Apagão: um ano depois, quem pagou a fatura?

28 de Abril, 2026
7 mins leitura

Há um ano, a Península Ibérica ficou às escuras. Durante horas, milhões de pessoas ficaram sem eletricidade, transportes, comunicações, pagamentos eletrónicos e acesso normal a serviços essenciais. O apagão de abril de 2025 não foi um simples incidente técnico, mas uma demonstração brutal da fragilidade de um sistema energético entregue à lógica do mercado, da privatização e da ausência de planeamento público.

Na altura, os governos apressaram-se a tratar o apagão como um episódio excecional, quase inevitável, prometendo investigações, relatórios e explicações. Um ano depois, as explicações continuam incompletas, as responsabilidades continuam por apurar e as consequências continuam a ser pagas pelos mesmos de sempre: os consumidores e os trabalhadores.

O sistema elétrico opera hoje com medidas reforçadas de segurança. Mas essa segurança adicional não foi paga pelos lucros das grandes empresas energéticas. Foi transferida para a fatura mensal da eletricidade. Ou seja, depois de ficarmos às escuras por causa de um sistema mal preparado, somos nós que pagamos para remendar aquilo que os governos e as empresas deixaram degradar.

Um ano depois, continuam sem assumir responsabilidades

Os relatórios conhecidos apontam para um problema central: insuficiência de capacidade de controlo dinâmico da tensão, falhas na gestão da rede, menor capacidade de estabilização do sistema e uma sucessão de fatores que acabaram por provocar o colapso. A rede europeia ENTSO-E identificou vários fatores contributivos e apresentou recomendações. A Comissão Nacional do Mercado e da Concorrência espanhola abriu dezenas de processos sancionatórios contra a REE, grandes empresas energéticas e outros operadores.

Isto significa que não estamos perante um mistério absoluto. Há elementos técnicos cada vez mais claros que demonstram que a rede se tornou mais complexa, com milhares de produtores, grande peso das renováveis ligadas por conversores, menor inércia do sistema, falhas de monitorização e insuficiência de mecanismos de estabilização.

Mas esta explicação técnica não pode servir para esconder a questão política. O problema não é “haver renováveis”. O problema é uma transição energética feita ao sabor do mercado, sem planeamento democrático, sem investimento público suficiente, sem controlo social e sem uma arquitetura energética orientada para a segurança da população.

A direita tenta usar o apagão para atacar as energias renováveis e defender o prolongamento da energia nuclear ou dos combustíveis fósseis. Essa leitura é falsa e interessa aos mesmos setores que sempre lucraram com a dependência energética e com o atraso da transição ecológica.

O apagão mostrou, sim, que um sistema com maior peso de renováveis exige novas formas de planeamento, armazenamento, monitorização, controlo de tensão e estabilidade da rede. Exige baterias, bombagem hidroelétrica, conversores avançados, sistemas de medição em tempo real, redundância e coordenação internacional. Mas tudo isto custa dinheiro e exige planificação.

E é aqui que está o problema: num setor dominado por empresas privadas, fundos, comercializadores e operadores orientados para a rentabilidade, tudo o que não garante lucro imediato é tratado como custo a cortar ou a adiar. A transição energética não pode ser deixada ao mercado, pois a energia não pode ser organizada como uma mercadoria sujeita à especulação, à concorrência e à procura de dividendos. Tem de ser tratada como um direito básico e como uma infraestrutura estratégica da sociedade.

Privatização, liberalização e falta de controlo público

O apagão foi também consequência de décadas de liberalização do setor energético. A União Europeia, os governos do PS e do PSD, tal como os governos espanhóis, entregaram partes fundamentais do sistema ao mercado, fragmentaram responsabilidades, multiplicaram intermediários e subordinaram uma infraestrutura essencial às regras da concorrência.

Produção, distribuição, comercialização, dados, centros de controlo, redes e tarifas foram sendo organizados não em função das necessidades sociais, mas em função da rentabilidade. O resultado está à vista: quando tudo funciona, os lucros ficam com as empresas; quando o sistema falha, os custos são socializados.

Foi o que aconteceu depois do apagão. Foram tomadas medidas de reforço da segurança, mas a fatura caiu sobre os consumidores. As empresas mantêm lucros, o Estado promete relatórios e a população paga mais. Este é o retrato perfeito do setor energético liberalizado: os lucros ficam para o privado, os riscos para o público.

Durante o apagão, a desigualdade social tornou-se visível em poucas horas. Para quem vive em casas mal isoladas, sem poupanças, sem geradores, sem carro ou sem rede de apoio, ficar sem eletricidade não é um incómodo passageiro; é ficar sem comida conservada, sem elevadores, sem água em muitos prédios, sem comunicações, sem transporte e sem acesso a informação.

Nos locais de trabalho, muitos trabalhadores ficaram sem instruções, sem condições para trabalhar e, em alguns casos, sem garantias sobre a remuneração das horas paradas. Pequenos negócios perderam receitas. Trabalhadores precários, operadores logísticos, comércio, plataformas, call centers e serviços ficaram particularmente expostos. 

Enquanto isso, grandes empresas, sedes administrativas, zonas privilegiadas e setores com meios próprios de emergência tiveram muito mais capacidade de resposta. A crise mostrou aquilo que já sabíamos: no capitalismo, até a luz tem classe.

Proteção Civil, comunicações e serviços públicos: a fragilidade do Estado

O apagão não revelou apenas falhas no setor energético. Revelou também a fragilidade da resposta pública. A comunicação foi tardia, confusa e insuficiente. A população ficou durante horas sem orientação clara. Municípios, serviços e trabalhadores foram deixados a improvisar.

Esta fragilidade voltou a tornar-se evidente com as tempestades recentes em Portugal, que deixaram populações inteiras vários dias – e, em alguns casos, largas semanas – sem eletricidade, comunicações estáveis ou resposta pública adequada. Perante fenómenos climáticos extremos cada vez mais frequentes, não basta falar em “resiliência” enquanto as redes envelhecem, a manutenção é insuficiente e as populações são deixadas à sua sorte sempre que há uma crise. 

Um sistema de emergência digno desse nome teria de garantir comunicação pública eficaz, planos locais de contingência, prioridade a hospitais, escolas, lares, transportes, abastecimento de água e serviços essenciais. Teria de garantir que ninguém fica isolado por depender exclusivamente de redes digitais e pagamentos eletrónicos.

Mas aquilo que vimos foi um Estado incapaz de responder à escala do problema. A “modernização” de que tanto falam revelou-se frágil, dependente de sistemas digitais vulneráveis e sem alternativas reais quando a infraestrutura falha.

Um ano depois, a conclusão é clara. Não basta remendar o sistema, é preciso mudar quem o controla e ao serviço de quem funciona. Os Trabalhadores Unidos defendem a reversão das privatizações e a nacionalização do setor energético, sem indemnizações aos grandes grupos que lucraram durante décadas com este bem essencial. 

Produção, distribuição, comercialização, redes, dados e centros de controlo devem estar sob controlo público e democrático, com participação de trabalhadores, técnicos e utentes. É preciso criar uma empresa pública única de energia, capaz de planear a produção, distribuição e transição ecológica com base nas necessidades sociais, e não nos lucros dos acionistas.

Isto significa garantir investimento massivo na rede elétrica, armazenamento, monitorização, redundância, manutenção e capacidade de resposta a crises. Significa também garantir uma tarifa social robusta, proibir cortes de eletricidade na habitação principal e combater a pobreza energética que empurra milhares de famílias para o frio no inverno e o calor extremo no verão.

A energia é um direito, não uma mercadoria

Um ano depois do apagão, continuamos sem responsabilização à altura. Mas já sabemos quem está a pagar a fatura: quem trabalha, quem vive com baixos salários, quem depende dos transportes públicos, quem não tem alternativa quando falham a luz, a água, as comunicações ou os serviços essenciais.

O apagão ibérico mostrou que uma sociedade organizada em função do lucro é incapaz de garantir até o mais básico. A energia não pode continuar a ser tratada como mercadoria, nem como campo de especulação para grandes empresas.

A crise climática torna estes problemas ainda mais urgentes. Tempestades, ondas de calor, secas e fenómenos extremos serão cada vez mais frequentes. Um sistema energético frágil, privatizado e orientado para o lucro não está preparado para proteger a população. O problema não é a transição energética. O problema é deixá-la nas mãos dos mesmos que lucram com a crise.

Precisamos de uma transição energética justa, ecológica e planificada. Uma transição que aposte nas renováveis, mas com armazenamento, estabilidade, investimento público e controlo democrático. Uma transição que proteja os trabalhadores do setor, garanta energia barata e segura à população e impeça que a etiqueta “verde” sirva para novos negócios privados. 

A luz, o aquecimento, a eletricidade, os transportes, os hospitais e as comunicações são condições elementares de vida. Devem estar ao serviço da maioria, não dos acionistas. É preciso pôr o setor energético sob controlo público e democrático, planear a transição ecológica e garantir energia como direito universal.

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