Por que razão houve uma votação massiva na extrema-direita no Chile? A urgência de responder corretamente a esta pergunta

1 de Dezembro, 2025
5 mins leitura

PeloMovimento Socialista das e dos Trabalhadores (MST), secção da UIT-QI em Chile

A votação massiva de domingo, 16 de novembro, levantou questões importantes na política nacional. Com quase 13,5 milhões de pessoas a expressarem a sua preferência nas eleições presidenciais (85% do eleitorado), tornou-se uma das jornadas eleitorais com maior afluência desde o início dos anos 90. Os resultados revelaram uma importante reviravolta entre os eleitores, o que nos obriga a colocar a questão: “Por que é que milhões votaram na extrema-direita no Chile?“. Neste artigo, pretendemos abordar o problema.

O Chile dos “30 anos” continua intacto

Não são poucos aqueles que pretendem explicar o que aconteceu na quinzena de novembro como uma viragem política no sentido do apoio a posições conservadoras e ultraneoliberais. Outros procuram justificações em questões morais ou culturais, culpando os eleitores de ignorância, falta de educação política e, levando este raciocínio ao extremo, culpam os “fascistas pobres” pelo resultado. Ambas nos parecem respostas erradas.

Como sempre, as verdadeiras razões dos fenómenos políticos e sociais encontram-se nas condições de vida de milhões de famílias trabalhadoras, dos setores populares e dos povos oprimidos. No Chile, tal como em muitos países do planeta, assistimos a uma queda sustentada no nível de vida de milhões de pessoas, o que aumenta o descontentamento com os governos. Muitos dados comprovam esta afirmação.

Em 2022, o Chile foi o país mais desigual da América Latina, uma vez que o 1% mais rico acumula 49,8% da riqueza. Entre 2018 e 2023, o rendimento líquido real médio das pessoas empregadas aumentou apenas 1,9%; ou seja, em 5 anos, o poder de compra médio cresceu apenas 15 mil pesos. Em novembro de 2023, o limiar de pobreza por rendimento para um agregado familiar de 4 pessoas era de 607.443 pesos, ou seja, 55,7% do total de pessoas empregadas não conseguirão tirar uma família da pobreza. A Laborum (maior bolsa de trabalho do país) realizou um inquérito durante o mês de maio passado, no qual concluiu que, para 77% das pessoas, o salário dá para duas semanas ou menos do mês.

O aumento sustentado dos preços da habitação e das exigências de crédito tem levado a que “100 pessoas se instalem em acampamentos (ocupem terrenos) por dia no Chile“. Não se trata de um dado isolado. No cadastro ‘TECHO‘ (‘TETO-Um Teto Para o Meu País‘, organização não-governamental latino-americana que atua na construção de casas emergenciais e programas de habilitação social) de 2024-2025, ficou demonstrado que existem no país 1.248 acampamentos, o número mais elevado desde 1996. De facto, um estudo da GPS Property demonstrou que as ocupações ilegais de terrenos estão a crescer a um ritmo médio anual de 30%.

Comissão Consultiva Presidencial revelou que, ao aplicar uma metodologia mais rigorosa, a taxa de pobreza no Chile em 2022 seria de 22,3%. Todos estes dados concretos podem ser complementados com muitos outros, e levam à conclusão de que, longe dos discursos oficiais, o nosso país continua a trilhar o caminho da desigualdade social e do abuso empresarial que tem mantido há décadas, e que foi o motor do descontentamento social da rebelião popular de 2019.

A gestão do modelo económico que tem vindo a afundar os governos em funções

O capitalismo chileno, na sua versão neoliberal, é a fonte da crescente desigualdade social que vivemos. Até hoje, incluindo o atual governo de Boric, os governos em exercício atuam como meros administradores deste modelo, limitando-se a mudanças superficiais no que diz respeito à resolução dos problemas sociais que ele provoca, mas aprofundando a pilhagem dos bens naturais comuns e a destruição ambiental e, acima de tudo, precarizando as condições de vida de milhões de famílias trabalhadoras.

Por isso, há quinze anos que cada eleição presidencial se transforma num palco onde se manifesta um voto de protesto contra os governos, cada vez mais acentuado e massivo. Nenhuma coligação política consegue manter-se no poder. É este fenómeno que confunde em momentos como este, porque quando se vota contra a direita no governo parece que milhões de pessoas se viram para a esquerda, ou quando governa a (mal chamada) ‘esquerda‘ parece que esses mesmos milhões se viram para a direita quando lhe retiram o apoio eleitoral com que chegou à Presidência.

O que realmente estamos a ver, no fundo deste comportamento eleitoral, é um voto de castigo permanente. Nenhum governo capitalista, independentemente da cor política com que se pinte, consegue resolver as reivindicações mais sentidas da classe trabalhadora e dos povos, simplesmente porque estas necessidades são cada vez mais contraditórias com o mecanismo que os grandes empresários utilizam para aumentar as suas fortunas multimilionárias. Esta frustração em relação a reivindicações não resolvidas há décadas é que explica hoje a viragem eleitoral para a extrema-direita.

Por isso, o voto de protesto contra o governo de Boric é muito maior do que os que se registaram contra Bachelet (2006-2010, 2014-2018) e Piñera (2010-2014, 2018-2022) nos governos de ambos. Não porque fosse melhor ou pior do que essas administrações, mas porque, tal como elas, administrou um modelo económico cada vez mais podre e brutal contra milhões de pessoas. Isso explica, além disso, que a outra coligação política massivamente castigada pelos votos tenha sido a direita tradicional do Chile Vamos, o outro setor que também governou o país nestas últimas décadas.

Não podemos continuar a apostar nos políticos de sempre; é necessário construir uma nova alternativa

Embora se expresse de forma contraditória e, momentaneamente o descontentamento seja canalizado eleitoralmente pela extrema-direita, a contestação ao tipo de país em que vivemos é o motor dos fenómenos políticos mais importantes dos últimos anos. O problema de não se reforçarem programas e opções políticas que venham dos trabalhadores, dos setores sociais mais oprimidos e daqueles que defendem consequentemente o ambiente, deve-se ao facto de ainda não ter surgido, com força suficiente, uma alternativa que permita contestar esse descontentamento social.

Até hoje, a origem do fracasso reside, fundamentalmente, na renúncia de construir essa alternativa e no facto de voltarmos (uma e outra vez) a dar o nosso apoio aos velhos partidos da “esquerda” e do centro-esquerda que governam há décadas. Referimo-nos à antiga Concertação, à Frente Ampla e ao Partido Comunista. Enquanto este problema persistir, a direita, incluindo a extrema-direita, continuará a capitalizar o descontentamento.

Trata-se hoje de apostar na construção de uma nova alternativa política e eleitoral, que provenha das organizações e dos lutadores e lutadoras sociais independentes, que surja a partir de um acordo programático anticapitalista, de apoio às mobilizações e pela unidade de todas as lutas. Para nós, no Movimento Socialista das e dos Trabalhadores (MST), essa alternativa deve ser totalmente independente dos empresários e dos governos em funções, e de todos os blocos políticos que até hoje governaram o país, para que o Chile seja governado, de uma vez por todas, pelos trabalhadores e pelo povo.

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