Apesar de Milei o negar, os salários e o emprego estão a cair, num contexto de ‘estagflação’

16 de Março, 2026
5 mins leitura

Por José Castillo, dirigente da Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina, e da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidos (FIT-U)

Na quinta-feira passada, foram divulgados os dados da inflação de fevereiro, medidos pelo Índice de Preços ao Consumidor (IPC): ficou em 2,9%. Apenas alguns dias antes, o ministro da Economia, Luis ‘Toto‘ Caputo, tinha afirmado que ficaria “em torno” de 2,6%. Teve de guardar as suas afirmações para si.

A realidade é que já é insustentável a narrativa do governo de Milei de que estão a “reduzir” a inflação. O IPC tem vindo a subir sistematicamente, todos os meses, desde maio do ano passado. Desde aquele momento, em que o governo obteve o seu melhor resultado (1,5%), até hoje, praticamente duplicou. Ao mesmo tempo, e também sistematicamente, todos os salários, sem exceção, perderam face à inflação, levando a uma situação dramática para o conjunto da classe trabalhadora.

Tudo isto se agrava se acrescentarmos que esse número de 2,9% acima não reflete a realidade. O governo não permitiu a introdução do novo cabaz de consumo, pelo que a inflação continua a ser calculada com um cabaz antigo, de há vinte anos. Para esconder o número verdadeiro. Por exemplo, referindo-nos apenas a este mês de fevereiro, com o novo cabaz a inflação teria sido de 3,1%.

Passemos agora aos componentes desse número oficial de 2,9%. Como se compõe? O que é que mais subiu? A resposta também é trágica: o maior aumento verifica-se nos alimentos (com a carne a liderar de longe) e, em seguida, vêm as tarifas dos serviços públicos. Para março, espera-se um número ainda maior, uma vez que se fará sentir o aumento do custo da cesta escolar (que a maioria dos trabalhadores já sentiu no final de fevereiro, mas que, por questões estatísticas, tem maior impacto em março), ao qual há que somar os novos aumentos nas tarifas (nestes dias, o transporte volta a ser afetado). E, como se não bastasse, a agressão imperialista ao Irão gerou um aumento generalizado no preço do petróleo, que já começou a repercutir-se no valor local dos combustíveis.

A recessão

Há já muitos meses que a classe trabalhadora não consegue chegar ao fim do mês. Temos vindo a acompanhar o agravamento da situação mês após mês, praticamente desde o início do governo de Milei. Até meados do ano passado, a forma de se virar era comprar a crédito, chegando ao ponto absurdo de usar o cartão de crédito para comprar comida. E depois, no vencimento, só conseguir pagar o mínimo (o que, com as taxas de juro usurárias, era um excelente negócio para os bancos). Mas quando se puxa muito o fio, este acaba por se partir. Todos os dados indicam que a morosidade está em níveis recorde. Isto significa que, quando não se conseguiu pagar o cartão, nem mesmo o mínimo, fez-se um empréstimo bancário para o liquidar (a uma taxa ainda mais elevada). Depois, não se conseguiu pagar a dívida desse empréstimo e fez-se outro, provavelmente com uma Fintech (tecnologia financeira), como o banco digital Mercado Pago ou a Naranja X. Hoje, essas dívidas também não estão a ser pagas. A inadimplência (dívida ou “crédito mal parado”) cresce até mesmo com cartões de supermercados ou lojas de eletrodomésticos. A conclusão: a classe trabalhadora e os setores populares estão financeiramente falidos.

A indústria, a construção e o comércio estão em declínio. O que acontece com os setores que crescem?

Não se vende nada e, por isso, a produção também cai. A indústria encontra-se com a capacidade instalada no nível mais baixo da sua história, apenas 53%, o que significa que uma em cada duas máquinas está parada. Em alguns setores, como o têxtil ou as fábricas de automóveis, 75% das máquinas estão paradas. O comércio afunda, uma vez que o consumo popular está a cair a pique. A construção também está praticamente paralisada, tanto pela paralisação das obras de habitação como pelo congelamento das obras públicas.

Tudo isto explica a consequência mais dramática da ‘motosserra‘: menos 22.000 empresas desde que Milei assumiu o cargo, com menos 300.000 postos de trabalho, incluindo o brutal corte no setor público.

O presidente Milei e os ministros Caputo e Sturzenegger (da Desregulamentação e da Transformação do Estado) negam, por incrível que pareça, os seus próprios dados oficiais, argumentando que “pode ter havido alguma perda de postos de trabalho, mas foram criados outros“. Mentira! Vejamos os setores “estrela“, os únicos que cresceram em 2025. A Agricultura e Pecuária, que inclui nada mais nada menos do que o complexo agroexportador da soja, criou apenas 3.583 novos postos de trabalho líquidos no ano passado. O setor da “intermediação financeira“, que estatisticamente apresentou um forte crescimento devido às manobras dos grandes conglomerados, não criou, no entanto, um único posto de trabalho; pelo contrário, despediu pessoas, reduzindo o seu quadro de pessoal em 5.059 postos. Com as Minas e Pedreiras, o setor “estrela” da megamineração, o RIGI (‘Regime de Incentivos para Grandes Investimentos‘), do suposto crescimento via pilhagem de lítio, ouro e cobre, também reduziu postos de trabalho líquidos, havendo menos 8.788 trabalhadores. Isto é o que nenhum discurso pode esconder, uma vez que são dados oficiais da Secretaria do Trabalho.

Do outro lado, como sabemos, está a realidade de milhões de pessoas que procuram desesperadamente sobreviver, e a quem resta apenas ser superexploradas, aderindo a plataformas como UberDidiCabifyPedidosYa ou Rappi.

Este é o “plano económico” de Milei; um programa ao serviço do pagamento da dívida externa aos gigantes credores e ao FMI, e dos lucros exorbitantes de um punhado de grandes multinacionais.

Perante esta realidade, o povo trabalhador continua a lutar. Aí estão os trabalhadores e trabalhadoras da ‘FATE‘ (fabricante de pneus), a resistir ao encerramento, ou os professores universitários, a dar início a um importante plano de luta. Acompanhados pelo sindicalismo combativo e pela Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidos, da qual a Esquerda Socialista faz parte, com dirigentes como Rubén “Pollo” Sobrero, secretário-geral do Sindicato Ferroviário Oeste, Mónica Schlotthauer, deputada provincial e delegada ferroviária, Soledad Mosquera, secretária-geral da Ademys, e Juan Carlos Giordano, deputado nacional eleito, entre outros. Temos também de exigir à CGT (Confederação Geral do Trabalho da República Argentina) um plano de luta sério pelo aumento dos salários, das pensões e contra os despedimentos.

Tudo isto tem de se refletir numa grande marcha unida no próximo dia 24 de março, 50 anos após o golpe genocida que, devemos recordar, ocorreu com o objetivo de implementar um plano económico semelhante ao atual, e que ainda hoje  sofremos através da sua herança maldita: a dívida externa ilegal, imoral, ilegítima e fraudulenta. Convidamo-lo a marchar ao lado da Esquerda Socialista em todo o país, para gritar bem alto: São 30 mil! Foi genocídio! Não ao pagamento da dívida externa! Por um plano económico alternativo, operário e popular.

Ir paraTopo

Don't Miss