A vida está cada vez mais cara para quem trabalha. A fatura ao final do mês não para de aumentar, e quem a paga são sempre aqueles que vivem do seu trabalho. A ida às compras é cada vez mais dolorosa, com os preços a aumentarem sem fim à vista. Aquilo que antes era básico torna-se mais difícil de garantir.
O cabaz alimentar, acompanhado pela DECO desde 2022, ultrapassou recentemente, pela primeira vez, os 260€, atingindo um novo máximo histórico de 260,89€. Só desde o início de 2026 já aumentou mais de 19 euros e, em comparação com 2022, o aumento ultrapassa os 70 euros, quase 40%. Ao mesmo tempo,os preços dos combustíveis continuam marcados por uma forte oscilação, que agrava as dificuldades na gestão do orçamento familiar. Para muitos trabalhadores, especialmente em zonas onde o carro é indispensável, assim como para pequenos negócios, estas oscilações traduzem-se em custos imprevisíveis e cada vez mais difíceis de suportar.
O impacto desta escalada de preços já se faz sentir de forma dramática. Mais de 400 mil pessoas em Portugal dependem atualmente de ajuda alimentar, um número que continua a crescer. Segundo dados do Expresso, o perfil de quem recorre a este apoio mudou: já não são apenas as famílias mais pobres, mas também jovens, imigrantes, famílias com crianças e pessoas qualificadas que, mesmo tendo trabalhado, já não conseguem fazer face às despesas.
Lucros recorde à custa de quem trabalha
A justificação que nos é apresentada para esta subida de preços são “as guerras”; quer seja a invasão russa sobre a Ucrânia, quer seja a guerra dos EUA e Israel contra o Irão. No entanto, se esta fosse apenas uma questão de custos, não veríamos os lucros recorde que se têm registado nos setores da distribuição e da energia.
Sendo verdade que a disrupção das cadeias de abastecimento, provocada por estas duas guerras, tem o seu peso, os lucros crescentes tanto das grandes superfícies como das empresas petrolíferas revelam outra história. A Jerónimo Martins, dona do Pingo Doce, fechou o ano de 2025 com um lucro de 646 milhões de euros, uma subida de 6%. Já a GALP sobe 20% e fecha o ano passado com um valor recorde de 15 mil milhões de euros.
Mais recentemente, os lucros da GALP voltaram a disparar. Só no primeiro trimestre de 2026, aumentaram 41%, atingindo 272 milhões de euros, impulsionados diretamente pela subida dos preços do petróleo no contexto da instabilidade internacional, mostrando muito bem que aquilo que nos dizem ser a causa do aumento dos preços – a guerra – é precisamente o que está a alimentar os lucros destas empresas.
No caso das petrolíferas, este jogo é bastante claro, já que o preço na bomba aumentou dias depois do fecho do estreito de Ormuz, apesar desse combustível ainda ter sido comprado quando o barril estava a um preço inferior. Por outro lado, quando o preço do barril desce, a descida nas bombas não é imediata. Desta forma, as gasolineiras conseguem vender a gasolina o mais caro possível, enquanto justificam estar só a reagir aos valores do mercado internacional.
Não é muito diferente para as grandes superfícies de distribuição alimentar. A maioria do aumento dos custos recai sobre os produtores; no entanto, por causa do seu poder económico quase de monopólio, as grandes superfícies pressionam os pequenos produtores a vender o mais barato possível ao mesmo tempo que especulam o preço final ao consumidor. Propostas como o IVA 0 para o cabaz alimentar, como já se viu no passado, só reforçam a taxa de lucro das grandes superfícies, que continuam a especular.
É urgente controlar os preços!
Hoje, quem trabalha vê o seu salário perder valor mês após mês. Aquilo que antes garantia uma vida minimamente estável já não chega para cobrir as despesas básicas. Como vimos, isto não se explica só com “a guerra”. Se o problema está na lógica de mercado e no poder dos grandes grupos, então a solução não pode passar por deixar tudo como está.
É necessário intervir diretamente, tabelando os preços dos bens essenciais, incluindo cabaz alimentos, produtos de higiene, medicamentos e energia, assim como o preço dos combustíveis, para garantir que ninguém fica sem acesso ao básico e que estes produtos e serviços estão disponíveis a preços justos, protegidos de aumentos especulativos.
Mas nenhuma destas medidas será conquistada sem luta. Enquanto os grandes grupos continuarem a definir os preços segundo os seus interesses, o resultado será o aumento dos seus lucros à nossa custa.
É preciso organizar uma resposta à altura, colocando na ordem do dia a luta contra o aumento do custo de vida, para impedir que os preços continuem a subir e para exigir o aumento geral dos salários, que vêm perdendo valor a cada ano, sem nunca serem atualizados de maneira a compensar a inflação.