As presidenciais de 2026 acabaram por ser uma montanha russa; das sondagens que davam para todos os gostos, acabamos com uma segunda volta entre António José Seguro e André Ventura. A fragmentação nestas eleições e a dificuldade da classe dominante em levar os seus candidatos favoritos à segunda volta revela a crise de regime em Portugal. Desta conjuntura, só se poderia esperar as Presidenciais mais concorridas de sempre e com um resultado que não deixaria ninguém satisfeito.
Seguro e Ventura na segunda volta
António José Seguro – candidato que o PS lançou só para poder dizer que participava também na corrida a Belém – saltou da insignificância para vir a ganhar a 1ª volta com pouco mais de 30% dos votos. Seguro correu numa campanha altamente despolitizada, evitando envolver-se em polémicas e limitando ao máximo as suas críticas ao Governo da AD. Contando com o “voto útil” em si do setor à esquerda do PS, focou-se em buscar eleitorado mais centrista da AD.
André Ventura – candidato que também não tinha sido a sua própria primeira escolha, tendo revelado que preferia Passos Coelho – acabou em segundo lugar com 23%. Ventura, que não tenciona vencer as eleições, usou a campanha para não ficar de fora da cena mediática e empurrar o discurso para a direita xenófoba. A maior parte da sua campanha centrou-se na polémica à volta dos seus cartazes racistas, instrumentalizando os preconceitos e a consciência mais atrasada de uma parte da classe trabalhadora e mobilizando um setor da pequena-burguesia em crise.
Os candidatos do regime que ficaram de fora
Cotrim Figueiredo foi um dos que mais amargamente sentiu a derrota. Depois de várias sondagens a dar-lhe o cheirinho da vitória na 1ª volta, acaba a noite com 16% a uma distância de 400 mil votos de Ventura. A sua posição contraditória sobre uma futura segunda volta Seguro-Ventura e a sua irritação perante perguntas da imprensa sobre a denúncia de assédio sexual terão tido o seu peso nestes resultados. No seu discurso na noite eleitoral, Cotrim acabou por responsabilizar Montenegro pela sua derrota eleitoral. Ainda assim, revelou que a sua figura tem mais expressão eleitoral que o seu próprio partido – que nunca teve mais de 6%.
Henrique Gouveia e Melo, candidato que há alguns anos andava a ser lançado pela imprensa, acabou com 12% dos votos. Foi uma candidatura lançada por setores do PS e PSD, que tentava ocupar o sentimento anti-partido. A sua falta de posicionamento em tudo – que, em muitos casos, se traduzia num posicionamento tão à direita como o próprio PSD – levou-o a uma derrota certa.
Quem perdeu com mais estrondo foi mesmo Luís Marques Mendes, o candidato que era o expectável para vir a tornar-se o próximo Presidente da República. Seguiu os passos de Marcelo Rebelo de Sousa – tornando-se comentador semanal na televisão e tentando colocar-se como o mais experiente para assumir o cargo. Não só não conseguiu ir à segunda volta, como acabou em 5º, atrás de todos os outros candidatos da direita. Foi uma grande derrota também para o próprio Governo, e coloca em causa a capacidade do executivo chegar ao fim da legislatura. A ligação tão próxima ao Governo, ao mesmo tempo que se iam acumulando os casos no SNS e o descontentamento generalizado com o Pacote Laboral, acabou por esvaziar a sua votação quer para Seguro e Gouveia e Melo, por um lado, e Ventura e Cotrim, por outro. No final, acabou com 11% dos votos.
A esquerda mantém o refluxo eleitoral
A esquerda, que não apresentou um candidato único que pudesse realmente servir de polo alternativo a Ventura e Seguro, continuou a perder votos. Numa eleição com mais 1,5 milhões de eleitores face a 2021, Catarina Martins perdeu 50 mil votos que tinham ido para Marisa Matias – na altura um péssimo resultado para o Bloco. António Filipe perdeu 90 mil votos em comparação com João Ferreira. Jorge Pinto, cuja candidatura era a mais vulnerável à pressão do voto útil, acabou por não conseguir chegar ao 1% dos votos, ficando atrás de Manuel João Vieira. André Pestana, que passou a campanha a afirmar que não tinha o apoio de qualquer partido – apesar de ter o apoio encapotado do MAS –, acabou por não chegar aos 11 mil votos.
É certo que a pressão do voto útil penalizou sobretudo a esquerda, mas ao fazer uma campanha centrada na “defesa da constituição” e na salvação das instituições, a esquerda abandonou por completo a luta por uma sociedade diferente. Entregou, de mão beijada, o combate anti-sistema a Ventura, que acabou por ser o único candidato a criticar a constituição.
2ª volta e a polarização
André Ventura e José Seguro começaram a campanha para a 2ª volta na noite eleitoral. Aí traçaram o que viria a ser o seu discurso no próximo período. Cada um tenta aproveitar o clima de polarização à sua maneira. Segurou tenta transformar esta eleição entre “democracia” e “saudosistas da ditadura”; já Ventura coloca-a entre “socialistas” e “não socialistas”, tentando afirmar-se como único candidato realmente de direita.
Taticamente, o Governo e a AD decidiram que não iriam apelar ao voto em nenhum dos candidatos. No seu discurso na noite eleitoral, Montenegro colocou-se equidistante entre Ventura e Seguro. Na realidade, PS e PSD são os dois principais partidos da classe dominante; têm, entre si, um acordo de regime que dura há décadas. É por isso que o PSD se recusou em avançar com a alteração à constituição sem a participação do PS. Esta posição do Governo só pode ser compreendida à luz do que tem sido a campanha permanente de Montenegro para tentar captar eleitorado ao Chega.
Apesar da posição do Governo – que, como a 1ª volta revelou, conta para pouco –, a maioria das figuras ligadas a PSD, CDS e IL, colocaram-se pelo voto em Seguro. A sua preocupação não é com “as liberdades” ou com a falta de “responsabilidade”; o seu receio é que uma presidência de Ventura – com o seu programa de choque direto com um setor da classe trabalhadora organizado – não permitisse a calmia social necessária para aplicar os ataques à classe trabalhadora que estão a tentar aplicar por via da negociação.
Votamos contra Ventura na segunda volta
Nesta segunda volta das presidenciais, o regime apresenta duas soluções para a sua crise: de um lado, a extrema-direita de André Ventura, que procura canalizar a revolta social para o ódio, o racismo, o autoritarismo e a repressão direta e imediata contra trabalhadores, imigrantes, mulheres e jovens; do outro, o centrismo de António José Seguro, que promete estabilidade, moderação e consenso, ou seja, a continuação das políticas que criaram o terreno para a extrema-direita crescer.
Seguro representa a gestão “responsável” do mesmo sistema que nos trouxe até aqui. Quando José Seguro afirma que “não quer pressionar ninguém” está a admitir que não vai tentar impedir a alteração à lei laboral que o governo quer aplicar; não vai impedir a alteração à lei da nacionalidade; não vai responsabilizar o governo pela crise no SNS; não vai travar a pilhagem dos serviços públicos. Irá pressionar sim os trabalhadores a aceitar as medidas draconianas do governo. Seguro será o presidente da “estabilidade”, leia-se “estabilidade” para mais facilmente aplicar ajustes contra nós trabalhadores. Recordamos como José Seguro se colocou ao lado do PSD de Passos Coelho para aplicar as medidas de austeridade da troika.
Já Ventura traz uma política de guerra direta aos trabalhadores. Quer limitar o direito à greve e os direitos dos sindicatos; quer uma polícia mais militarizada e com ainda menos escrutínio; quer intensificar a perseguição a imigrantes e acabar com os programas de apoio às mulheres e pessoas queer. Trata-se de assegurar que a bonapartização em curso se faz de forma o mais acelerada possível.
Não se trata de uma eleição entre “democracia” e “fascismo” – já que, por agora, o projeto de Ventura não passa pela destruição das organizações dos trabalhadores por via de métodos de guerra civil. Ainda assim, estas duas formas não são iguais, especialmente para setores mais vulneráveis da classe. Por isso chamamos a votar contra André Ventura. Fazemo-lo de forma defensiva, e consciente de que Seguro não será nenhuma barreira contra o retrocesso que o Governo da AD, a IL e o Chega querem aplicar; mas conscientes que uma vitória de Ventura galvanizaria grupos neo-nazis, como o 1143, e implicaria mais repressão sobre a classe trabalhadora organizada. Não obstante, entendemos aqueles que – por tudo aquilo que Seguro representa – irão votar nulo ou branco nestas eleições.
Na própria noite eleitoral, todos os candidatos à esquerda lançaram o seu apoio a Seguro. Muitos sob o argumento de “travar a extrema-direita” ou “derrotar Ventura”. Mas a história mostra-nos que combater realmente a extrema-direita não se faz com indicações de voto. Só conseguimos derrotar a extrema-direita quando conseguimos construir uma outra alternativa: quando conquistamos salários dignos, mais proteção dos nossos direitos, sindicatos mais combativos, habitação acessível.
A Greve Geral de 11 de Dezembro mostrou que os trabalhadores, quando organizados numa luta nacional, conseguem por em movimento a defesa dos seus direitos. É nesta nossa força, no avançar da nossa luta, na derrota do pacote laboral, que devemos concentrar a nossa energia. Aprofundar e democratizar a luta contra o pacote laboral e começar a construir uma alternativa política quer às políticas do PS, quer à política racista do Chega.
No dia seguinte às eleições, seja quem for o Presidente, continuaremos a enfrentar os mesmos patrões, o mesmo Estado e as mesmas políticas. E estaremos do mesmo lado de sempre: o lado das greves, da organização, da luta coletiva e da independência política dos trabalhadores.