Por Miguel Sorans, dirigente da Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina, e da UIT-QI
A guerra de agressão imperialista contra o Irão, que, segundo Trump, já estava ganha desde o início, já dura há um mês. Trump diz uma coisa num dia e diz outra no dia seguinte. Há uma semana, deu ao Irão um “ultimato” de 48 horas, após o qual lançaria um “ataque total“. No dia seguinte, anunciou que suspendaria os ataques por cinco dias porque estava em negociações “produtivas” com as autoridades iranianas, algo que foi desmentido pelo Irão. O fim da guerra permanece incerto.
Nada é credível nas mãos de Trump, e tudo pode acontecer; a guerra pode se intensificar, ainda mais, fuzileiros navais podem ser mobilizados ou podem dar início de facto a negociações. Netanyahu e Israel, por outro lado, já alertaram que, independentemente de qualquer negociação, não tencionam suspender as suas ações militares, nem contra o Irão nem contra o Líbano.
Mas uma coisa está clara: é Trump quem está a recuar. No meio das suas bravatas, nas quais anunciou, repetidamente, que “as forças armadas iranianas deixaram de existir“, que “já não têm capacidade de mísseis” ou “vamos arrasá-los“, teve de se retratar e enviar uma proposta de quinze pontos, que foram rejeitados pelo Irão.
Sempre se disse que quem pede para negociar numa guerra é quem está a perder. E é isso que está a acontecer com Trump e a sua agressão criminosa e genocida. Apesar da evidente superioridade militar dos Estados Unidos e do seu aliado Israel, Trump está atolado política e militarmente no Irão.
As razões pelas quais Trump quer sair desta guerra
A primeira razão pela vontade de Trump dar como concluida esta operação é que a resistência do Irão tem sido muito superior ao que Trump e Netanyahu pensavam.
O Irão é um país grande, com 93 milhões de habitantes, que desmentiu todas as previsões militares. Nos primeiros dias, assassinaram o ‘aiatolá‘ e parte da chefia militar iraniana e pensavam que isso marcaria o início do fim, incitando as pessoas a saírem à rua.
Porém aconteceu o contrário: a televisão iraniana mostrou manifestações massivas no Irão, entre os bombardeamentos, de apoio ao governo e de repúdio à agressão. Isso porque, embora grande parte da classe trabalhadora, da juventude e das mulheres odeie o regime teocrático, odeia ainda mais as agressões imperialistas e de Israel. Por outro lado, o Irão confirma, embora enfraquecido, que possui ainda capacidade de atingir com mísseis alvos em Israel, e chegou a lançar dois mísseis contra a base militar da ilha Diego Garcia, no Oceano Índico, que fica a 4.000 quilómetros de distância do Irão.
A “Cúpula de Ferro” de Israel não entrou em colapso, mas está, em parte, comprometida ao estar sobrecarregada. Como nunca antes, as cidades de Israel estão a ser alvo de mísseis e os alarmes soam constantemente. Pensavam que seria uma “guerra relâmpago“, muito curta, mas não foi assim. Trump não consegue explicar o motivo da agressão. Primeiro disse que era para acabar com o regime, depois disse que não era necessário, mas tudo indica que foi Netanyahu quem convenceu Trump a lançar o ataque.
O ponto mais fraco de Trump não é militar, mas político
Esta guerra agrava a desordem e o caos político imperialista e no interior dos Estados Unidos. A começar pelo facto de, no seu país, não haver apoio a esta guerra, esta é mais uma das razões para a sua tentativa de recuo.
O próprio diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, Joseph Kent, demitiu-se, denunciando que estão em guerra por pressão de Israel e que “o Irão não é um perigo para a segurança dos Estados Unidos“, o que representa um grande golpe político para Trump.
As sondagens indicam que 59% dos americanos rejeitam esta ação militar, e que apenas 27% a aprovam. Há, em especial, uma rejeição na sua base eleitoral e no movimento MAGA (‘Make America Great Again‘ – ‘Tornar a America Grande Novamente‘), uma vez que Trump fez campanha a dizer que vinha “acabar com os gastos militares nas guerras dos Estados Unidos“, para se centrar no “America First” (‘Primeiro a América‘).
Aumentam os choques entre as classes burguesas no mundo, com o presidente Norte-americano a lançar esta guerra sem sequer avisar os seus antigos aliados imperialistas da Europa. Exigiu uma aliança com a Europa e a NATO, para uma intervenção naval conjunta no estreito de Ormuz, onde recebeu como resposta que “não é a nossa guerra“. Trump respondeu a chamar a NATO de “estúpida“.
No meio da crise petrolífera, Trump autorizou a compra de petróleo da Rússia, que estava sob sanções devido à guerra na Ucrânia, favorecendo assim o Putin, que precisa de milhões de dólares para a sua economia e para a guerra. Com isso, Trump fez com que Zelensky falasse de “traição“. Ou seja, o caos político é total.
Israel já avisou que não tenciona cessar a agressão militar
Tudo indica que Trump já não sabe como sair desta guerra. Continua a afirmar que a guerra terminará “quando eu assim o decidir“. Mas enfrenta a oposição de Netanyahu, que tem uma posição diferente. Já declararam que o Estado sionista continuará a proteger a “sua segurança” e que qualquer negociação não os limitará na sua “defesa“.
Israel não tem qualquer interesse em negociar e chegar a um acordo com o Irão. Não é um caminho comum. A Netanyahu convém que a guerra se prolongue, porque tem o país unido por trás do seu governo. Toda a oposição e todo o sionismo pseudo-progressista de esquerda estão a apoiar a guerra. Israel continua a bombardear o Irão e o Líbano, a par de uma invasão terrestre no sul do país, que pretende anexar. E aproveita para continuar com a sua limpeza étnica na Cisjordânia e em Gaza.
A guerra está a provocar um agravamento da crise da economia capitalista mundial
O jornal economico ‘The Economist‘, por exemplo, publicou um editorial em que afirma que “a guerra é um ataque à economia mundial“. É este o desastre que recai sobre Trump.
O ponto forte do Irão é efectivamente o controlo que tem do Estreito de Ormuz, que não tem mais de 40 quilómetros de largura. É um ponto geográfico fundamental, pois por ali passa 20% do petróleo bruto mundial. Calcula-se que entre 20 e 21 milhões de barris passem por dia por ali normalmente. Para além do petróleo, passam ali também ainda 25% do gás natural liquefeito e 35% dos fertilizantes para a agricultura. Nos Estados Unidos, as consequências refletiram-se, com os preços dos fertilizantes aumentaram 30%.
Nos Estados Unidos, as consequências refletem com os preços. O petróleo está entre 90 e 100 dólares o barril, quando antes desta ação estava a 70 dólares. Chegou mesmo a bater nos 120 dólares, podendo subir ainda mais; ninguém sabe ao certo. As consequências são mais inflação para os Estados Unidos, mas o efeito será global.
É claro que quem sai a ganhar são as multinacionais do petróleo e do armamento. O cenário global é incerto, pois não se sabe quando e como esta guerra terminará. É provável que a crise económica do capitalismo se agrave, afetando o movimento de massas. A queda do nível de vida irá aumentar devido ao aumento dos preços dos produtos de primeira necessidade em todo o mundo.
Ampliar a mobilização contra a agressão ao Irão e ao Líbano
A partir da UIT-QI, apelamos a que se continue a denunciar esta agressão criminosa de Trump e de Israel e a que se mobilizem em apoio aos povos do Irão e do Líbano. Repudiamos a agressão imperialista ao Irão, sem dar qualquer apoio à ditadura teocrática iraniana. Impulsionamos uma campanha anti-imperialista de unidade de ação contra a extrema-direita trumpista e sionista com as consignas: Chega de bombardeamentos e de agressão imperialista de Trump e Netanyahu no Sudoeste Asiático. Que os governos do mundo rompam relações com Israel. Que os povos árabes exijam aos seus governos que rompam com os Estados Unidos e deixem de colaborar com a agressão. Apoio a Gaza e ao povo palestiniano. Palestina livre, do rio até ao mar.
Há manifestações contra a guerra nos Estados Unidos e também em Berlim, Londres ou Madrid com o lema “Não à guerra“. Este é o caminho para derrotar Trump e a guerra de agressão imperialista.