Por Layla Nassar, da Luta Internacionalista (LI), secção da UIT-QI no Estado Espanhol
A Flotilha ‘Global Sumud 2026‘ não navega apenas contra a marinha israelita. Navega, acima de tudo, contra o silêncio. Gaza desapareceu da agenda mediática global. Não porque a situação tenha melhorado, mas porque foi imposta uma narrativa de ‘pós-guerra‘ que não corresponde à realidade. O “cessar-fogo” tem funcionado sobretudo como um mecanismo de silêncio informativo: o bloqueio continua, a destruição e os assassinatos continuam a marcar o quotidiano, o exército israelita continua a ocupar mais de metade do território da Faixa. 780 assassinatos em seis meses: em que outro contexto falaríamos de ‘cessar-fogo‘? Na Cisjordânia intensifica-se a violência desenfreada dos colonos, a usurpação de terras, o endurecimento do sistema de apartheid israelita com a pena de morte por enforcamento. A Palestina está fora do foco e isto traduz-se numa menor mobilização.
A agressão imperialista dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão contribuiu para esta invisibilização. A brutalidade e a impunidade aumentam, e acelera-se o velho projeto do ‘Grande Israel‘, que tenta impor-se semeando o caos e a destruição na região. E à medida que estes planos (concebidos mais com base na arrogância colonial do que numa estratégia clara) se atolam, os monstros enfurecem-se e atacam com mais virulência. Sem dúvida, os participantes na atual Flotilha correm mais riscos por duas razões: o inimigo está enlouquecido e a mobilização é mais fraca. Mas o risco que assumem os palestinianos em Gaza, na Cisjordânia e nos territórios de ’48 é muito maior, como nos lembram todos os dias a partir dos navios. Temos o orgulho de ver nesses navios a Mónica Schlotthauer e o Ezequiel Peressini (da Esquerda Socialista da Argentina) e o Görkem Duru (Partido da Democracia dos Trabalhadores da Turquia), camaradas da Unidade Internacional de Trabalhadoras e Trabalhadores – Quarta Internacional. Eles arriscam a vida; a nós, em terra, cabe reativar a mobilização.
Trump e Netanyahu fracassaram na sua guerra relâmpago contra o regime iraniano. Encontram-se com múltiplas frentes abertas, sem resultados decisivos e com uma dificuldade crescente em controlar as consequências do conflito. Entretanto, o capitalismo mostra a sua fragilidade: um país capaz de controlar um pequeno estreito faz vacilar toda a economia global, agravando a sua crise.
Neste contexto, a importância da Flotilha não reside em conseguir quebrar o bloqueio. Funciona como uma interrupção. Rompe, ainda que de forma pontual, com a normalização do genocídio e da barbárie. Demonstra que é possível agir, é um catalisador da mobilização. Obriga a voltar o olhar para Gaza quando tudo empurra na direção contrária. Porque o problema não é apenas o bloqueio físico, mas sobretudo o bloqueio político.
O povo palestiniano demonstra todos os dias que resistir é possível, mesmo perante a tentativa sistemática de aniquilação. Apoiamos esta resistência dentro de Gaza com a campanha de apoio material à União independente dos Comités de Trabalhadores – Palestina (ILCUP), para a compra e distribuição de água e alimentos. Este sindicato continua a organizar distribuições e alargou-as ao norte de Gaza. Mas essa resistência não pode ficar sozinha. É urgente reativar a mobilização nas ruas, nos bairros, nas faculdades e nos locais de trabalho. Não apenas como um ato de solidariedade, mas como uma resposta de sobrevivência: a Palestina é hoje o laboratório do mundo de terror que o sionismo e o imperialismo nos querem impor.