Pela Luta Internacionalista (LI), secção da UIT-QI no Estado Espanhol
A 11 de novembro está convocada uma greve geral. Passados 14 anos desde a última, os sindicatos CCOO (Comissões Operárias) e a UGT (União Geral dos Trabalhadores)também a convocam. Este facto, e para além da tentativa de o associar à pré-campanha do Governo progressista (PSOE-IU-Podem), o próprio facto de o terem convocado constitui uma vitória do movimento e o resultado da intensidade da luta pela habitação, abalada pelo despejo e subsequente morte de Maricarmen em Madrid e pelos suicídios de Olga e Javier1.
O Governo pode manter-se à margem da greve, como se esta fosse uma medida preventiva para o novo governo do PP-VOX que todas as sondagens prevêem. Mas o drama na habitação é também o resultado dos últimos 8 anos de governos progressistas (PSOE-Podemos-Sumar). Esta é a realidade que não se pode minimizar para dizer que “poderia piorar se a direita governasse com a extrema-direita“. Pelo contrário, é a política destes governos da suposta esquerda que não resolveu o problema da habitação, entre tantas e tantas outras promessas não cumpridas, o que dá asas ao PP e ao VOX.
O movimento pela habitação também responde a um mal-estar social mais geral. Vimos passar por greves importantes no ensino público na Comunidade Valenciana, na Catalunha e noutras comunidades. Em Madrid, inicia-se a greve por tempo indeterminado, após uma dura luta do setor 0-3. Também houve greves na saúde. Os reformados preparam uma marcha em Madrid para 24 de outubro… Unificar todos os setores em luta na greve geral exige um plano de luta, construir a greve geral a partir da base, dar-lhe continuidade.
Mas o surgimento do movimento massivo pela habitação faz parte de um movimento de protesto mais geral nos países vizinhos. Um movimento que se opõe às políticas de falta de recursos ou, diretamente, aos cortes nos serviços públicos. Isto numa Europa que aumenta os orçamentos militares.
Na Bélgica, em 2025, houve quatro grandes mobilizações gerais, incluindo a de novembro com duração de três dias, contra o orçamento nacional. Este ano houve uma em janeiro contra a reforma das pensões e existe uma convocada para 16 de outubro, a denunciarem os cortes nos serviços públicos. Juntam-se também setores em luta, como os transportes, a recolha de lixo, a educação ou a saúde.
Na França, está a decorrer uma forte greve dos estudantes contra o governo de Macron, liderado por Sébastien Lecornu. Numa reação repressiva brutal por parte do governo, já foram detidas 6.600 pessoas e mais de 300 estudantes e professores ficaram feridos. À luta dos estudantes e professores juntaram-se sindicatos e outros movimentos. Vínhamos de 2025, com três grandes jornadas de greve em setembro, outubro e dezembro contra os cortes nas pensões e nos serviços públicos.
Na Grécia, vimos mobilizações contra a reforma laboral do governo de Kyriakos Mitsotakis, que impunha jornadas de até 13 horas por dia, com, também, duas jornadas em outubro de 2025 contra a reforma do mercado de trabalho e os orçamentos. Além disso, houve mais uma jornada de greve contra o acidente ferroviário de Tempi, que causou 57 mortos.
Em Portugal, em dezembro de 2025 e junho de 2026, realizou-se uma greve geral contra a nova reforma laboral. Conseguiram travá-la. Em junho, as mobilizações alastraram-se ao setor público dos transportes, às escolas e aos hospitais. Agora, o movimento pela habitação ganha força, com elementos de contágio da luta na Espanha.
A Itália registou um aumento do movimento de protesto. Com a greve geral em setembro de 2025 pela Palestina e a subsequente que culminou com a derrota do referendo sobre a reforma da justiça de Meloni. Este mês há convocatórias de vários setores e, a 30 de outubro, uma greve geral contra as despesas militares e em defesa dos serviços públicos.
Uma característica destes movimentos é o protagonismo da juventude, uma presença que já se tinha iniciado na solidariedade com a Palestina, e uma consciência crescente de unidade com a luta da classe trabalhadora. Este é o caminho. Estes movimentos enfrentam a política dos imperialismos europeus e da União Europeia, que exige aos governos um aumento de até 5% das despesas com armamento, ao mesmo tempo que cortam nos serviços públicos e limitam a expansão da habitação social.
Recursos para serviços 100% públicos: educação, saúde, serviços sociais, transportes, parque habitacional. Não ao rearmamento imperialista! Unificar as lutas rumo à greve geral! Unidade entre trabalhadores e estudantes!
Mas precisamos de uma alternativa política; queremos impulsioná-la apresentando-nos, no dia 29 de novembro, “Por uma Frente de Esquerda dos Trabalhadores e das Trabalhadoras“. Mas não é assim tão fácil, porque no Estado, é verdade o que se diz: “chamam-lhe democracia, mas não é“: temos de recolher milhares de assinaturas para o podermos fazer. É uma forma de tornar muito difícil a apresentação da esquerda revolucionária, sem grandes aparelhos nem financiamento. Ajuda-nos.
- A 7 de Setembro, mulher de 54 anos e mãe duas filhas – uma delas menor de idade – tirou a sua vida. E há cinco meses que tinha sido despejada do seu apartamento em L’Hospitalet (Barcelona), onde vivia há mais de vinte anos. Na noite anterior ao despejo, marcado para 15 de abril, Olga ameaçou tirar a própria vida. Foi acionado o protocolo antissuicídio e foi transportada de urgência para o Hospital. O seu advogado solicitou que a execução fosse suspensa, mas o juiz decidiu avançar. De facto, segundo o sindicato da habitação, o magistrado argumentou que a família estava a agir de má-fé. A poucos dias do suicídio de Olga, Javier, um sapateiro de 60 anos, tambem de L’Hospitalet, suicidou-se antes de ser despejado da sua loja [↩]