SpaceX: a privatização do espaço e a nova fase do tecnocapitalismo

14 de Junho, 2026
3 mins leitura

Por Ekin Güvençoğlu, do Partido da Democracia dos Trabalhadores (IDP), secção da UIT-QI na Turquia

Durante muito tempo, o espaço foi apresentado como o destino comum e a visão partilhada da humanidade. Hoje, porém, transformou-se numa parte do portfólio de investimentos dos bilionários, em contratos militares e no conto de fadas de trilhões de dólares das bolsas de valores. No centro de tudo isto está, mais uma vez, o ‘visionário‘ (!) Elon Musk, que tenta promover a SpaceX – um dos seus “brinquedos” – como se fosse um milagre do mercado livre. Enquanto as empresas de Musk crescem há anos com apoios públicos de milhares de milhões de dólares, espera-se hoje que a SpaceX angarie 75 mil milhões de dólares com a sua oferta pública inicial e atinja uma valorização de quase 2 biliões de dólares. O facto de a empresa, que cresceu com os impostos do povo, se transformar em fortuna na bolsa de valores é-nos apresentado como um sucesso.

Da corrida espacial à pilhagem espacial

A corrida espacial da época da Guerra Fria deu agora lugar à aventura comercial denominada “Novo Espaço“. Sim, a redução dos custos de lançamento da SpaceX é um sucesso técnico; mas a questão é em benefício de quem a tecnologia é utilizada. Milhares de satélites Starlink e um plano que chega a dezenas de milhares estão a transformar a órbita terrestre baixa num território de ocupação de empresas privadas. As observações astronómicas estão a tornar-se mais difíceis, o risco de acidentes e o problema do lixo espacial estão a aumentar. Tal como o capitalismo afogou os oceanos em plástico e destruiu florestas em nome da mineração, agora essa mesma ganância está a ser transportada para o céu.

Embora este processo seja apresentado como um avanço para a humanidade, na verdade serve os mercados financeiros. A entrada em bolsa da SpaceX nos próximos dias, com avaliações na ordem dos biliões de dólares, representa uma nova transferência de riqueza que poderá tornar Musk num dos primeiros bilionários do mundo. Enquanto, por um lado, milhões de pessoas não têm acesso a água potável, por outro, o espaço está a ser transformado num campo de batalha do capital para centros de dados de inteligência artificial e redes militares.

A ocupação da soberania

A questão não é apenas a poluição do espaço, mas a criação de uma nova forma de soberania privada. As infraestruturas de comunicações e segurança, outrora públicas ou sob controlo estatal, estão agora a tornar-se dependentes das empresas de um único oligarca. O papel da Starlink nos campos de batalha demonstrou isso mesmo. A Internet por satélite já não é apenas um serviço de ligação; é parte integrante de operações militares, de serviços secretos e de cálculos políticos.

Este quadro desmonta também o mito de que a tecnologia é neutra. Se uma empresa pode controlar a infraestrutura de comunicações num campo de batalha, se o acesso pode ser aberto ou fechado de acordo com a política da empresa, não se trata de um simples serviço. Trata-se de política externa privatizada, infraestrutura de guerra e concentração de poder tecno-capitalista.

O que fazer?

Em vez de resolver a destruição ecológica e a pobreza, o capitalismo cria novos campos de exploração, levando o lucro para o espaço. Mas a solução não é a hostilidade à tecnologia! O problema também não está nos foguetões ou nos satélites; está na forma como estes são utilizados para o lucro, a riqueza e o poder político de um punhado de patrões.

O espaço não é propriedade privada das empresas, mas sim património comum da humanidade. As tecnologias críticas, desde o transporte espacial até à Internet por satélite, passando pela infraestrutura de dados e pelos sistemas militares, devem ser nacionalizadas. Não podemos permitir que aqueles que saqueiam o mundo nos tirem também o céu; devemos lutar por um sistema em que a tecnologia seja utilizada não para gerar lucro, mas sim para satisfazer as necessidades da humanidade.

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