Incêndios e glaciares: a luta contra o extrativismo é só uma

4 de Fevereiro, 2026
4 mins leitura

Por Nicolás Núñez, da Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina

Enquanto os incêndios continuam a atingir o sul em ambos os lados da Cordilheira dos Andes, o governo de Milei continua sem aprovar as verbas orçamentárias urgentes e prepara-se para votar no Congresso a modificação da Lei dos Glaciares. Sem a água dos glaciares, os territórios devastados nunca mais voltarão a ser verdes.

O extrativismo é a forma como o sistema capitalista, com a ajuda de todos os governos, tem vindo a interagir com a natureza em cada uma das províncias do nosso país. Isto implica que devastar os territórios é moeda corrente para garantir a exportação de bens comuns naturais (minerais, energia, alimentos), ou ainda diferentes tipos de negócios, como os imobiliários, florestais, turísticos ou megabarragens. Tudo isso acompanhado da apropriação de territórios e até mesmo da água. Para piorar, tudo isso ocorre no contexto de um processo de aquecimento global que convulsiona o clima que conhecíamos, com secas cada vez mais prolongadas, tempestades de violência incomum, inundações cada vez mais frequentes e incêndios que se alimentam particularmente da combinação do aumento da temperatura e do extrativismo.

De facto, a violência dos incêndios na Patagónia, com mais de 200 mil hectares perdidos até agora em 2026, deve ser considerada numa intersecção de múltiplos níveis, entre, por um lado, uma redução drástica do regime de precipitações, com um inverno com pouca neve e ondas de calor recorrentes, e, por outro lado, o negócio das últimas décadas de plantação de pinheiros vindos do hemisfério norte, que secam as florestas e cujos cones e sementes se espalham como granadas pelo fogo, alimentando a perda da vegetação nativa. Mas, por sua vez, outros elementos entram com protagonismo na equação. Em particular, os interesses sempre latentes daqueles que procuram fazer negócios comprando terras devastadas a preços irrisórios, uma vez que a estação das chuvas do outono refreia as chamas, e que são favorecidos por um governo que, enquanto ajusta brutalmente o orçamento dos sistemas de gestão do fogo, defende a eliminação da proibição da mudança do uso do solo das terras incendiadas. Como se costuma dizer: “confissão da parte, dispensa de provas”. O incêndio, por exemplo, no Parque Nacional Los Alerces pode ter tido, como dizem os relatórios no momento, sua origem em uma tempestade elétrica, mas o seu prolongamento não deixa de ser um crime político diante de tais níveis de negligência e ‘motosserras‘.

Os governos, nacionais e provinciais, são responsáveis. E como sabem que são culpados, escondem-se atrás de “declarações de emergência” com saudações à bandeira sem orçamento e, paralelamente, acusam as comunidades mapuche e perseguem os trabalhadores e trabalhadoras que denunciam a austeridade como política de Estado. As centenas de brigadistas que, com salários abaixo do limiar da pobreza, estão na linha de frente, estão se mantendo em combate graças a doações que surgem da solidariedade popular, de bolsos que mal conseguem chegar ao fim do mês, enquanto o governo destina verbas infinitamente superiores ao pagamento da dívida ou ao subsídio dos lucros das mineradoras e petrolíferas.

Apagar o fogo e defender-nos das mineradoras

Neste contexto, desde o Instituto Argentino para os Direitos da Mineração (IADEM) até à Câmara de Comércio dos Estados Unidos (United States Chamber of Commerce) no nosso país, estão há semanas num lobby furioso, mas com pouca cobertura mediática. O governo e as empresas mineiras estão a usar o seu poder de grandes contribuintes dos canais de comunicação e meios de comunicação locais para garantir que o debate sobre a modificação da Lei dos Glaciares, que se anuncia iminente no Senado, não se expanda. Lembremos que Milei e governadores peronistas, macristas e radicais, buscam demolir a lei vigente, para, província por província, liquidar a proteção das zonas glaciares e periglaciares, ou seja, para dar luz verde à megamineração nas onze províncias onde se encontram as fontes de água insubstituíveis que representam os quase 17 mil glaciares argentinos. O drama dos incêndios conseguiu entrar nas programações da comunicação social, mas foi censurado o debate sobre como a vida se recuperará nos territórios devastados se perdermos as nossas reservas de água por causa dos negócios de um punhado de mineradoras.

Nesse contexto, a Campanha Plurinacional “Na Lei dos Glaciares não se mexe” convocou ações que combinaram protestos contra os incêndios e contra o pacote de reformas de Milei. Por sua vez, o peronismo portenho, com Juan Grabois e Kicillof à frente, paralelamente a essa convocatória, saiu com uma mobilização contra os incêndios que teve a particularidade de silenciar toda a responsabilidade dos governos provinciais, como o de Nacho Torres (que é participante nos projetos de austeridade e protagonista do racismo), e de não dizer uma palavra sobre a Lei dos Glaciares. Anunciada em novembro, sabe-se que a reforma contará com o apoio de senadores e deputados peronistas e, até hoje, não conseguiu que a presidente do PJ, Cristina Fernández de Kirchner (que vetou a Lei em 2008), omitisse uma palavra, nem que algum grupo do amplo espectro peronista movesse um dedo para impedi-la.

Neste dia 04/02, saímos numa nova Jornada Plurinacional, com cerca de 40 convocatórias em todo o país, e  preparamo-nos para nos mobilizar no dia em que o Congresso tratar da Reforma Laboral e da Lei dos Glaciares

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