Milei manipula os dados sobre a pobreza enquanto prossegue com as medidas de austeridade e a pilhagem

2 de Abril, 2026
4 mins leitura

Por José Castillo, dirigente da Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina, e da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidos (FIT-U)

Há um vídeo que se tornou viral. Nele, o presidente Javier Milei afirma: “tirámos 8 milhões de pessoas da pobreza“, para dizer, apenas uma semana depois, “tirámos 9 milhões da pobreza“, e assim continua, com intervalos de poucos dias, aumentando o número: “tirámos 10 milhões de argentinianos da pobreza“, depois “11 milhões“, e poucos dias depois entusiasma-se e diz “12 milhões“, “13 milhões“, “14“, para terminar afirmando “tirámos da pobreza 15 milhões de argentinos“.

É evidente que a mentira não poderia ser maior. Agora, o governo de extrema-direita aproveita para se apoiar num dado oficial do INDEC (Instituto Nacional de Estatística e Censos): os dados da Pesquisa Permanente de Famílias para o segundo semestre de 2025. Segundo este indicador, a percentagem de pobreza era, nessa data, de 28,2%. Menos do que no primeiro semestre (31,6%) e também menos do que há um ano atrás (38,1%). Mais ainda, afirma-se que é o nível mais baixo em sete anos.

Escusado será dizer até que ponto o governo de A Liberdade Avança (La Libertad Avanza – LLA) irá “explorar” este número. Precisa dele como do ar que respira para encobrir escândalos como o de Adorni ou o $LIBRA, para não falar da revolta crescente contra a inflação, os despedimentos, os encerramentos em todo o país (como o da FATE) ou o conflito universitário.

É claro que a manipulação das estatísticas tem pernas curtas. Sobretudo quando contradiz flagrantemente a realidade. Será que podemos realmente encontrar amplos setores da classe trabalhadora, ou nos bairros populares, ou mesmo na classe média tão duramente atingida, que “sintam” na sua vida quotidiana que estão melhor do que há seis meses, ou há um ano?

Isto não é, sem dúvida, compatível com a realidade de salários e pensões pulverizados, perdendo por goleada e sistematicamente, mês a mês, contra uma inflação que cresce sem parar desde maio passado. Muito menos com o dado, totalmente corroborado por relatórios privados e públicos, de que fecharam 22.000 empresas desde que este governo assumiu e se perderam mais de 300.000 postos de trabalho. Ou com a realidade de um crescimento astronómico do trabalho precário, semiescravo, das plataformas de aplicações, a que cada vez mais pessoas recorrem por menos dinheiro para tentar obter algum rendimento. Em termos mais técnicos, temos a queda vertiginosa do consumo de massa, verificada por todas as consultoras que acompanham esse setor. Ou da arrecadação de impostos como o IVA, dado macroeconómico que reflete a recessão.

A isto podemos acrescentar o drama do endividamento da população. São milhões as pessoas que, com rendimentos insuficientes, passaram o ano passado a comprar comida com cartões de crédito, que este ano não conseguem pagar. Recorrem primeiro a novos créditos para cobrir essas dívidas e, depois, entram diretamente em incumprimento. Os créditos em incumprimento atingiram um recorde absoluto, tanto no sistema bancário como nas Fintech (tecnologia financeira), e até mesmo nos cartões de supermercados ou lojas de eletrodomésticos.

Podemos continuar a acumular provas. Soube-se que já se tornou costume para milhões de trabalhadores “saltar o almoço“, ou a imagem, que já conhecemos quase desde o início do governo de Milei, daqueles que não têm outra opção senão “saltar” os torniquetes porque não conseguem pagar as tarifas de transporte.

Como é possível que, apesar de toda esta realidade, surja um número que insiste em que a pobreza “diminuiu“? O segredo técnico reside no facto de se continuar a utilizar um cabaz de bens para compor o Cabaz de Compras Total (que estabelece o limiar abaixo do qual se considera que uma pessoa é pobre), totalmente desatualizado. É o mesmo que se utiliza para o Índice de Preços ao Consumidor. Por ter mais de vinte anos, pondera os serviços de forma proporcional. Assim, quando qualquer trabalhador ou trabalhadora sabe que, depois de pagar a luz, o gás, a água, a conta da Internet, o SUBE (Passe de transporte coletivo), as despesas de condomínio e, nem falando se tiver de pagar renda, não lhe resta praticamente nada, tudo isso representa, em percentagem, um montante menor do que a Cabaz do INDEC. Para que fique claro, os aumentos das tarifas têm muito pouco impacto neste cabaz.

Em termos concretos de números, uma família-tipo (quatro membros, dois adultos e dois menores) que ultrapasse os 1.300.000 pesos (813,59€) já não era considerada pobre em dezembro do ano passado, de acordo com esta medição.

É claro que toda mentira tem pernas curtas. O desastre económico dos últimos meses é tal que, mesmo com esta forma de cálculo extremamente restrita, os três primeiros meses de 2026 já mostram que a pobreza voltou a aumentar. 

Javier Milei continuará a brincar com o seu discurso. Ninguém acredita nele. O povo trabalhador sabe que não tem outra opção senão continuar a lutar por salários e pensões dignas, contra os despedimentos e por verbas para a educação, a saúde, a habitação e a ciência e a tecnologia. Por isso, a partir da Esquerda Socialista e da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidos, continuamos a exigir que a CGT (Confederação Geral do Trabalho da República Argentina) rompa o seu escandaloso pacto com o governo e convoque uma greve e um plano de luta. E também afirmamos que é preciso acabar com o plano de cortes drásticos de Milei, que também é aplicado pelos governadores peronistas. Precisamos de um plano económico alternativo, operário e popular, que deixe de pagar a dívida externa, rompa com o FMI e coloque todos os recursos ao serviço da resolução dos problemas populares mais urgentes.

Ir paraTopo

Don't Miss