como nova forma de domínio”

27 de Junho, 2026
5 mins leitura

Pelo seu interesse, reproduzimos abaixo a breve entrevista dada ao ativista e socialista iraniano Nima Sabouri. Nima Sabouri é um escritor e investigador independente com formação académica de pós-graduação em ciências naturais e filosofia, com a sua investigação e escrita a centrar-se na economia política marxista e na “política a partir da base”, com especial ênfase nos desenvolvimentos políticos e nas lutas no Irão e no Médio Oriente. Originário do Irão, é um ativista socialista empenhado, que colabora com várias redes internacionalistas de esquerda, bem como com coletivos de “organização de bairro” na Alemanha, onde vive atualmente no exílio há vários anos. Sabouri procura utilizar as suas experiências para esclarecer as complexidades e as possibilidades das lutas políticas contemporâneas e dos movimentos de justiça social no Irão e no Médio Oriente. É também membro do “Coletivo Roud”, uma rede de iranianos de esquerda na Europa.

O que achas do acordo entre os EUA e o Irão?

NS: Fico contente por este acordo afastar temporariamente a guerra. A principal característica da guerra que eclodiu no final de fevereiro era a de um combate implacável sobre os corpos das pessoas. Agora, parece que o povo tem a oportunidade de recuperar o fôlego. O mais preocupante é precisamente o caráter temporário da trégua. Este memorando é meramente um expediente para manter um cessar-fogo enquanto avançam as negociações sobre a questão nuclear iraniana e outros temas. Não nos esqueçamos de que a guerra de 12 dias de junho de 2025 também terminou com um acordo de cessar-fogo. Não sabemos sob que pretexto ou de que forma começará a próxima guerra no Médio Oriente, nem quem serão os seus intervenientes; o que importa é que o belicismo e o militarismo na região ganharam um novo ímpeto e novos caminhos.

Em que sentido?

NS: Todos os países da região estão a acelerar a todo o vapor o processo de rearmamento. O Médio Oriente é, mais do que nunca, um barril de pólvora que, mais cedo ou mais tarde, voltará a explodir. Israel continuará a ser uma fonte persistente de tensão e belicismo na região. E, nesta guerra, revelou novas armas e já começou a vender os seus sistemas de defesa a países da região. O Irão está a transferir bases e instalações militares essenciais para o subsolo. Os motores do negócio militar e da corrida ao armamento mal começaram a funcionar. Este cessar-fogo será muito frágil por muitas razões. Para além da probabilidade nada desprezível de que alguma das partes não cumpra os seus compromissos, ou das manobras calculadas e incendiárias de Israel, a questão mais crítica é que as tensões subjacentes que catalisaram o início desta guerra permanecem intactas. Sobretudo porque o capitalismo contemporâneo, atravessado pela crise, só se consegue sustentar apoiando-se em mais guerras.

A administração Trump não conseguiu atingir os seus objetivos iniciais – principalmente travar o avanço da China, através do controlo das artérias globais do petróleo e do gás, e afastar o governo iraniano da órbita da China e da Rússia. Neste sentido, sofreu uma derrota estratégica. Mas, ao mesmo tempo, esta guerra constituiu uma vitória para o sistema capitalista no seu conjunto, na sua fase atual de crise. Para além de injetar enormes recursos de capital nas veias da economia do armamento, abriu caminho para a normalização da guerra e para futuros conflitos, reforçando assim a tendência crescente da “acumulação de capital através do militarismo“. Mitigar a atual crise do sistema capitalista exige que o “regime global de guerra” se torne cada vez mais um complemento indispensável da acumulação de capital.

E que impacto teve isto no regime do Irão?

NS: Esta guerra permitiu ao frágil governo iraniano reestruturar-se num quadro mais militarizado e garantir a sua estabilidade política para o futuro através da expansão do seu aparelho de repressão. Os governantes do Irão podem proclamar a vitória.

Isto é verdade mesmo que o proletariado iraniano seja a principal vítima desta guerra, devido ao agravamento das suas condições materiais e também da sua capacidade de luta. Também o governo israelita, apesar das queixas interessadas dos seus políticos fundamentalistas, pode regozijar-se secretamente pelo facto de as suas estratégias coloniais mais agressivas – que começaram com a guerra e o genocídio em Gaza – se terem normalizado, como evidencia a tendência atual de ocupação militar, destruição e massacre no Líbano.

Como vês o impacto global?

NS: Para o proletariado e as forças anticapitalistas, o verdadeiro desafio mal começou. A guerra no Irão – que surge pouco depois da guerra e do genocídio em Gaza – demonstrou como o “regime global de guerra” avança com força para se expandir e consolidar-se como a nova forma das relações globais de dominação. Nós, revolucionários e comunistas, devemos olhar para além dos acontecimentos do dia-a-dia, que apenas refletem os espetáculos diplomáticos e as fricções geopolíticas dos Estados. Devemos reconstruir a estratégia da luta de classes internacionalista para enfrentar o novo mundo capitalista: um mundo em que a guerra se tornou um elemento permanente, avançando sob o jugo da “necropolítica” e do neofascismo.

Quais têm sido os impactos internos da agressão militar imperialista-sionista contra o Irão?

NS: Imediatamente antes da guerra, o povo do Irão organizou uma revolta maciça e generalizada que foi reprimida de forma horrível. Esta revolta ocorreu no âmbito de uma série de movimentos de massas que têm vindo a ocorrer quase todos os anos desde 2017, tanto a nível nacional como regional, e que têm sido sempre reprimidos com sangue e fogo. No entanto, a escala e a intensidade da repressão à revolta de janeiro de 2026 foram significativamente mais fortes. Ao mesmo tempo, no que diz respeito às condições materiais, desde 2017 a taxa oficial anual de inflação no Irão tem ultrapassado os 40%, enquanto o aumento anual do salário mínimo se tem mantido constantemente abaixo de metade ou de um terço da taxa de inflação. Durante este mesmo período, o fosso entre o Estado e a maioria subalterna da sociedade não deixou de se aprofundar e o seu caráter antagónico intensificou-se ano após ano.

A guerra provocou um aumento da taxa de inflação e a desvalorização da moeda nacional, o que teve um impacto direto na capacidade de subsistência da população. Além disso, com o bombardeamento de certas infraestruturas produtivas e industriais e com a interrupção das cadeias de abastecimento das indústrias, muitos centros de produção e de serviços encerraram. E muitos trabalhadores – assim como aqueles que tinham empregos informais ou precários na periferia – ficaram desempregados. O mais amargo é que, como costuma acontecer, são as mulheres trabalhadoras que mais sofrem com os despedimentos e o desemprego causados pela guerra, agravados pela carga desproporcional que as mulheres suportam no meio do clima de guerra. Também os contínuos cortes de Internet por parte do regime iraniano, que, segundo as estatísticas, interromperam muitos negócios e postos de trabalho que dependiam da ligação, aumentaram o desemprego. Assim, após o início da guerra, a crise de subsistência já existente no Irão atingiu dimensões muito mais catastróficas e evoluiu até se tornar uma ameaça vital. Outro efeito desta situação tem sido o aumento do descontentamento público e do fosso antagónico entre o povo e o Estado, especialmente porque o trauma coletivo dos crimes do regime durante a repressão sangrenta da revolta de janeiro continua muito vivo.

No entanto, o estado de emergência imposto à sociedade pela guerra reduziu drasticamente o nível e a capacidade de ação das massas. Esta contradição – entre o antagonismo intensificado e a eliminação da capacidade de ação das massas – exacerbou o clima de desespero público que já existia.

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