Por Enes Kablan, do Partido da Democracia dos Trabalhadores (IDP), secção da UIT-QI na Turquia
Na Bolívia, mal se passaram seis meses desde que o governo de direita, liderado por Rodrigo Paz, assumiu o poder, e já eclodiu uma grande mobilização liderada por mineiros, professores, camponeses e os povos indígenas. As mobilizações de massas, lideradas pela Central Sindical Boliviana (COB), espalharam-se por todo o país. O evento que deu início à mobilização foi a tentativa do governo de Rodrigo Paz de aprovar na Assembleia Legislativa o ‘projeto lei n.º 1720‘ (também conhecido como a ‘Lei Branko Marinkovic‘1). O projeto de lei abria caminho para que os pequenos agricultores pudessem contrair empréstimos utilizando as suas terras como garantia. Os pequenos agricultores e as populações indígenas estavam cientes de que este projeto de lei seria utilizado para transferir propriedades para a oligarquia agrícola. De facto, essa mesma oligarquia era responsável pela queima de 10.000 hectares de floresta – o que equivale a 10% da superfície do país – em 2024, um fenómeno que contribui para a crise climática. Na sequência da mobilização, o governo de direita de Rodrigo Paz viu-se obrigado a retirar o projeto de lei a 13 de maio.
Embora tenha sido este o acontecimento que desencadeou a última mobilização na Bolívia, a questão não se limita a isso. Desde que assumiu o governo, Rodrigo Paz tem vindo a aplicar uma política de austeridade rigorosa e medidas que facilitam a pilhagem do país. Segue políticas que aumentam os preços dos combustíveis e dos bens de consumo básicos, reprime os salários, concede isenções fiscais a empresas multinacionais; governa o país com leis eleitorais e decisões antidemocráticas e assina acordos com os EUA para a transferência de minerais preciosos.
É neste contexto que assistimos à mobilização da classe operária e do povo trabalhador da Bolívia. Em vários locais, nomeadamente na capital do país, La Paz, estão a ser bloqueadas estradas com exigências que incluem, nomeadamente, a demissão do governador de direita Rodrigo Paz, o aumento dos salários à taxa de inflação, a prevenção da expropriação das terras dos camponeses e dos povos indígenas, o fim da pilhagem dos recursos naturais do país, a expropriação dos grandes proprietários de terras, a nacionalização das empresas multinacionais e a utilização de todos estes recursos de acordo com as necessidades do povo boliviano.
Nos últimos dias, assistimos à assinatura de um acordo entre a liderança da COB e o governo de Rodrigo Paz. Confiando neste acordo, Rodrigo Paz declarou o estado de emergência para reprimir a mobilização. Apesar deste acordo traidor da liderança da COB, os trabalhadores, as organizações de massas, os camponeses e os povos indígenas continuam a lutar para ampliar a mobilização, a opor-se ao regime de Rodrigo Paz e às políticas de austeridade, e a exigir a formação de um governo de transição através de eleições livres.
- Branko Marinković é um senedor e proprietário de terras, que ocupou os cargos de Ministro do Planeamento do Desenvolvimento e Ministro da Economia e das Finanças Públicas durante um mês e meio em 2020, durante a presidência interina de Jeanine Áñez. Após este curto mandato, foi apresentada uma petição contra ele ao Senado e aos tribunais bolivianos, alegando que terá facilitado a venda ilegal de mais de 33.000 hectares de terra, tanto a si próprio como a membros da sua família [↩]