Por José Castillo, dirigente da Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina, e da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidos (FIT-U)
O ultradireitista Javier Milei leva quase dois anos a executar um verdadeiro plano de guerra contra o povo trabalhador. Sob o lema mentiroso de que “não há dinheiro“, destrói salários e pensões, aumenta o desemprego, destrói a saúde pública e a educação, ataca as universidades, corta fundos para pessoas com deficiência, abandona as obras públicas, destrói a investigação científica e uma longa lista de etcetc. Mas enquanto impõe austeridade aos trabalhadores, há dinheiro para pagar pontualmente cada um dos vencimentos da dívida externa.
Milei “herdou” e deu continuidade ao plano de austeridade do FMI, assinado pelo governo peronista de Alberto Fernández, Cristina Kirchner e Sergio Massa, que já vinha a privar de alimentos a população trabalhadora. O presidente acolheu com entusiasmo as exigências do Fundo e aprofundou a austeridade. No entanto, apesar da sua política económica brutal, os dólares não foram suficientes para fazer face aos vencimentos da dívida, nem para travar a fuga de capitais especulativos promovida pelos seus próprios aliados empresariais. Isto levou a que, no passado abril, fosse renovado o acordo com o FMI, pactuando novas exigências de austeridade em troca de mais 20 mil milhões de dólares de dívida, dos quais já entraram 12 mil milhões. Em apenas seis meses, Milei dilapidou esses dólares entre pagamentos da dívida e a manutenção de um novo esquema financeiro. Foi então que Donald Trump apareceu “em socorro“.
Trump e Bessent assumem o controlo da política económica argentina
Primeiro surgiu o anúncio no Twitter (atualmente o ‘X‘) do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, que prometeu “ajuda financeira” ao governo argentino. Depois, foram conhecidos os detalhes: tratava-se de um swap cambial, ou seja, um empréstimo sob controlo direto de funcionários norte-americanos, que decidirão em que momento e para que fim cada dólar será disponibilizado. Não são fundos para a economia argentina, são dólares para garantir que os credores abutres sejam pagos.
Depois, veio a cena patética: Milei e a sua equipa praticamente de joelhos perante Donald Trump numa reunião de submissão política. Quando perceberam que o dólar poderia disparar antes das eleições, veio a rendição final. Bessent começou a intervir no mercado cambial argentino com os seus próprios fundos: vendeu cerca de 2 mil milhões de dólares através de bancos internacionais como o Santander, o Citibank e o JPMorgan. Tudo para manipular o resultado eleitoral do nosso país ao serviço de Washington.
E como se faltasse alguma coisa…
Já tínhamos o governo de Javier Milei de joelhos perante o Fundo Monetário Internacional e explicitamente submetido às imposições do governo de Donald Trump. Faltava o último capítulo desta entrega nacional: a intervenção direta do JPMorgan. Foi o próprio Scott Bessent quem antecipou que “provavelmente” haveria um auxílio adicional para a Argentina de cerca de 20 mil milhões de dólares, gerido por bancos privados. Esse suposto resgate acabou por ser nada mais e nada menos do que um novo acordo de dependência financeira com o maior banco dos Estados Unidos, historicamente ligado às negociações da dívida externa em todo o mundo.
Este banco não é um ator externo nem neutro. É o antigo patrão da atual equipa económica argentina. Por essa entidade passaram Luis ‘Toto‘ Caputo, hoje ministro da Economia; José Luis Daza, vice-ministro; Pablo Quirno, atual ministro das Relações Exteriores e ex-secretário das Finanças; Santiago Bausili, presidente do Banco Central; Vladimir Werning, o seu vice; Nicolás Ferro, vice-superintendente de entidades financeiras; Esteban Klein, subgerente geral de Operações; e Demián Reidel, presidente da Nucleoeléctrica Argentina. Todos eles fazem parte de um mesmo engrenagem financeira que opera agora a partir do interior do Estado, garantindo negócios multimilionários para os mesmos bancos a que antes serviam. A gestão económica de Milei está colonizada por ex-executivos da entidade que hoje governam para os seus antigos chefes.
A obscenidade da submissão foi total quando o JPMorgan decidiu realizar a sua reunião anual na Argentina na sexta-feira anterior às eleições nacionais. O seu CEO global, Jamie Dimon, chegou acompanhado de figuras do ‘establishment‘ internacional, como a ex-secretária de Estado dos Estados Unidos durante o governo de George W. Bush, Condoleezza Rice, e o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair. Milei foi ao encontro com Dimon numa cena que beirou o servilismo diplomático. Em troca de se colocar “aos seus pés“, mal obteve um sorriso protocolar e uma vaga promessa de “continuar a conversar” sobre um eventual empréstimo para o país, empréstimo que, caso se concretizasse, apenas aumentaria a dívida externa usurária. Dimon mantém uma linha direta com os seus ex-funcionários, hoje instalados em cargos-chave do Ministério da Economia e do Banco Central, para definir cada passo da política financeira argentina.
Fora o FMI, o Trump e o JPMorgan
No dia seguinte à vitória eleitoral do A Liberdade Avança, o presidente norte-americano gabou-se publicamente, afirmando: “Ganhámos imenso na Argentina“. Os detentores de obrigações e os fundos abutres comemoraram a subida das cotações graças à garantia do swap norte-americano e ao controlo cambial que Bessent continuará a gerir em benefício de Washington. Entretanto, o JPMorgan prepara-se para iniciar um novo ciclo de endividamento, garantindo superlucros para o capital financeiro internacional e aprofundando a entrega do país. Todo este festival especulativo é financiado com fome, austeridade e pilhagem sobre o povo trabalhador argentino e os seus recursos.
Perante este panorama, a única saída é construir um programa económico alternativo, operário e popular, totalmente oposto ao atual. Um programa que rompa com o FMI, com os pactos com Trump e com a banca estrangeira, a começar por deixar de pagar a dívida externa ilegítima. Só assim poderemos destinar os recursos nacionais às necessidades urgentes do povo: salários e pensões dignos, trabalho genuíno, saúde e educação públicas, habitação e obras públicas. A riqueza do país deve estar ao serviço das maiorias, não dos bancos abutres nem dos especuladores financeiros! O dinheiro tem de ir para o Garrahan1, para as pessoas com deficiência, para as universidades e para a classe trabalhadora, não para o JPMorgan nem para o FMI!
- Hospital público pediátrico em Buenos Aires, que em 2024 viu o seu financiamento congelado pelo governo federal [↩]