Pela UIT-QI
Na quarta-feira, 30 de setembro, as forças militares dos Estados Unidos abandonam o Iraque após 23 anos de uma invasão criminosa. Os fuzileiros navais abandonam a última base militar instalada em Erbil, na região autónoma do Curdistão iraquiano, consolidando uma nova derrota dos Estados Unidos e um fracasso da sua política que expõe as crises e as fraquezas do imperialismo norte-americano. O Governo de Trump fracassou com os seus bombardeamentos sobre o Irão e as suas bases militares na região sofreram vários ataques, agravando a crise de segurança e o pânico entre as tropas.
Em 2003, George W. Bush acusou falsamente o governo de Saddam Hussein de possuir armas de destruição maciça e bombardeou e invadiu o país, deixando mais de 600.000 vítimas civis, dois milhões de refugiados e torturas brutais contra prisioneiros de guerra. Em 2006, Hussein foi executado para impor o regime fantoche e ditatorial de Nouri al-Maliki, que, durante décadas, não conseguiu estabilizar a região, apesar de ter mantido mais de 150.000 militares no país.
O Iraque, juntamente com o Afeganistão, transformou-se num novo Vietname para os Estados Unidos e agravou a crise de domínio político, militar e económico do imperialismo. Em 2011, o governo de Barack Obama ordenou a retirada das tropas, em acordo com o governo iraquiano. O governo aliado dos Estados Unidos provocou uma crise social crescente, face à qual se sucederam importantes e legítimas mobilizações populares influenciadas pela Primavera Árabe que dominava a região. As manifestações foram violentamente reprimidas. Esta situação, juntamente com o vazio provocado pela retirada e pela desintegração do regime, foi aproveitada pelo ‘ISIS‘ (‘Estado Islâmico do Iraque e do Levante‘, também conhecido como ‘Daesh‘) para tomar algumas cidades no norte em 2014, fornecendo um pretexto para uma nova intervenção militar criminosa, incluindo bombardeamentos, por parte dos Estados Unidos. Assim, em 2014, as tropas militares imperialistas norte-americanas e europeias regressaram ao Iraque para lançar a ‘Operação Resolução Inerente‘ (‘Operation Inherent Resolve‘), com o objetivo de controlar o investimento imperialista nos poços de petróleo e salvar o governo. Al-Maliki concordou em demitir-se do cargo e ser substituído por Haider al-Abadi, que foi nomeado pelo presidente do país.
As forças xiitas do Iraque, juntamente com os Houthis do Iémen, são uma verdadeira dor de cabeça para Donald Trump. Em março de 2026, a Embaixada dos Estados Unidos em Bagdade foi alvo de um ataque aéreo. As forças xiitas (ramo maioritário do Islão no Iraque), como as ‘Forças de Mobilização Popular‘ (‘FMP‘), aliadas ao Irão, organizam-se dentro das fronteiras iraquianas. Anteriormente, em janeiro de 2024, a ‘Resistência Islâmica‘ do Iraque levou a cabo um ataque contra a base militar de Al Tanaf – até então controlada pelos Estados Unidos -, no sul da Síria (na fronteira com o Iraque e a Jordânia), onde morreram três soldados norte-americanos. Os Estados Unidos retiraram-se da base em janeiro de 2026. A ‘Resistência Islâmica‘ também realizou operações conjuntas com os Houthis do Iémen contra Eilat, no sul de Israel, e contra um navio militar israelita em Haifa.
A retirada das tropas é um golpe para o governo de Trump, que procura chegar a um acordo com o governo iraquiano e as forças do Curdistão através de novas relações militares que compensem a sua retirada, estabelecendo assim uma nova troca de informações e formação específica, bem como a manutenção da maior embaixada norte-americana do mundo em Bagdade e do maior consulado, em Erbil. Para atenuar o golpe, os Estados Unidos irão transferir o Centro de Operações da ‘Força-Tarefa Conjunta Combinada – Operação Resolução Inerente‘ (‘CJTF-OIR‘) para a Jordânia, demonstrando o papel pró-imperialista da monarquia jordaniana.
O atual primeiro-ministro do Iraque, Ali al-Zaidi, declarou o dia 1 de outubro como o “Dia da Soberania do Iraque“. No entanto, a retirada formal das tropas norte-americanas deixa em aberto uma situação política frágil e instável que, longe de se normalizar, tende a agravar-se. Podem surgir novos confrontos no Iraque, onde a classe trabalhadora e os povos deverão tomar a iniciativa de enfrentar o governo, lutar pelas suas reivindicações e direitos e prosseguir a luta pela expulsão do imperialismo norte-americano e europeu de todo o Sudoeste Asiático.