Reproduzimos abaixo a resposta da ‘Ukraine Solidarity Campaign’ (Reino Unido) ao vídeo de Zarah Sultana sobre a ajuda militar à Ucrânia
Não temos prazer em criticar uma jovem figura política de esquerda do Reino Unido que frequentemente se manifestou a favor dos direitos dos trabalhadores e de causas progressistas, mas estes comentários pouco coerentes de Zarah Sultana sobre a Ucrânia resumem muito do que há de errado com a sua ala da esquerda.
Em primeiro lugar, sim, Zelensky não é amigo da classe trabalhadora ucraniana, no sentido de que o seu governo segue políticas económicas de direita, neoliberais e anti-laborais. Ao contrário de Zarah Sultana, nós sabemos algo sobre isso, pois estamos ligados aos sindicatos ucranianos e temos estado ativamente envolvidos em ajudá-los a lutar contra essas políticas. Não nos lembramos de ter recebido NENHUMA ajuda desta campanha por parte de Sultana (ao contrário de muitos outros deputados trabalhistas de esquerda).
A realidade é que Sultana e companhia não estão realmente muito interessados nos direitos e nas lutas dos trabalhadores na Ucrânia. Falar sobre as políticas anti-laborais de Zelensky é apenas uma forma de expressar a sua hostilidade em relação aos direitos da Ucrânia. Como Sultana e companhia sabem muito bem, é perfeitamente possível apoiar a luta de um povo pela liberdade nacional e, ao mesmo tempo, opor-se ao governo ou à liderança política que atualmente está à frente dessa luta. Eles não aplicam isso aqui por uma razão simples: eles não apoiam a Ucrânia.
Como parte dessa hostilidade à Ucrânia, temos um reconhecimento pro-forma de que Putin é um “ditador“, um “gangster” – imediatamente seguido pelo ataque a Zelensky, como se os dois regimes fossem iguais e também como se fosse indiferente qual deles governa a Ucrânia. Para justificar isso, Sultana, de forma rídícula, equipara as potências ocidentais que enviam armas a Israel e aos Emirados Árabes Unidos (dado o seu papel no Sudão) ao envio de armas à Ucrânia para se defender.
Então, ela é agora uma pacifista absoluta? Enviar armas é errado/deve ser combatido em todas as circunstâncias? A esquerda estava errada ao pedir armas para a República Espanhola na guerra civil? Deveria ter-se oposto às armas soviéticas e chinesas para o Vietname contra os EUA? Deveria ter-se oposto às armas indianas para a luta de libertação do Bangladesh contra o Paquistão? – para citar alguns dos muitos exemplos…
É claro que Sultana não é pacifista. Ela está a usar esse tipo de argumento porque é conveniente para se opor à ajuda à Ucrânia. A ideia de que os únicos beneficiários da resistência ucraniana à invasão são as empresas de armas ocidentais é absurda e vergonhosa. É outra forma de dizer, mais uma vez, que não importa se a Ucrânia mantém a sua independência ou é subjugada e esmagada…
A indústria capitalista de armamento beneficia das guerras. Sempre que possível, os socialistas opõem-se à guerra como meio de resolver disputas; e certamente nos opomos ao lucro com ela (é por isso que, por exemplo, a esquerda tem apelado à propriedade pública da indústria de armamento). Mas a ideia de que, por isso, os povos oprimidos devem render-se e ser esmagados, dizendo “Queremos defender-nos, mas não com armas” ou “Queremos defender-nos e precisamos de armas, mas não as vamos obter da única fonte realmente disponível neste momento” é absurda.
Sultana cita uma conferência em que participou em Paris. Trata-se de uma reunião de estalinistas, campistas e pacifistas irracionais – bem como, sem dúvida, algumas pessoas decentes que concordam com argumentos muito estúpidos – semelhante à Stop the War Coalition (Coligação Parem a Guerra) no Reino Unido, que participou. Além da sua total indiferença (na melhor das hipóteses) em relação aos direitos nacionais da Ucrânia, nenhum dos oradores consegue sequer condenar de passagem o que a Rússia fez à Ucrânia e aos ucranianos. Mesmo a oradora russa, de quem se poderia esperar uma demonstração de simpatia pelos ucranianos, não diz nada sobre o que o imperialismo russo está a fazer à Ucrânia. Será por causa da sua própria inclinação política? Ou por uma avaliação do que será bem recebido por essa audiência? Quem sabe… Quanto ao orador ucraniano, ele parece estar associado a este grupo.
Obviamente, como qualquer outro povo, os ucranianos têm opiniões diversas. Em geral, não temos qualquer problema em dar voz a pessoas que defendem uma opinião minoritária num determinado país ou comunidade. Mas a realidade é que a esquerda do Stop the War faz de tudo para encontrar o número minúsculo de ucranianos que concordam com as suas opiniões, recusando-se a envolver-se com o movimento trabalhista e a esquerda reais da Ucrânia, porque sabem que os ativistas da ucrania se opõem veementemente às posições que defendem.
Além de conversar com sindicalistas ucranianos, socialistas, etc., Sultana, Corbyn e outros poderiam tentar conversar com socialistas e anti-imperialistas russos, que condenam a guerra da Rússia e apoiam a Ucrânia, mas isso parece ser demais para eles também!
Apelamos a Zarah Sultana e aos demais para que se envolvam de facto com o movimento trabalhista e a esquerda ucranianos, mostrem alguma solidariedade e, sim, apresentem os seus argumentos – mas estejam preparados para participar de debates acalorados! Entretanto, eles devem tentar elevar os seus próprios argumentos sobre a Ucrânia acima do tipo de frases de efeito que Sultana profere no vídeo acima – que, embora mais breves e incoerentes do que muito do que a esquerda do Stop the War divulga, são representativas na sua total incoerência.
Um ponto adicional: apelar para o facto de que russos e ucranianos da classe trabalhadora estão a morrer na guerra para evitar avaliar a questão política envolvida e, portanto, a necessidade de tomar partido, é realmente mesquinho. Dado o caráter da guerra, é claro quem deve ser responsabilizado e como pôr fim ao massacre (incluindo de soldados russos): a Rússia deve sair da Ucrânia! Portanto, devemos apoiar a resistência da Ucrânia.
Temos apoiantes e amigos, apoiantes da Ucrânia, que se inscreveram no Your Party (O Seu Partido). Vamos ajudá-los a organizar-se para apoiar a Ucrânia, tal como também trabalhamos com apoiantes no Partido Trabalhista, no Partido Verde e noutros locais. Mas a realidade é que o Your Party parece estar dominado exatamente pelo tipo de ideias que Sultana expressa aqui. Isso é realmente lamentável.