Milei contra o aborto: a mentira como política de Estado

26 de Agosto, 2026
2 mins leitura

Por Mercedes Trimarchi, vereadora eleita pela Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidos (FIT-U), e membro da Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina

Javier Milei voltou a atacar o movimento feminista. Desta vez, fê-lo no Conselho das Américas, uma conferência anual organizada em Buenos Aires pela Câmara de Comércio Argentina (CAC) e pela organização norte-americana ‘Americas Society‘.

Sem qualquer tipo de fundamento empírico, afirmou que a queda da taxa de natalidade no nosso país estaria diretamente ligada à aprovação da Lei da Interrupção Voluntária da Gravidez (IVE). A este respeito, afirmou: “Hoje, a Argentina não atinge uma taxa de crescimento populacional e de natalidade que permita a reposição. Por conseguinte, essa paixão por assassinar crianças no ventre da mãe também nos custa caro em termos de crescimento, e nem sequer vou falar em termos do sistema de segurança social“. Acrescentou ainda: “Se uma característica do crescimento é o rendimento do capital, também é importante o que acontece no mercado de trabalho e na população. Na verdade, estamos a pagar muito caro a loucura dos lenços verdes“. Rapidamente, líderes, personalidades e organizações manifestámo-nos para repudiar as declarações de Milei e para erguer, com mais força, os nossos lenços.

Sobre a queda da taxa de natalidade

Não existe qualquer evidência que permita estabelecer uma relação entre a queda da taxa de natalidade e o direito ao aborto. De acordo com a Direção de Estatísticas e Informação sobre Saúde (DEIS) do Ministério da Saúde da Nação, a taxa de natalidade tem vindo a diminuir desde 2014, enquanto a Lei n.º 27.610 foi aprovada em dezembro de 2020 e regulamentada em agosto de 2021. Ou seja, a queda da natalidade começou vários anos antes da legalização do aborto. Além disso, a diminuição da natalidade é uma tendência registada a nível mundial e resulta de múltiplos fatores sociais, económicos e culturais.

Entretanto, a pobreza entre crianças e adolescentes aumenta

Enquanto Milei atribui a culpa dos problemas demográficos do país ao aborto, as condições de vida de milhões de crianças e adolescentes continuam a deteriorar-se. Um relatório da UCA revelou que a pobreza atingiu 30% da população durante o primeiro trimestre de 2026, enquanto entre as crianças e os adolescentes chegou aos 42,5%. Se Milei está realmente preocupado com as meninas e os meninos, deveria explicar por que razão o seu governo condena milhões deles a viver na pobreza.

A crise da segurança social não se resolve obrigando as mulheres a ter filhos

Milei também pretende utilizar a queda da natalidade como explicação para a crise do sistema de segurança social. Mas o problema da segurança social não se resolve obrigando as mulheres e as pessoas grávidas a ter filhos. O sistema de segurança social depende, entre outros fatores, do número de pessoas que trabalham, dos seus salários e das contribuições efetuadas. Neste sentido, um dos principais problemas do sistema argentino é a enorme informalidade laboral. Milhões de trabalhadoras e trabalhadores não têm empregos registados e, por isso, os seus empregadores não efetuam as contribuições correspondentes.

Mais lenços verdes do que nunca

As declarações de Milei não são uma simples opinião. Fazem parte de uma ofensiva política e ideológica contra os direitos conquistados pelo movimento feminista, aquilo a que ele próprio chama de “batalha cultural“. Perante os seus ataques, defendemos o direito ao aborto legal, seguro e gratuito. Não vamos permitir que nos responsabilizem pela crise económica, pela queda da natalidade ou pelo défice da segurança social. Por isso, perante a ofensiva de Milei, voltamos a erguer os nossos lenços verdes e a exibi-los nas ruas.

Ir paraTopo

Don't Miss