Pela Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina
Os números económicos do governo de Javier Milei são aterradores para a classe trabalhadora. Esta semana confirmou-se que o consumo continua a cair, que o desemprego aumentou e que os aumentos das tarifas continuam acima da inflação média, corroendo mês após mês os salários e as pensões, que já se encontram no nível mínimo. A apresentação do projeto de Orçamento para 2027 revelou as verdadeiras intenções do governo: aprofundar a austeridade para poder cumprir as exigências do FMI e, em particular, fazer face à montanha de vencimentos da dívida que se avizinham.
O crescimento visível da indignação popular e a unanimidade das sondagens, que revelam uma maioria muito sólida que repudia o governo, fazem com que não haja nenhuma reunião do ‘establishment‘, no país ou no estrangeiro, em que não se questione o que irá acontecer com o governo de Milei no futuro imediato. Por isso, Patricia Bullrich esforça-se por fazer gestos de “diferenciação“. Procura manter o seu próprio eleitorado perante um futuro eventual e pouco claro “sem Milei“. Um verdadeiro reflexo da gravidade da crise.
As questões, então, centram-se no que acontece com o peronismo, o principal partido patronal da oposição. É claro que este tenta tornar-se aquele que, em 2027, canalize eleitoralmente a rejeição a Milei. Mas o peronismo não consegue “captar” a revolta contra o governo. Há setores enormes que não querem voltar ao que ainda é uma experiência recente: o desastre do governo de Alberto Fernández, Cristina Fernández e Sergio Massa. Muitos também estão indignados com o seu papel como oposição à motosserra de Milei. Com deputados e senadores que acabaram por garantir o quórum e votar as principais leis do governo, com a ausência quase total de dirigentes peronistas a acompanhar as lutas ou, pior ainda, com o papel traidor da CGT (Confederação Geral do Trabalho da República Argentina), que continua num pacto vergonhoso com o governo.
O governador de Buenos Aires, Axel Kicillof, realizou um ato de “lançamento” do seu movimento, o Movimento Direito ao Futuro, não por acaso no sábado passado, na mesma tarde em que se realizava a ‘Marcha da Raiva‘, procurando não deixar escapar setores “da esquerda“. “Construir a partir da base“, “cantar novas canções“, “contem comigo para 2027” e frases semelhantes foram ouvidas do governador de Buenos Aires, todas elas alfinetadas veladas contra Cristina Fernández e Máximo Kirchner na disputa interna peronista.
No entanto, quando nos perguntamos que soluções propõe para o povo trabalhador, não encontramos nada. Pelo contrário, nas suas viagens ao estrangeiro, Kicillof já foi várias vezes “tranquilizar” os grandes capitais, garantindo a continuidade dos pagamentos da dívida e até dos privilégios criados por Milei, como o RIGI (‘Regime de Incentivos para Grandes Investimentos‘) ou a lei de flexibilização laboral. A isto há que acrescentar o quadro que compõe o suposto novo movimento “para o futuro” de Kicillof, que inclui o misógino e fascista Santiago Cúneo, o burocrata Roberto Baradel ou barões da periferia, como o presidente da câmara de La Matanza, Fernando Espinosa.
Como se tudo isto não bastasse, para além de Kicillof, também se movimentam dentro do peronismo, com vista a candidatar-se, Sergio Massa e vários ex-governadores, como Gerardo Zamora, de Santiago del Estero, ou Sergio Uñac, de San Juan. Todos muito longe de oferecer qualquer solução para as necessidades mais urgentes dos e das trabalhadoras e trabalhadores.
Entretanto, a revolta popular transformou-se, mais de uma vez, em luta. E ficou demonstrado que é possível vencer. Aconteceu com o Garrahan1 e com o movimento das pessoas com deficiência, agora novamente atacado. Mais recente na memória está a experiência da marcha de 6 de agosto, que conseguiu travar Milei na sua tentativa de estrangeirização das terras. E agora, a ‘Marcha da Revolta‘.
Claro que, em primeiro lugar, estão as tarefas concretas. A primeira é a participação maciça no 39.º Encontro Plurinacional de Mulheres, Lésbicas, Travestis, Trans, Bissexuais, Intersexuais e Não Binárias, em Córdoba, no fim de semana de 10, 11 e 12 de outubro. Depois, temos de encher as ruas a 15 de outubro, na Quinta Marcha Federal Universitária. Mais tarde, também teremos de tornar a Marcha do Orgulho, a 7 de novembro, mais massiva do que nunca, nada menos do que um dia antes da chegada do Papa à Argentina.
Mas, ao mesmo tempo, temos o desafio, após a ‘Marcha da Raiva‘, de dar continuidade à construção de uma verdadeira coordenação de todos os setores que a convocámos, na qual a Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidos (FIT-U) deve ter um papel protagonista, tal como aconteceu a 19 de setembro. Uma coordenação para apoiar todas as lutas e novas iniciativas que possam surgir, mobilizando a esquerda e os setores do sindicalismo combativo, da juventude, das mulheres e das minorias, bem como as organizações de reformados e reformadas.
Tudo isto torna mais urgente do que nunca o reforço e a defesa da única alternativa que existe para o povo trabalhador: a Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidos. Aproveitando e potenciando a imagem positiva que Myriam Bregman transmite atualmente e defendendo o programa da FIT-U, o único que oferece uma saída para os problemas mais urgentes do povo trabalhador. Propomos não pagar a dívida, romper com o FMI, tributar os ricos e as grandes empresas, nacionalizar o setor bancário e o comércio externo e reestatizar as empresas privatizadas. Tudo com o objetivo de que esses recursos sejam canalizados para salários e pensões dignos, para trabalho genuíno e para saúde, educação e habitação para todos e todas.
- Hospital público pediátrico em Buenos Aires, que em 2024 viu o seu financiamento por parte do governo federal congelado [↩]