Bolívia: revolta operária, popular, camponesa e indígena

6 de Junho, 2026
3 mins leitura

Por Miguel Lamas, dirigente da Alternativa Revolucionaria do Povo Trabalhador – Força (ARPT), secção da UIT-QI na Bolívia, e da UIT-QI

A repressão em La Paz às manifestações pacíficas contra o governo constitui um crime. Já causou mortos, feridos e detenções ilegais. O Congresso, dominado pela direita, alterou a legislação para permitir a participação militar na repressão, autorizando a prisão de manifestantes e ordenando a detenção de Mario Argollo, o líder máximo da Central Sindical Boliviana (COB).

No entanto, o governo de Rodrigo Paz, eleito há apenas seis meses, está extremamente enfraquecido. Numa reviravolta política, afirma agora que não vai prender ninguém, nem mesmo Argollo, e propõe um “diálogo” com a COB e os setores mobilizados. Mas a maioria das organizações, a começar pela Central Sindical, rejeita este suposto diálogo, alegando que se trata de um governo hipócrita que não merece confiança.

A enorme mobilização popular, com mais de um milhão de trabalhadoras e trabalhadores, para que o governo de Rodrigo Paz se vá embora, continua forte. Há mais de 100 bloqueios de estradas realizados por camponeses e indígenas em todo o país e estão a realizar-se mobilizações e greves em La Paz e noutras cidades com uma participação massiva da COB.

Rodrigo Paz, um governo vendido

Rodrigo Paz promove uma política de pilhagem das riquezas do país em benefício dos oligarcas do agronegócio, das multinacionais, das empresas mineiras privadas e das falsas “cooperativas” associadas a multinacionais. Permite-lhes levar o ouro e outros minerais no valor de milhares de milhões de dólares, enquanto envenenam os rios e endividam o país por gerações. Para levar a cabo os seus planos, faz acordos com Donald Trump e com governos subordinados, como o de Milei, para que o apoiem, inclusive militarmente.

A maioria dos beneficiados responde a interesses económicos estrangeiros que atuam há décadas no país. Apropriaram-se de milhões de hectares quase sem pagar nada, enquanto incendiavam florestas para cultivar soja, causando graves problemas ambientais em todo o país. Esta entrega e pilhagem não começou agora, vem a ser feita desde os governos do MAS. Agora, Rodrigo Paz reduziu ainda mais os impostos da oligarquia latifundiária e permite-lhes levar os lucros dessas exportações sem qualquer tipo de retenção. Também tentou que os oligarcas do agronegócio se apropriassem das terras dos pequenos camponeses e indígenas  (com a ‘Lei 1720‘), mas acabou por retirar esse projeto de lei perante a forte mobilização camponesa indígena, embora tente voltar à carga com outro projeto semelhante. Duplicou o preço do combustível, em grande parte importado, retirando-lhe o subsídio e agora ameaça triplicá-lo.

Essa política provocou o aumento dos preços dos produtos da cabaz de compras, agravado pelo congelamento dos salários, reduzindo o poder de compra das massas populares. Os camponeses e indígenas sem salário vêem os seus rendimentos diminuírem e são ameaçados com a expropriação das suas terras. É por isso que se verifica esta enorme e justa revolta popular.

Fora Rodrigo Paz, por um governo da COB e das organizações populares

A partir do Partido dos Trabalhadores (PT), que integra a Alternativa Revolucionaria do Povo Trabalhador – Força (ARPT) com os militantes bolivianos da Unidade Internacional de Trabalhadoras e Trabalhadores – Quarta Internacional (UIT-QI), apelamos à luta até à queda do governo de direita de Rodrigo Paz e do regime de partidos subordinados à oligarquia latifundiária e às transnacionais. Só assim travaremos a pilhagem e a entrega. Para isso, é fundamental a unidade das organizações em luta, impulsionando uma greve geral revolucionária com mineiros, operários, professores e outros setores, juntamente com os camponeses e indígenas que estão nos bloqueios.

Lutamos pela constituição de um governo transitório da COB com todas as organizações populares em luta e pela convocação de eleições livres, na perspectiva de uma saída operária, camponesa, indígena e popular. Mas será este governo transitório que terá de realizar as mudanças revolucionárias urgentes para acabar com esta pobreza extrema do povo trabalhador.

Esse governo tem de pôr fim ao domínio da oligarquia do agronegócio e das transnacionais que levam para fora do país as riquezas e as divisas produzidas pelo povo trabalhador. Entretanto, continuaremos a lutar pela saída de Rodrigo Paz do governo e para impedir que continuem a levar as nossas riquezas. 

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