Por Elif Sevimay, do Partido da Democracia dos Trabalhadores (IDP), secção da UIT-QI na Turquia
Os vencedores dos Prémios Nobel deste ano foram anunciados nas últimas semanas. O Prémio Nobel da Paz foi, mais uma vez, atribuído a uma figura que transforma a violência num instrumento político. A política venezuelana de extrema-direita María Corina Machado não tardou em dedicar o seu prémio a Trump. Outra jogada controversa da sua parte foi ligar a Netanyahu para o felicitar pelos seus “sucessos” durante o genocídio. Pouco tempo depois de o Comité Nobel ter premiado Machado “pela sua luta por uma transição justa e pacífica da ditadura para a democracia“, Trump anunciou que iria lançar uma operação terrestre na Venezuela. Assim, ficou claro que o termo “pacífico” se referia a políticas imperialistas. A possível intervenção dos EUA, que já mantêm as suas frotas na região sob o pretexto de alegações de tráfico de drogas, foi legitimada por este prémio.
O Prémio Nobel da Paz tem desempenhado, há anos, um papel ativo neste tipo de legitimações. Basta analisar um pouco a história do prémio, que já foi recebido por conhecidos criminosos de guerra como Kissinger (1973) e Obama (2009), para perceber isso. O líder reformista etíope Abiy Ahmed, que recebeu o prémio ainda em 2019, ficou marcado por conflitos armados na região de Tigray no espaço de um ano. Em 2016, foi premiado outro presidente de direita, o colombiano Juan Manuel Santos, que afirmou sentir-se orgulhoso por o seu país ser referido como o “Israel da América Latina“. Se recuarmos um pouco mais na história, vemos outros nomes controversos, como Aung San Suu Kyi, responsável pelo genocídio dos rohingya, e o líder da OLP (Organização para a Libertação da Palestina), Yasser Arafat, que recebeu o prémio durante o processo dos ‘Acordos de Oslo‘, no qual defendia uma solução de ‘dois Estados‘.
Apesar das guerras que conduziu em várias regiões do Sudoeste Asiático durante o seu mandato, Obama também foi considerado merecedor do prémio em 2009. Ao longo da administração Obama, foram realizados um total de 563 ataques com drones no Paquistão, Iémen e Somália. Desde que regressou ao cargo em janeiro, Trump também afirmou em várias ocasiões que “merecia o Prémio Nobel da Paz“. A indicação de Trump para o prémio por parte de Netanyahu coroou este processo de propaganda. Outro nome que se destaca na história dos prémios dos EUA é, sem dúvida, Kissinger. O planeador dos ataques que causaram a morte de dezenas de milhares de civis no Vietname e no Camboja foi premiado pelo seu papel nas negociações no Vietname.
Tudo isto não será nem o primeiro nem o último exemplo que demonstra o caráter político dos Prémios Nobel da Paz. Estes prémios, que encobrem as políticas de destruição do imperialismo sob o manto da “democracia” e da “liberdade“, não conseguem abafar a voz dos trabalhadores que lutam pela paz em todo o mundo. A verdadeira paz não brota nas cerimónias de entrega de prémios, mas sim em todos os lugares onde a solidariedade cresce.