O debate sobre os riscos: O problema é a Inteligência Artificial ou o capitalismo imperialista?

23 de Setembro, 2026
5 mins leitura

Por José Castillo, dirigente da Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina, e da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidos (FIT-U)

A Inteligência Artificial está no centro do debate. O seu controlo por parte das grandes corporações e a sua utilização na disputa entre os Estados Unidos e a China tornam-na uma ameaça para os trabalhadores.

A 3 de setembro, a OpenAI lançou o GPT-6 Astra, o seu modelo de inteligência artificial mais avançado. O seu presidente e cofundador, Greg Brockman, encerrou a apresentação afirmando: “Bem-vindos à era da Inteligência Artificial Geral (AGI)“.

Mas o otimismo tecnológico durou pouco. A 9 de setembro, o especialista britânico Jacob Coxon, ex-membro da Anthropic e da OpenAI – duas das empresas que disputam a liderança na investigação em inteligência artificial, juntamente com a Alphabet-Google, a Amazon, a Microsoft e a Tesla -, denunciou que quem desenvolve estes modelos considera que uma futura superinteligência artificial “poderá matar-nos a todos até ao final da década“. Questionou também ambas as empresas e afirmou que estas estão a avançar no sentido de sistemas capazes de se aperfeiçoarem a si próprios, “brincando com as nossas vidas“.

Nos dias seguintes, começaram a surgir relatos sobre eventos ocorridos principalmente em ambientes de teste, nos quais agentes de IA realizaram ações não indicadas previamente, violaram sistemas ou modificaram o seu próprio funcionamento, chegando mesmo a contornar algumas restrições impostas pelos seus programadores.

As afirmações de Coxon não foram isoladas. Evan Hubinger, responsável pela segurança da Anthropic, concordou com ele e afirmou que, na sua estimativa pessoal, existe um risco superior a 10% de que uma IA possa provocar a extinção da humanidade durante a próxima década. Várias figuras de referência do setor também reconheceram a existência de riscos graves e a necessidade de reforçar os mecanismos de segurança.

O debate sobre o nível alcançado pela IA

Será que a inteligência artificial atingiu finalmente capacidades comparáveis às humanas? Sem dúvida, os últimos avanços, como o GPT-6 Astra, representam um salto espetacular. Ainda não existe consenso científico nem uma medida universal que permita afirmar que se tenha alcançado a IGA (Inteligência Geral Artificial), definida como sistemas altamente autónomos capazes de superar os humanos na maioria das tarefas economicamente valiosas, muito menos a superinteligência, um patamar superior que implicaria a existência de máquinas amplamente mais inteligentes do que os seres humanos.

Sejamos claros. Não estamos a afirmar que seja impossível que, num futuro, esse estádio possa ser alcançado.

O que está realmente a acontecer é que existe uma corrida para desenvolver modelos cada vez mais avançados, que são lançados no mercado ou colocados à disposição dos complexos militares antes de existirem controlos suficientemente testados para evitar acidentes, utilizações indevidas ou consequências catastróficas. “Hoje em dia, há mais regulamentação para servir um hambúrguer do que para oferecer um produto de IA“, afirma-se no documentário da Netflix “The AI Doc: Or How I Became an Apocaloptimist” (‘O Documentário Sobre IA: Ou Como Me Tornei num Apocalotimista‘).

Ao risco para a classe trabalhadora de que a IA provoque a destruição de milhões de postos de trabalho e um aumento catastrófico do desemprego, em vez de trazer progresso e mais tempo livre, somam-se agora os alertas sobre os perigos de um desenvolvimento descontrolado e da sua aplicação militar.

A competição pela IA entre Trump e o governo chinês

Donald Trump opõe-se a travar a corrida pela IA. Tal como entre as empresas, onde ninguém quer abrandar por medo de perder uma vantagem competitiva ou uma fatia do mercado, o governo norte-americano coloca o desenvolvimento tecnológico como uma peça central da sua competição com a China. Trump tem insistido que os Estados Unidos devem manter a liderança e defendeu que a IA poderá ter um impacto ainda maior do que a Revolução Industrial.

O governo de Xi Jinping, por seu lado, também participa nesta competição tecnológica, marcada por objetivos económicos, geopolíticos e militares. A disputa entre os Estados Unidos e a China pelos chips, pelos modelos de IA e por outras tecnologias avançadas tornou-se um dos principais pontos de tensão entre ambas as potências.

Evidentemente, tal competição não se resolve com um mero “sistema de alerta para incidentes de IA“, tal como foi noticiado que se está a estudar implementar.

O problema não é a IA

Os gigantes monopolistas da IA continuam a avançar com os seus desenvolvimentos porque estão numa competição pelos mercados e pelos lucros futuros, sem que a segurança seja necessariamente o critério principal que orienta essa corrida. Não parece muito diferente da forma como agem as grandes corporações que hoje, apesar de todos os avisos dos defensores do ambiente, dão prioridade aos seus lucros.

Isto é potenciado pela corrida pela liderança tecnológica entre os Estados Unidos e a China, que inclui os negócios e o posicionamento dos seus próprios monopólios transnacionais, bem como aplicações militares. A comparação com a corrida ao armamento nuclear surge até mesmo dentro do próprio setor tecnológico.

Alexander Karp, diretor executivo da Palantir, a empresa cofundada por Peter Thiel, escreveu em 2023 um artigo no ‘The New York Times‘ intitulado “O nosso momento Oppenheimer: a criação das armas da IA” (‘Our Oppenheimer Moment: The Creation of A.I. Weapons‘), traçando um paralelo entre a física nuclear e a ciência da computação. A Palantir fornece tecnologia utilizada por organismos norte-americanos como o ICE (Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos e pelo Departamento de Guerra (Antigo Departamento de Defesa). O seu sistema Maven foi utilizado em operações militares contra o Irão e faz parte da infraestrutura norte-americana de processamento de informação e seleção de alvos.

Esse sistema também esteve envolvido no processo de seleção de alvos durante a campanha em que foi bombardeada uma escola primária em Minab, no Irão, onde morreram mais de 150 pessoas, muitas delas crianças. Investigações posteriores apontaram uma possível dependência excessiva da informação processada pelo Maven, embora a responsabilidade concreta pela seleção desse alvo tenha sido objeto de investigação.

O capitalismo funciona submetendo todos os desenvolvimentos tecnológicos e os avanços da ciência e da técnica à lógica da concorrência e da rentabilidade. Tecnologias que poderiam contribuir para o progresso e libertar tempo de tarefas penosas podem tornar-se, nessas condições, ferramentas de desemprego em massa, supervisão, repressão e destruição por meio de drones, sistemas automatizados de combate ou outras aplicações militares.

A solução não está em opor-se à IA. O que está em causa é discutir quem controla estas tecnologias, com que objetivos são desenvolvidas e ao serviço de que interesses são utilizadas. Numa perspetiva socialista, defendemos que estes desenvolvimentos estejam sob controlo público e dos seus trabalhadores e trabalhadoras, como parte de um planeamento democrático e responsável, orientado para as necessidades sociais e não para os lucros privados.

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