Por Miguel Sorans, dirigente da Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina, e da UIT-QI
A rejeição dos vetos de Milei, na sessão parlamentar de 17 de setembro, provocou uma enorme celebração entre a multidão que lotava as imediações do Congresso. O desastre político do governo refletiu-se na impressionante mobilização de massas e também no facto de, desta vez, ter havido votos de sobra na Câmara dos Deputados. Foi mais uma derrota esmagadora para o governo. Ultrapassou-se por mais de 12 votos os dois terços necessários e a vitória foi ampla. Mas houve quem, no meio das comemorações, tentasse difamar um deputado da esquerda revolucionária como Juan Carlos Giordano, da Esquerda Socialista (IS) na Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidos (FIT-U).
Uma dessas figuras revelou-se o jornalista Matías Mowszet, do programa streaming “Industria nacional“no canal de ‘streaming’ Gelatina, ao lado de Pedro Rosemblat. Matías Mowszet foi, há algum tempo, candidato a presidente da câmara de Villa Carlos Paz, em Córdoba, por uma lista kirchnerista.
O nosso camarada Giordano esteve ausente na sessão de dia 17 por motivos de força maior, uma vez que, desde o final de agosto, integra a Flotilha ‘Global Sumud‘ que se dirige a Gaza, com alimentos e medicamentos, para tentar a corajosa ação de romper o cerco imposto pelo assassino genocida Netanyahu ao povo palestiniano.
Uma tentativa fracassada de desacreditar Giordano e a Esquerda Socialista
Perante essa ausência, Matías Mowszet twittou: “Quem se safou hoje foi o Giordano. Chegava a ficar em pé algum veto por 1 voto e o estigma nunca mais se tirava“. Rapidamente recebeu uma enxurrada de mensagens de repúdio e de solidariedade com Giordano na sua tarefa de apoio a Gaza.
É claro que o jornalista Mowszet procurou atacar Giordano e o seu apoio ao povo palestiniano, descrevendo uma situação que nunca existiu: que estivesse a um voto de perder os vetos. Além disso, sem esclarecer que a ausência de Giordano se devia ao facto de ele se encontrar numa missão perigosa, ao lado de dezenas de ativistas de todo o mundo. Missão essa que, até à data, ainda não terminou e que corre um elevado risco de acabar por ser reprimida pelo sionismo, que ameaçou levar os tripulantes dos navios para prisões em Israel.
Ironicamente, afirmou que Giordano “escapou“, pois se, devido à sua ausência, se perdesse um veto, “já nunca mais se livraria do estigma“. Que estigma? O de ir contra os trabalhadores e as trabalhadoras? É lamentável o que Matías Mowszet disse e foi precisamente por isso que foi repudiado. E ainda mais porque lançou o seu ataque quando já era bastante evidente que nunca se colocou a possibilidade de o voto de Giordano decidir alguma coisa.
Já antes da votação, começaram a circular esse tipo de comentários sobre a ausência de Giordano e sobre o facto de isso poder levar à derrota por um voto. Por desconhecimento do papel de Giordano ou da realidade política do parlamento, muitos camaradas podem talvez ter tido dúvidas sinceras sobre esse suposto perigo.
Por isso, é importante deixar claro perante a classe trabalhadora, perante os trabalhadores e trabalhadoras do Garrahan1 e da comunidade educativa universitária, o papel dos deputados e deputadas da IS e de quem são os verdadeiros responsáveis por o parlamento votar ou não votar alguma medida em benefício do povo trabalhador.
A Câmara dos Deputados é composta por 257 deputados e deputadas que, na sua esmagadora maioria, pertencem a partidos burgueses. Apenas cinco pertencem à esquerda trotskista, da FIT-U. Ou seja, há 252 deputados e deputadas que pertencem às forças burguesas: do peronismo em todas as suas variantes, dos radicais (União Cívica Radical), do PRO (Proposta Republicana), do A Liberdade Avança ou de outros blocos. Por isso, é muito improvável que, com 5 assentos, uma votação dependa do voto da FIT-U.
Mas, para esclarecer as dúvidas, vamos levar ao extremo a hipótese de que se tivesse verificado esse caso supostamente ultraexcepcional, em que os vetos tivessem sido definidos pelo nosso deputado Giordano, que se encontra na missão de apoio a Gaza. Teria sido totalmente injusto atribuir essa derrota parlamentar ao nosso partido, a Esquerda Socialista, e à ausência do camarada Giordano. A responsabilidade total e absoluta teria sido dos partidos políticos da burguesia, dos seus deputados e deputadas que se dizem opositores de Milei. São entre 175 e 180 deputados e deputadas. Se os vetos não tivessem sido rejeitados, a responsabilidade teria sido desses blocos patronais. Ter-se-ia devido às manobras e mudanças de voto de última hora (de origens obscuras) que os blocos e os legisladores e legisladoras de origem burguesa fazem constantemente. Por privilégios, por exemplo, dois senadores peronistas da província de Misiones alteraram os seus votos. Posteriormente, foram aprovados, na Câmara dos Deputados, alguns vetos por meio de acordos políticos espúrios.
Isto é habitual e amplamente conhecido pelo povo trabalhador. Desta vez, sobraram votos porque Milei vai de mal a pior. Ninguém quis ficar com o “estigma” de ter votado contra o Hospital Garrahan ou a universidade a poucas semanas das eleições. É tão simples quanto isso.
Giordano devia abandonar a Frota para Gaza ou demitir-se do cargo de deputado?
Infelizmente, dias antes da votação de 17 de setembro, os nossos camaradas do FIT-U, em especial a direção nacional do PTS (Partido dos Trabalhadores Socialistas), acompanhada pela do PO (Partido Operário) e do MST (Movimento Socialista dos Trabalhadores), estavam obcecados com a possibilidade de o voto de Giordano ser decisivo. Uma visão que se revelou errada e totalmente desfasada da realidade. Disseram-nos isso oralmente e até por carta, chegando ao ponto de nos propor que o camarada Giordano abandonasse a missão de apoio a Gaza e regressasse, ou que renunciasse ao seu mandato para que alguém do FIT-U votasse em seu lugar.
Duas propostas descabidas e inaceitáveis. Mas o mais insólito foi que propusessem a sua renúncia como deputado, uma vez que ficaria sem imunidade, o que o deixaria muito mais exposto à repressão do sionismo quando o interceptassem. Não se trata de um problema meramente pessoal. O facto de ser deputado em exercício confere-lhe mais autoridade para tentar interceder em nome de toda a frota quando os sionistas aparecerem para os prender. Ao ser deputado em exercício, ajuda a frota no seu conjunto. É muito valioso para todos os seus integrantes, que estão a colocar em risco a sua integridade física em apoio ao povo palestiniano, que esteja presente um deputado em exercício. Não se trata apenas de Giordano; na frota há dezenas de deputados em exercício de diferentes países do mundo que irão desempenhar esse papel.
O papel dos parlamentares revolucionários
Tudo isto volta a colocar em cima da mesa a questão de qual deve ser o papel dos socialistas revolucionários no parlamento burguês. Uma questão sobre a qual temos sempre nuances e divergências com os outros partidos da FIT-U. Nós, deputados e deputadas da FIT-U, somos diferentes dos do regime burguês, daqueles 252 que também estão ali sentados. Estamos nas lutas, mas nas lutas nacionais e também nas internacionais. Os deputados e deputadas da IS juram, ao assumirem os seus lugares, apoiar a luta palestiniana e opor-se ao genocídio israelita.
É por isso que o Giordano se expõe, sendo um dos poucos parlamentares nacionais da América Latina que vai enfrentar o perigo que esta ação solidária acarreta face ao sionismo racista e criminoso, que é apoiado pelo governo de extrema-direita de Javier Milei.
A tarefa dos parlamentares dos partidos revolucionários, tal como foi estabelecido nas resoluções dos congressos da Terceira Internacional2 nos seus primeiros anos, é levar a essa instituição da burguesia as causas, as lutas justas e os interesses dos trabalhadores e dos povos do mundo. É por isso que temos critérios distintos dos dos parlamentares burgueses. Recusamos criar uma falsa ilusão entre os trabalhadores e a juventude de que, a partir daí, é possível alcançar mudanças substanciais, em benefício dos interesses dos trabalhadores e do povo. Recordamos a definição tradicional de que o parlamento é “um covil de bandidos”, e poderíamos igualmente dizer “um covil de corruptos“.
A partir da Esquerda Socialista e da Unidade Internacional de Trabalhadoras e Trabalhadores – Quarta Internacional (UIT-QI), continuamos a acreditar que o centro, o eixo para alcançar vitórias, derrotar governos como o de Milei e conseguir mudanças profundas, é a mobilização operária, estudantil e popular. Quem nos segue e quem nos conhece sabe-o bem.