De Minab a Gaza: o fim do mito da tecnologia imparcial

3 de Abril, 2026
2 mins leitura

Por Ekin Güvençoğlu, do Partido da Democracia dos Trabalhadores (IDP), secção da UIT-QI na Turquia

Assistimos, mais uma vez, ao colapso, nos campos de batalha, do conto de fadas do progresso tecnológico imparcial e infalível que o capitalismo e os meios de comunicação dominantes vêm promovendo há anos. A tecnologia, tanto no passado como nos dias de hoje, nunca foi supra-classista nem independente das relações sociais; pelo contrário, é, na verdade, um instrumento que serve, na maioria das vezes, aos interesses e à exploração do capital que detém os meios de produção. O que hoje é apresentado como a “Revolução da Inteligência Artificial” é também uma forma digital e mais destrutiva do ciclo de destruição criativa a que o capital recorre para superar as suas crises. Vejamos como o fazem.

Um dos exemplos mais recentes desta destruição ocorreu em Minab, nos ataques da aliança EUA-Israel contra o Irão. Um míssil de cruzeiro Tomahawk, apresentado como uma das armas guiadas mais precisas do mundo, não atingiu, como alegado, uma instalação militar, mas sim uma escola primária de raparigas em Minab, onde 175 crianças foram massacradas. Embora a administração Trump tente disfarçar este ataque como uma necessidade militar, o bombardeamento de uma escola civil é um crime de guerra evidente. O massacre em Minab não é um desvio, mas sim o resultado da máquina de guerra imperialista que reduz a vida humana a dados estatísticos. O discurso da responsabilização é, por sua vez, um teatro que encobre a responsabilidade dos assassinos.

Um sistema semelhante de automatização da morte está também em funcionamento em Gaza. Sistemas de inteligência artificial utilizados pelo exército israelita, como o ‘Lavender‘ e o ‘The Gospel‘, submetem milhões de palestinianos a uma vigilância em massa, atribuindo-lhes pontuações de alvo. Esses sistemas, que transformam as pessoas em peças de um processo de morte mecanizado, destroem edifícios civis com bombas de baixo custo, juntamente com as pessoas que neles se encontram, em vez de realizar os chamados ataques cirúrgicos. Assim, enquanto o fardo moral das decisões de alvo é transferido para os algoritmos, o massacre é banalizado. A adoção oficial do sistema Maven da ‘Palantir‘ pelo Pentágono e a integração do modelo Claude da ‘Anthropic‘ nesta estrutura militar revelam claramente a aliança entre o Silicon Valley (Vale do Silício) e o militarismo.

O capital utiliza estas guerras não apenas para destruir territórios, mas também para adiar as suas próprias crises e abrir novos campos de exploração. Os sistemas de inteligência artificial, obrigados a crescer continuamente, consomem quantidades gigantescas de eletricidade e água, acelerando simultaneamente a devastação da natureza. À medida que as guerras por recursos se intensificam em torno de chips, elementos de terras raras e recursos necessários para a refrigeração de centros de dados, estas estruturas controlam áreas como linhas de energia, regiões mineiras, redes logísticas e infraestruturas digitais, tornando-as mais dependentes dos países exploradores e dos monopólios.

O que fazer?

Hoje em dia, a tecnologia é uma arma nas mãos dos Estados imperialistas e dos monopólios tecnológicos, voltada contra a classe trabalhadora, os povos oprimidos e a natureza. No entanto, a solução não está na hostilidade à tecnologia nem na destruição de máquinas. A solução passa por todos os proletários – desde aqueles que produzem esses sistemas até aos mineiros que dão vida a esses chips – terem uma palavra a dizer sobre a tecnologia e os meios de produção. A conta das crianças assassinadas em Minab não pode ser encerrada com a desculpa de um “erro algorítmico“. A paz e a liberdade só são possíveis através de uma luta de classes internacional em que a tecnologia seja utilizada para satisfazer as necessidades sociais e não para gerar lucro.

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