Bolívia: crise política e revolta popular contra o governo

18 de Junho, 2026
4 mins leitura

Por Miguel Lamas, dirigente da Alternativa Revolucionária do Povo Trabalhador – Força (ARPT), secção da UIT-QI na Bolívia, e da UIT-QI

Dezenas de bloqueios rodoviários espalham-se por todo o país, organizados por camponeses e indígenas que exigem a demissão do governo de Rodrigo Paz. O mesmo é reivindicado pela Central Sindical Boliviana (COB), que tinha anunciado uma greve geral (que acabou por não se realizar), embora em diferentes cidades tenham ocorrido greves e mobilizações importantes contra o governo, com destaque para o corpo docente.

O governo de Rodrigo Paz é rejeitado pela grande maioria da população boliviana. No entanto, consegue manter-se no poder graças ao apoio dos partidos de direita que, no Congresso, aprovaram a sua competência para decretar o “estado de exceção“, dando-lhe carta branca para aplicar uma repressão mais ampla e mais forte. Embora ainda não se atreva a aplicar estas medidas de forma abrangente e generalizada por receio da reação das ruas, tem-no vindo a fazer de forma seletiva e permanente. Nos últimos dias, deteve no aeroporto de El Alto uma delegação de solidariedade composta por dirigentes sindicais e políticos da Argentina e expulsou-a imediatamente do país.

Apesar do enfraquecimento perante a população trabalhadora, o governo de Rodrigo Paz consegue resistir à rebelião popular que exige a sua saída, porque ainda não se formou uma liderança nacional capaz de unificar as lutas de forma coerente, nem se consegue formular propostas programáticas nacionais alternativas para propor um novo governo à população pobre e trabalhadora, a fim de pôr fim a este desastre social.

Outro elemento que travou o avanço da luta popular boliviana foi o facto de algumas direções de organizações sindicais, como as dos trabalhadores da indústria e do magistério rural e urbano (sindicatos de professores), terem negociado com o governo a suspensão das medidas de luta, sem terem conquistado as suas reivindicações básicas. De qualquer forma, no caso do magistério, setores de base rejeitaram essas negociações da cúpula que capitulam perante o governo, tendo-se realizado fortes marchas em La Paz e noutros locais da Bolívia.

O outro fator que mantém o governo no poder é o apoio internacional permanente recebido do imperialismo norte-americano, liderado por Trump, com Milei e outros governos que compõem o chamado ‘Escudo das Américas‘ (‘Shield of the Americas‘), acordado em março entre os governos latino-americanos de extrema-direita e o presidente norte-americano. Trata-se de um acordo para garantir o domínio imperialista ianque e que estabelece a possibilidade de intervenções militares sob o pretexto de “acabar com os cartéis do narcotráfico“. Essa foi a desculpa de Trump para iniciar a sua intervenção na Venezuela, a detenção de Maduro e, agora, a subjugação da atual presidente – anteriormente vice-presidente de Maduro -, para que entregue aos Estados Unidos o petróleo produzido naquele país.

O mesmo pretendem fazer na Bolívia. O projeto do governo consiste em entregar às multinacionais norte-americanas as riquezas do subsolo e as terras. Embora a pilhagem das riquezas bolivianas não seja nova – teve início há muito tempo e manteve-se também durante quase vinte anos dos governos do MAS, com o seu falso e hipócrita discurso “anti-imperialista” -, o governo de Rodrigo Paz vem para tudo.

Crise e pilhagem do país

A atual crise económica internacional tem reflexos evidentes na situação nacional. Está a agravar-se enormemente e a causar um sofrimento severo a todo o povo trabalhador. Os preços dos produtos de consumo popular aumentam, os salários são congelados e tenta-se tirar as terras aos camponeses e aos pequenos proprietários para as entregar aos grandes oligarcas do agronegócio.

O governo isentou os grandes proprietários de terras de impostos e permite-lhes controlar cada vez mais extensões de terra, incluindo oligarcas estrangeiros do Brasil ou da Argentina. Agora permite-lhes exportar toda a produção, sem pagar impostos, e levar também os dólares que recebem. Estes grandes oligarcas foram os responsáveis pelo incêndio de 10 milhões de hectares de florestas em 2019, permitido pelo MAS, que estava no poder, para controlar mais terras, o que provocou uma alteração climática a nível nacional com secas prolongadas em muitas regiões do país.

Na mineração privada também se verifica uma pilhagem do país. Em primeiro lugar, com o ouro: para o extrair, envenenam os rios com mercúrio, um metal pesado altamente tóxico utilizado para separar o ouro dos sedimentos. Além disso, quase não pagam impostos, sendo multinacionais associadas a supostas “cooperativas” (que, na realidade, são empresas). Tudo isto começou há anos e agora também estão a ser favorecidos por este governo, que tenta entregar essas exportações ao capital norte-americano.

Por um governo da COB e das organizações populares

A partir do Partido dos Trabalhadores (PT), que integra a Alternativa Revolucionária do Povo Trabalhador – Força (ARPT) com os militantes bolivianos da Unidade Internacional de Trabalhadoras e Trabalhadores – Quarta Internacional (UIT-QI), perante esta grave situação, apelamos à unidade das organizações para lutar pela saída de Rodrigo Paz e impedir que levem as riquezas do país.

Mas também não seria solução a realização de eleições com a atual lei eleitoral fraudulenta. Precisamos de impor uma lei eleitoral que legalize politicamente as organizações do povo trabalhador, em primeiro lugar a COB, que o propôs no seu último congresso. 

Do PT, defendemos a necessidade de lutar até conseguirmos um governo provisório da COB e das organizações populares, que governe através de conselhos democráticos e que tome medidas revolucionárias urgentes nas áreas económica e social: aumentos salariais em consonância com a inflação, impedir que as terras dos camponeses e indígenas sejam roubadas, impedir que continuem a levar o ouro, o gás e outros minerais, bem como a produção agrícola e os dólares que os oligarcas ganham, expropriar os grandes proprietários de terras para produzir o que o povo da Bolívia necessita, expropriar e expulsar as multinacionais.

Ir paraTopo

Don't Miss