Trump-Musk: O fim do amor

15 de Julho, 2025
3 mins leitura

Por Miguel Sorans, dirigente da Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina, e da UIT-QI

A divisão entre Donald Trump e Elon Musk tornou-se num escândalo mundial. Não se trata de um escândalo qualquer. Envolve o presidente dos EUA, a principal potência imperialista do mundo, e o empresário mais rico do mundo. Até há poucos dias, o magnata sul-africano era o braço direito de Trump e o principal conselheiro da ‘motosserra’ americana. Milhares de funcionários públicos foram despedidos por Musk sob as ordens de Trump.

Esta insólita rixa põe em evidência a erosão da administração Trump, as idas e vindas da sua ‘guerra comercial‘, e a existência de uma crise política no seio do governo do imperialismo norte-americano.

Musk tinha-se demitido do seu cargo há dias, após os fracassos que estava a sofrer. Mas a queda de Musk fez barulho. Ele saiu chamando o projeto de lei de gastos que Trump enviou ao Congresso dos EUA de “abominação nojenta”.

Elon e eu tínhamos uma ótima relação. Não sei se continuaremos a ter“, disse o chefe da Casa Branca, depois de o magnata ter criticado ferozmente o projeto de orçamento de Trump. Mas a luta cresceu. O presidente ameaçou reter subsídios e contratos governamentais de empresas ligadas a Musk, à medida que a aliança entre o presidente e o controverso bilionário se desfazia publicamente. Musk não se conteve, afirmando que Trump consta dos ficheiros de Jeffrey Epstein, o empresário acusado de pedofilia e abuso sexual, que alegadamente contêm os nomes dos seus cúmplices, muitos deles “ricos e famosos”. “(…) É altura de lançar a grande bomba: Trump está nos ficheiros de Epstein. Essa é a verdadeira razão pela qual não foram tornados públicos“, publicou Musk no X, na sua rede social.

A razão desta rutura escandalosa reside nos grandes bloqueios que o plano de extrema-direita de Trump está a ter. O vai-e-vem sobre a questão dos direitos aduaneiros, por exemplo, mostra que há elementos de uma forte crise na sua política, devido às fricções interburguesas que encorajou e aos protestos crescentes no seu país e no mundo. Já em abril houve 1200 manifestações em 50 cidades. Depois seguiram-se os protestos contra os ataques à saúde e à educação, entre eles os protestos dos estudantes da Universidade de Harvard. Tudo isto levou à queda da popularidade de Trump, refletida nas sondagens do próprio império. Em abril/maio caiu de 52% para 41%. A imprensa imperialista definiu-a como a pior queda na imagem dos primeiros 100 dias de uma administração norte-americana em 70 anos, ou seja, desde Eisenhower na década de 1950.

A saída de Elon Musk do governo foi outro sinal das oscilações políticas de Trump.  O homem que apostou uma fortuna na eleição de Trump e que era o ‘patrão’ do DOGE (Departamento de Eficiência Governamental), a entidade criada para implementar a ‘motosserra’ e que despediu milhares de funcionários públicos da saúde e da educação, finalmente caiu. Musk durou pouco mais de 100 dias.

Demitiu-se dizendo que estava “desiludido”, mas a realidade é que caiu em consequência da própria crise que provocou como braço direito de Trump.

Vários elementos se conjugaram. Em primeiro lugar, o seu plano de despedimentos em massa levou a confrontos com vários ministros do gabinete de Trump. Meses antes, o Secretário de Estado Marco Rubio, outro ultradireitista, atacou-o numa reunião de ministros com Trump, por querer cortar demasiado nos seus empregados. A discussão foi tal que Trump interveio dizendo que os futuros cortes orçamentais seriam feitos com um “bisturi e não com um machado”.

Em segundo lugar, a política tarifária de Trump, que Musk apoiou, gerou críticas no conselho de administração da Tesla, a sua empresa de carros eléctricos, cuja produção principal é feita na China e que sofreria com as tarifas.

Em terceiro lugar, e talvez o elemento mais importante, Musk começou a sofrer todo tipo de protestos e boicotes nos próprios EUA, com ações de repúdio em frente às concessionárias. Milhares de pessoas colocaram autocolantes de repúdio nos seus carros. Como resultado, as vendas da Tesla nos EUA caíram 13% no primeiro trimestre do ano. O resto do mundo saiu-se pior. Em maio, as vendas da Tesla em 32 países europeus caíram 49%.

De uma coisa não há dúvida: o escândalo do rompimento Trump-Musk terá novos capítulos.

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