Por Mercedes Trimarchi, vereadora da Cidade Autônoma de Buenos Aires, eleita pela Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidos (FIT-U), e membro da Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina
Esta quarta-feira, 4 de junho, no décimo aniversário do ‘Ni Una Menos‘1, realizámos uma grande manifestação unitária em frente ao Congresso Nacional em repúdio às medidas de extrema-direita de Milei e do FMI. Reunimos diferentes setores em luta, entre eles o Garrahan ((Hospital público pediátrico em Buenos Aires, que em 2024 viu o seu financiamento congelado por parte do governo federal)), e apelamos a que se continue a coordenar as reivindicações. A CGT (Confederação Geral do Trabalho da República Argentina) deve abandonar o pacto com o governo, apelando a uma nova greve de 36 horas e a um plano nacional de luta.
Foi um grande êxito comemorar os dez anos desse grito coletivo com a unidade de todos os setores em luta. Foi assim que o definimos nas assembleias feministas de preparação da jornada. Estabelecemos um objetivo, que o movimento feminista abraçasse as reformadas que se têm mobilizado todas as quartas-feiras, assim como a confluência de todas as lutas – e conseguimos.
Mobilizámos mulheres e a comunidade LGBTQIA+, de diferentes idades, com especial destaque para os mais jovens, o que não é de admirar. Continua a haver um femicídio a cada 31 horas, um número que Milei nega e quer mesmo eliminar do Código Penal o femicídio, ao mesmo tempo que desmantela os programas de combate à violência de género. Também fazemos menção á luta dos médicos, assistentes, enfermeiros, técnicos e pessoal administrativo do hospital de Garrahan. Amanhã, haverá uma greve dos médicos e de outros setores do hospital, com uma marcha até à Plaza de Mayo. As famílias e os profissionais que têm protestado em frente ao Congresso contra os cortes nos subsídios de invalidez também se juntarão, tal como professores, pessoal não-docente e estudantes das universidades que exigem um aumento do orçamento, trabalhadores despedidos de diferentes sectores, desempregados, organizações sociais e políticas, com uma forte presença de forte presença da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidos (FIT-U).
O documento unificado, lido por Liliana Daunes, foi contundente. Numa das suas partes afirma-se: “Não nos interessa celebrar um aniversário. Somos chamados à tarefa de enfrentar o plano de fome e empobrecimento de Javier Milei e do FMI e o esquema de saque e negócios que o sustenta. São as lutas de baixo que hoje sentem a urgência de um apelo à unidade, ligando todos os conflitos que enfrentam o ajuste e a crueldade“. E apresentou 10 pontos de destaque, entre eles o repúdio ao FMI e o não pagamento da dívida. Denunciou também o genocídio em Gaza, que tira a vida a uma mulher a cada hora e a uma criança a cada dez minutos.
O mesmo Milei que governa para o FMI, ataca o jornalismo, aplica decretos ditatoriais, veta leis que não lhe convêm e reprime os reformados todas as quartas-feiras, chamando de “golpistas e antidemocráticos” aos que se mobilizaram. Isto só lhe conseguiu acrescentar ainda mais sectores à luta. Está provado que, quando as marchas são massivas e unidas, não conseguem implementar seu protocolo anti-piquetes, assinado em 2023, o qual impede os piquetes em que os manifestantes bloqueiam as estradas e auto-estradas da cidade. O protocolo também permite que a polícia apreenda máscaras, bastões ou outros elementos que considere poderem ser utilizados numa manifestação nas estações de comboios e autocarros; e que os indivíduos e organizações que protestam sejam identificados através de “meios vídeo, digitais ou manuais”, sendo-lhes depois cobrado o custo do “envio de forças de segurança para policiar as manifestações”. É de salientar que o próprio Milei e a Ministra da Segurança Bullrich já participaram em piquetes anteriores, para grande desilusão dos mesmos, tal como aconteceu com a marcha de hoje.
Hoje mostrámos como enfrentar o governo de extrema-direita de Milei e o FMI. Apelamos a que se continue a apoiar as lutas em curso, especialmente a de Garrahan, para continuar a uni-las e coordená-las. Neste sentido, é importante que a CGT abandone o pacto com o governo, já que depois da importante greve geral de 10 de abril não fixou nenhuma outra medida de luta. O documento lido no Congresso assinalava corretamente: “É urgente convocar uma nova greve nacional que una todas as lutas até que o plano de Javier Milei seja derrotado! Uma greve que devemos continuar a exigir em todas as assembleias, organismos de delegados e mobilizações“.
A Esquerda Socialista e a FIT-U, continuarão a impulsionar este caminho, pela mais ampla unidade para derrotar a sinistra motosserra de Milei, dos governadores e do FMI; e que o dinheiro vá para os salários, as pensões, para Garrahan, para as universidades, para a cultura, para CONICET (Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas), para garantir todas as prestações por invalidez e para os outros setores necessitados. Não para a agiota dívida externa. Colocamos toda a nossa militância e as nossas sedes ao serviço deste objetivo.
- Nem Uma a Menos – um movimento feminista de base e da quarta vaga, que começou na Argentina e se espalhou por vários países da América Latina. O protesto foi organizado na sequência do assassinato de Chiara Paez, de 14 anos, espancada até à morte e enterrada debaixo da casa do namorado. Estava grávida de algumas semanas e queria ficar com o bebé, mas ele não quis [↩]