Por Guillermo Schelling, dirigente da Luta Internacionalista (LI), secção da UIT-QI no Estado Espanhol
Já passaram vários dias desde a tragédia dos migrantes na fronteira de Ceuta e, a cada dia que passa, continuam a aparecer mais pessoas afogadas, cujo número já ultrapassa as cem. Esta situação desumana na fronteira de Ceuta não pode ser justificada, nem analisada apenas como uma crise migratória, como muitos meios de comunicação e os próprios governos espanhol e marroquino tentam fazer-nos acreditar.
É preciso procurar as causas do que estamos a viver no mundo; porque esta não é a primeira situação migratória no Estado espanhol, nem na UE, nem no mundo. O cerne do problema reside na grande crise em que se encontra o sistema capitalista-imperialista que, para poder manter os seus privilégios e os seus enormes lucros, impõe aos trabalhadores e aos povos do mundo planos de austeridade que se traduzem em baixos salários e pensões, despedimentos, perda de direitos sociais e pilhagem da riqueza dos povos, com a ajuda dos governos nacionais.
É para esta situação que são arrastados os trabalhadores e o povo marroquino, o que os leva a emigrar em busca de uma vida melhor para si próprios e para as suas famílias. E deparam-se com leis e fronteiras impostas pela UE e pelo Estado espanhol – e nas quais o Estado de Marrocos é cúmplice – que lhes impedem o acesso, com repatriamentos forçados e/ou repressão.
O governo alauita1 não é alheio a esta situação, ainda mais depois de ter estreitado os seus laços com os EUA e Israel, bem como do seu confronto com a Argélia. O regime marroquino não hesita em colonizar o Saara e reprimir povos como o do Rif2, bem como os protestos dos seus trabalhadores e jovens.
Nestes dias, estamos a assistir a como o discurso da extrema-direita, baseado no medo e no ódio, que há muito vem sendo promovido para que seja assimilado pelos trabalhadores e pelos povos do Estado Espanhol e da UE. Aproveitado pela direita e pela extrema-direita aqui, o PP (Partido Popular) e o VOX, ou a nível europeu, como Meloni, propagam por todos os meios esta tragédia humana como se fosse uma invasão ou um “efeito de chamada“. A extrema-direita procura, através do seu discurso, transformar os migrantes numa ameaça.
O VOX quis transformar Ceuta num novo Torre Pacheco3, mas o povo de Ceuta manifestou-se para os expulsar e conseguiu-o, mostrando o caminho para travar o avanço e o ódio da extrema-direita.
Por mais leis e fronteiras que haja, a migração continuará e a burguesia espanhola beneficia desta situação, impondo salários baixos para manter os seus lucros. Os Estados espanhol e marroquino, sobretudo, têm interesses comuns – económicos, geopolíticos e empresariais -; embora possam existir divergências, respondem ao mesmo sistema e ao mesmo interesse de classe.
Por isso, consideramos fundamental lutar por:
– Revogação da Lei dos Estrangeiros;
– Não ao Pacto Europeu sobre Migração e Asilo e ao desmantelamento da Frontex;
– Acabemos com o discurso de ódio através da mobilização popular;
– Mais recursos para o sistema de acolhimento, especialmente para os menores;
– Chega de deportações imediatas;
– Nativa ou estrangeira, a mesma classe trabalhadora;
– Pelo fim das colonizações: devolução de Ceuta e Melilha a Marrocos e do Saara aos saharauis.