A crise do imperialismo norte-americano e os impasses internos de Trump

10 de Agosto, 2026
3 mins leitura

Por Alp Kozan, do Partido da Democracia dos Trabalhadores (IDP), secção da UIT-QI na Turquia

Nos últimos meses, testemunhámos todos em conjunto as manobras levadas a cabo pelo imperialismo norte-americano no plano internacional, com toda a sua agressividade. A Cimeira da NATO, na qual a administração Trump intimidou os países membros e os obrigou a aumentar os orçamentos de guerra para 5% do PIB; o facto de ter levado à entrada em vigor das “reformas” de mercado livre em Cuba, em resultado do embargo que impôs; o facto de ter continuado a bombardear o Irão, violando o cessar-fogo anunciado; a “Cimeira Anti-esquerda” realizada com a participação de 66 países e muitos outros exemplos. Neste artigo, ao avaliarmos todos estes desenvolvimentos à luz da situação atual do imperialismo norte-americano, abordaremos um aspeto que geralmente é ignorado: a política interna dos EUA.

A luta de classes nos EUA continua

Em julho, o estado de Massachusetts testemunhou a maior greve no setor da saúde da sua história. Um total de mais de 4.500 enfermeiros e profissionais de saúde, que entraram em greve para exigir melhores salários e condições de trabalho, enfrentaram o bloqueio imposto pela administração hospitalar e conseguiram regressar aos seus postos de trabalho.

Os ataques da administração Trump contra os trabalhadores migrantes, por sua vez, continuam com toda a sua brutalidade. A 7 e a 13 de julho, respetivamente nos estados do Texas e do Maine, dois trabalhadores migrantes foram assassinados pelo Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos (ICE). As manifestações em massa que se seguiram a estes assassinatos em ambos os estados, embora não tenham ocorrido à escala nacional como as ondas de protestos anteriores, revelaram o ponto fraco das políticas anti-imigração da administração Trump.

Eleições intercalares: o impasse de Trump e a ascensão da DSA

Não é por acaso que a “Cimeira Anti-Esquerda” e, na sequência desta, a classificação dos apoiantes da Palestina e dos esquerdistas – tanto no país como no estrangeiro – como supostos agentes do regime cubano tenham ocorrido em julho. As derrotas sofridas pelo imperialismo norte-americano na Palestina e no Irão tiveram como repercussão, a nível interno, ações contra o aumento do custo de vida e os protestos em massa ‘No Kings‘ (‘Não Há Reis‘) que se realizaram por todo o país. A administração Trump encontra-se, neste momento, talvez no período em que tem recebido menos apoio da sua história. Além disso, tudo isto ocorreu na véspera das eleições intercalares “Midterms1 nos EUA.

Nas eleições ‘Midterms‘ de 3 de novembro, será renovada a totalidade da Câmara dos Representantes e um terço do Congresso. Esta situação tem o potencial de reduzir significativamente a influência de Trump no país.

As massas insatisfeitas com Trump estão a voltar-se, nas eleições intercalares, para os candidatos dos Socialistas Democráticos da América (DSA), que podemos definir como a ala de esquerda do Partido Democrata. As vitórias obtidas pelos candidatos do DSA nas primárias foram recebidas com receio, tanto no seio do Partido Democrata como entre os apoiantes de Trump. Ambas as alas procuram impedir o avanço dos candidatos da DSA recorrendo a discursos sobre a “ameaça comunista“.

Poderá a DSA ser a solução para os problemas?

Apesar de toda a esperança que suscitaram entre as massas, é bastante difícil afirmar que os candidatos da DSA sejam capazes, tanto de “derrotar” o imperialismo norte-americano, como de dar resposta às preocupações da classe trabalhadora dos EUA. Sabemos que a DSA, que desenvolve a sua atividade política no seio do Partido Democrata – um partido burguês -, não conseguirá concretizar tudo isto precisamente devido a este obstáculo estrutural. O exemplo mais recente disso foi a declaração do “rosto sorridente” do DSA, o presidente da Câmara de Nova Iorque, Zohran Mamdani, de que não poderia prender legalmente o genocida Netanyahu. Para além do erro político desta declaração de Mamdani – conhecido pelo seu apoio à Palestina e que fez da prisão de Netanyahu um dos pontos centrais da sua campanha eleitoral -, ela representa um sério perigo para a sua própria carreira política: Mamdani renunciou a uma exigência revolucionária fundamental que defendia e esta situação pode levar as massas a perderem a confiança nele (e, de um modo geral, na DSA) e a que ele perca o apoio social que conquistou, tal como vimos no caso do Syriza (Grécia), do Podemos (Estado Espanhol) e de muitos outros.

Do ponto de vista da luta de classes mundial, uma das questões mais prementes continua a ser a construção, nos EUA, de um partido revolucionário que defenda uma política anti-imperialista e independente da classe trabalhadora.

  1. São eleições intercalares para a ‘Câmara dos Representantes‘ e o ‘Senado‘, do Congresso norte-americano []
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