Peru: Declaração sobre o processo eleitoral em curso

9 de Abril, 2026
5 mins leitura

Pelo Partido dos Trabalhadores Unidos (PT-UNÍOS), secção da UIT-QI no Peru

No dia 12 de abril, mais de 27 milhões de peruanos irão às urnas para eleger o candidato presidencial, 60 senadores, 130 deputados e 5 parlamentares andinos.

São 36 “partidos” políticos que disputam a presidência e os cargos nas câmaras legislativas, enquanto a cidadania demonstra menos interesse em participar na disputa, de tal forma que, a menos de três semanas da data marcada para as eleições, 35,2% somam diferentes manifestações de rejeição aos candidatos, número que, somado à intenção de voto nos 4 primeiros na preferência, totaliza 36,1%.

A destituição do presidente Castillo, substituído por Dina Boluarte por decisão do Congresso da República, foi contestada pelo movimento de massas, principalmente no sul do país, com mobilizações em massa que exigiam “QUE VÃO TODOS!“, antecipando eleições e o encerramento do Congresso, uma luta que colocou o poder em xeque. O facto de os objetivos das massas não terem sido alcançados e de a sua mobilização ter sido travada por uma repressão feroz e indiscriminada, a mesma que causou dezenas de mortos e centenas de feridos, não significou uma derrota nem encerrou a crise generalizada em curso, a mesma que, até ao momento em que escrevemos estas linhas, continua em aberto.

O que foi descrito reflete-se de diversas formas no desenrolar do processo eleitoral, em que os candidatos são expulsos das ruas que foram ocupadas pelos assassinados e que continuam a exigir justiça. Acreditamos que os acontecimentos trágicos que abalaram o nosso país terão um grande impacto no processo eleitoral e nos seus resultados. O povo está a cobrar a conta aos “terruqueadores” (do castelhano andino “terruco“, significa ‘terrorista‘) e começa a apoiar aqueles que, de uma forma  ou de outra, se solidarizaram com a sua luta; esta afirmação é muito objetiva e aproveitada por um candidato que teve raízes apristas (relativo ao Partido ‘APRA‘ – ‘Aliança Popular Revolucionária Americana‘) e hoje se autodenomina social-democrata, Alfonso López Chau.

O pacto mafioso em ação

O processo eleitoral em curso é uma criação do pacto mafioso que governa o país a partir do Congresso da República, com o objetivo, nada dissimulado, de garantir que a política de entrega e pilhagem dos recursos do país se mantenha.

Desde antes mesmo da convocação oficial das eleições gerais de 2026, a máfia parlamentar – constituída por quase todas as forças partidárias com representação no Congresso e por aqueles que, sem o ser, a apoiam – colocou um fantoche no palácio do governo e, com os seus servos e apoiantes incondicionais, tomou o controlo da Defensoria do Povo1, da Junta Nacional de Justiça, do Tribunal Constitucional e da Procuradoria-Geral da Nação. Alteraram dois terços da Constituição, mudaram o Júri Nacional de Eleições, a RENIEC (‘Registo Nacional de Identificação e Estado Civil‘) e a ONPE (‘Gabinete Nacional de Processos Eleitorais‘), arquivaram as investigações por corrupção e aprovaram leis favoráveis ao crime organizado, impuseram o sistema de duas câmaras e contornaram a proibição da reeleição imediata.

As intenções da máfia do Congresso e de todos os que a integram têm o objetivo declarado de renovar, após os resultados eleitorais, um novo pacto mafioso, um novo fantoche no Palácio do Governo, desta vez apoiado em todas as alterações constitucionais que conferem ao Senado da República poderes excessivos para controlar o país e as suas instituições.

Os problemas existem e as soluções também!

Não é preciso grande imaginação para constatar que a criminalidade e a corrupção grassam em todas as esferas do Estado; que muitos dos membros da Polícia Nacional do Peru estão ao serviço das máfias que assolam o país; que o Congresso da República aprovou leis que favorecem o crime; que os serviços de saúde, educação, habitação, água, informalidade laboral e uma longa série de calamidades que precisam de ser resolvidas – e que, enquanto país, temos condições económicas para resolver – deixem de fazer parte dos discursos eleitorais.

A partir desta constatação, podemos perguntar se há algum candidato confiável a concorrer, que realmente acredite na luta para atender às demandas do povo? Há algum candidato confiável que honrará as suas promessas eleitorais uma vez eleito?

Nós acreditamos que NÃO, como a experiência vivida tem demonstrado, simplesmente porque nós, os pobres e os trabalhadores, não temos nenhuma opção política que assuma como seus os problemas da nossa classe social, se não o fizermos nós mesmos; que todos os esforços válidos de luta e protesto não têm futuro, se, no calor da intervenção, não construirmos uma opção verdadeiramente revolucionária. Enquanto não o fizermos, mesmo que seja como opção eleitoral, continuaremos a votar nos menos maus, nos menos ladrões, nos menos corruptos.

Por outras palavras, temos a tarefa pendente e inadiável de construir as nossas próprias organizações para disputar o poder às organizações que defendem os exploradores do povo e dos seus trabalhadores, bem como ao sistema dominante que está ao seu serviço.

Em quem votar

Se tivéssemos uma opção eleitoral que representasse verdadeiramente os nossos interesses, seríamos os primeiros a apoiá-la e a empenhar-nos totalmente na sua vitória. A direita ganhou força, entre outras coisas, devido às inconsistências de Castillo, que em nenhum momento se apoiou nas massas que, contra todas as adversidades, lhe garantiram a vitória eleitoral. Ele foi destituído por aqueles que foram eleitos com ele e por outros que se autodenominavam de esquerda e que, posteriormente, liderados por Cerrón (fundador do partido ‘Peru Livre‘, que levou o Castillo como seu candidato nas presidenciais de 2021), foram os promotores do pacto mafioso.

O que queremos não é um discurso que se limite a enumerar todos os males que afligem o nosso país. O que queremos são soluções reais, e de enfrentar os responsáveis pela crise, que paguem aqueles que a causaram, não nós, que somos vítimas.

Partido dos Trabalhadores Unidos (PT-UNÍOS) não apela ao voto em nenhum candidato ou candidata à presidência. Sim, daremos apoio eleitoral àqueles que, pelos seus atos, demonstraram estar do lado dos pobres e dos trabalhadores, àqueles que hasteiam as bandeiras das nossas reivindicações, que vão desde a atenção às nossas demandas imediatas, à punição dos assassinos do povo, passando pela prisão dos corruptos.

Não votaremos em nenhum membro do partido que tenha participado no pacto mafioso, tenha ou não representação no Congresso, nem que tenha votado ou se abstido de votar contra a destituição de Castillo por não ter respeitado o voto popular de rejeição à reeleição e ao sistema de duas câmaras.

O nosso voto para senadores e deputados será direcionado para possíveis aliados na luta continuada do novo eleito ou eleita nas eleições de 12 de abril. Independentemente da opção partidária que tenham assumido.

A realidade é mais rica do que os desejos e é preciso estar pronto para fazer as correções necessárias.

  1. A ‘Defensoria do Povo do Peru‘ é uma entidade constitucional autónoma encarregue de defender os direitos constitucionais e fundamentais da pessoa e da comunidade, e de supervisionar o cumprimento dos deveres da administração estatal. A instituição atua na supervisão de processos democráticos através do seu sistema de monitorização eleitoral, além de publicar relatórios periódicos sobre conflitos sociais e a garantia de direitos humanos fundamentais no país []
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