Por José Castillo, dirigente da Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina, e da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidos (FIT-U)
Supõe-se que, no discurso de abertura das sessões, um presidente deveria falar sobre os problemas centrais do país e dar explicações sobre as suas propostas para enfrentá-los. Ele deveria referir-se, por exemplo, à inflação, que, segundo afirmações suas anteriores, já deveria ter desaparecido; à economia, que ele garantiu que cresceria como “um peido de mergulhador” (“pedo de buzo” – a ideia é que a economia finalmente deu a volta por cima e agora está em fase de crescimento); ou ao ajuste económico que prometeu com o eufemismo de que “a casta pagaria” e não o povo trabalhador. Nada disso aconteceu. Em vez disso, agiu de forma descontrolada e posou como chefe de uma gangue. Milei fez um discurso que incluiu 36 insultos diretos à oposição, muitos deles até mesmo escritos no próprio texto que leu.
Uma gigantesca operação de segurança bloqueou o trânsito em todo o centro da cidade, desde a ‘Casa Rosada‘ até o Congresso, sem que houvesse uma única pessoa na praça para apoiar o governo. Tanto foi assim que, ao se retirar, Milei saiu do carro para “cumprimentar“, mas como não havia ninguém, acabou apertando a mão de um ‘granadero’1 a cavalo. Também ficou exposto diante das câmaras o escândalo de uma vice-presidente afastando, com o clássico “ombro colado ao corpo“, Karina Milei, no melhor estilo de um defesa marcando na área. E depois olhando para o telemóvel enquanto Milei falava.
Os camarotes estavam ocupados, é claro, por quem aplaudia o governo e entoava slogans sob a liderança do Daniel Parisini, conhecido como o “Gordo Dan”, que se dedicou especialmente a hostilizar os deputados da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidos (FIT-U) quando denunciavam Milei por tantas falácias e mentiras.
O presidente disse algo substancial? Sim, prometeu mais ‘motosserras‘. “Vamos apresentar 90 iniciativas!“, anunciou o ultradireitista. Ratificou a sua ofensiva contra a educação pública e confirmou o alinhamento incondicional com Donald Trump, enquanto era aplaudido com entusiasmo pelos embaixadores dos Estados Unidos e de Israel, localizados num lugar privilegiado do hemiciclo, ainda mais destacado do que o de vários ministros.
Ele afirmou, incrivelmente, que não tinha aumentado o desemprego, mas sim “o número de pessoas à procura de emprego“. E como se chama alguém que procura emprego e não consegue, senão desempregado? Ele voltou a defender a abertura económica e chegou a apresentar como algo positivo o encerramento de empresas. Ele disse isso claramente: “Quando se abre a economia, permite-se a entrada de bens de melhor qualidade e menor preço“. Sem controlos, isso significa a entrada de produtos de qualidade duvidosa e até mesmo perigosos. Acrescentou que, se uma empresa local não consegue competir, “fala em falência e despede pessoas“, com uma frieza que causa arrepios. Em seguida, garantiu que o consumidor economizará dinheiro a comprar produtos importados e o destinará a outros bens, gerando empregos em setores “mais produtivos” que pagariam melhores salários. Uma teoria libertária de manual que colide brutalmente com a realidade de despedimentos em massa e salários e pensões em queda abrupta.
Milei também reafirmou a pilhagem dos recursos naturais e a destruição ambiental, apontando que o futuro está “na cordilheira” [dos Andes], ou seja, na megamineração poluente, como se fosse daí surgissem os empregos que substituirão o industricídio que está a provocar.
Um presidente descontrolado, com gestos e expressões de tom fascista, mentindo sobre uma suposta “recuperação económica” e delineando uma política que aprofunda a guerra social contra o povo trabalhador e os setores populares. Não é que a austeridade brutal tenha terminado; tudo indica que uma nova fase está apenas a começar. Ele chegou mesmo a falar da “superioridade moral” que proclamam as suas políticas de extrema direita, aliadas a Trump e ao genocida do povo palestiniano Netanyahu, que estão a bombardear o Irão.
A conclusão é clara: será necessário continuar a lutar e a organizar-se contra as consequências da ‘motosserra‘ do governo e do FMI. É imprescindível cercar de solidariedade todas as lutas em curso, como hoje a dos trabalhadores e trabalhadoras da ‘FATE‘2, e exigir que a ‘CGT‘ (Confederação Geral do Trabalho da República Argentina) rompa a sua vergonhosa trégua com o governo e convoque um plano de luta.
A saída não é mais austeridade nem mais submissão, nem a variante do peronismo que já governou e administrou o mesmo esquema de endividamento e dependência. A saída é um plano económico alternativo, operário e popular: como propomos desde a Esquerda Socialista e a FIT-U, deixar de pagar a dívida externa, romper com o FMI e destinar esses recursos a um plano de emergência que garanta orçamento para saúde, habitação, educação, criação de emprego genuíno e salários e pensões de acordo com o cabaz familiar.
Só assim a economia poderá ser colocada a serviço das necessidades da classe trabalhadora e dos setores populares, e não dos lucros dos grandes grupos empresariais e do imperialismo. O dia 24 de março, 50 anos após o golpe genocida3, será a nova oportunidade que o povo trabalhador e a juventude terão para conquistar as ruas, reunindo centenas de milhares contra o fascista Milei e o FMI.
- Atualmente, é o regimento que atua como Guarda de Honra Presidencial e cumpre funções protocolares cerimoniais. É o guardião da ‘Casa Rosada‘, o Palácio Presidencial Argentino, localizado na extremidade leste da Plaza de Mayo. O regimento também assume funções cerimoniais e de segurança nas várias residências do Presidente da Argentina em todo o país, e no Palácio do Congresso [↩]
- Uma fábrica de pneus [↩]
- Conhecido como ‘Dia Nacional da Memória pela Verdade e pela Justiça‘ (‘Día de la Memoria por la Verdad y la Justicia‘), comemora-se o aniversário do ‘Golpe de Estado de 1976’, que derrubou Isabel Perón como Presidente e instalou uma Junta militar encabeçado pelo Jorge Rafael Videla, que durou até 1983. Marcada por um plano sistemático de repressão, com mais de 800 centros clandestinos de detenção, tortura, desaparecimentos forçados, e os famosos ‘Voos de Morte‘ em que pessoas eram atiradas de helicopteros ao mar, vivas, e dada a perseguição sistemática pela ditadura militar de uma minoria social, o período foi classificado como um processo genocida e ficou conhecido como a “Guerra Suja“. O governo dos EUA estava em contacto direto com os golpistas e acolheu com satisfação a destituição da Presidente, com Henry Kissinger em particular a ver a tomada do poder pelos militares como um passo necessário para restaurar a ordem e a estabilidade, agindo rapidamente para estabelecer relações amigáveis com a nova junta e fornecer apoio imediato e tácito ao regime que assumiu o poder. Em reuniões, Kissinger instou os militares a agirem rapidamente para esmagar o “terrorismo” e alertou contra deixar que as questões de direitos humanos interferissem nos seus objetivos, dando “luz verde” para se envolverem em severa repressão política contra os oponentes identificados. A junta tinha como objetivo eliminar ativistas de esquerda, incluindo estudantes, sindicalistas, jornalistas e escritores, com estimativas de mortes e desaparecimentos variando entre 22.000 e 30.000. Entre as vítimas, havia um número desproporcional de judeus, estimado entre 1.900 e 3.000, e apesar de representarem apenas 1% da população, correspondiam a cerca de 10% a 15% das vítimas “desaparecidas“. Foi o pior e maior massacre antissemita desde o Holocausto e até hoje [↩]