A Greve Geral de 3 de junho constituiu um importante momento de resistência ao pacote laboral do Governo, tendo contado com a adesão de centenas de milhares de trabalhadores. Nas grandes cidades, onde a greve teve maior impacto, os transportes públicos praticamente cessaram, muitas escolas fecharam, a administração pública funcionou apenas com serviços mínimos e algumas empresas privadas registaram disrupções e paragens.
No entanto, é impossível ignorar que esta greve ficou aquém da dimensão e da força da Greve Geral de 11 de Dezembro. A participação foi menor, as manifestações tiveram menos expressão e o nível de pressão exercido sobre o Governo, os patrões e mesmo sobre o Chega, esteve longe daquele que se verificou há seis meses. Enquanto a greve de Dezembro abriu uma verdadeira crise política em torno do pacote laboral, a greve de Junho não conseguiu atingir o mesmo nível de mobilização e impacto, apesar de participada.
Se a greve de Junho não teve a força que muitos trabalhadores desejavam, isso não significa que tenha aumentado o apoio ao pacote laboral ou ao Governo. Pelo contrário, parece existir entre muitos trabalhadores uma falsa confiança de que a lei acabará por ser travada no parlamento. A isto soma-se a perda do elemento de unidade e de força que existia quando as duas centrais sindicais se posicionavam em conjunto contra o pacote, o sectarismo da CGTP não permitiu pressionar a UGT a sair da sua posição vergonhosa de se colocar contra a greve quando a lei avançava para discussão parlamentar e quando a pressão das ruas era mais necessária. Mas o factor decisivo foram os seis meses de quase paralisia por parte da CGTP. Todo o potencial de mobilização demonstrado em Dezembro foi sendo dissipado, em grande medida, pelo desvio das atenções para o processo eleitoral presidencial e pela ausência de um plano de luta consequente que desse continuidade ao crescente sentimento de resistência que então se manifestou.
Tal como fez em Dezembro, o Governo veio minimizar o real impacto da greve. Primeiro a Ministra do Trabalho e, mais tarde, o Primeiro Ministro, vieram dizer que “a esmagadora maioria dos portugueses quis trabalhar hoje e trabalhou e está a trabalhar”. Uma mentira que o governo apresentou munido com os números dados pelos patrões. Mais do que menosprezar a greve, o Governo apresenta esses números como se de um referendo se tratasse. Mas uma greve não mede apenas quem adere, mede também a capacidade dos trabalhadores para exercerem esse direito sem pressões, ameaças ou constrangimentos. E muitos trabalhadores enfrentam obstáculos reais à participação, especialmente no sector privado e nas pequenas empresas.
O governo sabe perfeitamente que a maioria dos trabalhadores é contra esta lei – cerca de dois terços segundo algumas sondagens. Por isso leva-a para discussão no Parlamento num timing questionável e num contexto em que a atenção mediática está desviada para outros acontecimentos. Discutir no dia 18, dia seguinte ao primeiro jogo de Portugal no mundial em apenas 37 minutos, a duração mais curta permitida para debates no parlamento, é só mais um truque para tentar passar à pressa e sem discussão uma lei impopular e em que o Governo joga a sua estabilidade.
Por isso mesmo é importante estar atento às manobras de bastidores, é bem possível que o Chega esteja a negociar a sua revisão constitucional com o PSD, ou ainda modificações à Prestação Social Única, em troca da aprovação do Pacote Laboral. Desde o início deste processo que este partido procura equilibrar as pressões do patronato e dos sectores da direita económica, favoráveis ao pacote laboral, com uma parte significativa do seu eleitorado, que rejeita a retirada de direitos. André Ventura tem procurado manter margem de manobra para apresentar eventuais alterações secundárias, sem colocar em causa o essencial da reforma. Mesmo uma eventual abstenção permitiria ao partido tentar evitar o desgaste político de votar favoravelmente, sem impedir a aprovação da lei.
Não podemos depositar as nossas esperanças apenas na Assembleia da República ou no Presidente da República que também já demonstrou não querer criar problemas ao Governo. A experiência demonstra que os direitos laborais nunca foram conquistados nem defendidos apenas através das instituições. Foram conquistados na rua através da organização e da luta dos trabalhadores. A CGTP convocou uma manifestação para dia 18 às 13h30; mas seria necessário mobilizar unitariamente e em força, chamar plenários no dia, garantindo que todos os trabalhadores possam marcar presença, desta forma conseguimos mobilizar e pressionar a votação no parlamento e marcar este dia como um forte dia de luta.
A greve de 11 de Junho não encerra esta batalha. Pelo contrário, mostra que continua a existir disposição para resistir e para lutar. O que falta é transformar essa disposição num verdadeiro plano de luta unitário, em que os trabalhadores acreditem, discutido democraticamente nos locais de trabalho, capaz de unificar os trabalhadores e derrotar definitivamente este ataque aos seus direitos. Precisamos de um plano de lutas discutido e preparado pela base de forma democrática e ampla nos locais de trabalho para derrotar de vez o pacote laboral.