Ataque ao Irão: um risco ou uma oportunidade para o regime autoritário?

8 de Abril, 2026
4 mins leitura

Por Bektaş Deneri, do Partido da Democracia dos Trabalhadores (IDP), secção da UIT-QI na Turquia

O ataque imperialista-sionista lançado contra o Irão no final de fevereiro deparou-se com uma resistência diferente do esperado. Apesar do assassinato de importantes dirigentes, incluindo Khamenei, ainda não há sinais de que o regime iraniano esteja prestes a cair. O Irão respondeu a esta agressão atacando as bases norte-americanas na região, fechando o Estreito de Ormuz e atacando Israel. A operação, que Trump previa que durasse apenas algumas semanas, parece estar longe de proporcionar uma vitória a favor do imperialismo. Nesta fase, foi declarado um cessar-fogo de duas semanas, que tem uma estrutura bastante contraditória e frágil, e o processo está aberto a novos desenvolvimentos.

Esta operação está, sem dúvida, intimamente relacionada com a crise do sionismo. O objetivo dos EUA era consolidar o seu controlo no Sudoeste Asiático e garantir a segurança de Israel. Embora Trump afirme que o alvo principal era a capacidade nuclear do Irão, os ataques estenderam-se por uma vasta área, desde as infraestruturas energéticas e de produção até às zonas residenciais.

As políticas agressivas do imperialismo norte-americano e do sionismo não oferecem nada além da destruição aos povos da região. No entanto, a situação é diferente para o regime ‘de um homem só‘ e para os outros regimes reaccionários da região; este quadro, que representa a destruição para os povos, pode transformar-se numa oportunidade para os regimes.

O papel da Turquia na guerra

A posição da Turquia, o segundo maior exército da NATO e membro crucial no Médio Oriente, nesta guerra é clara. Enquanto Kürecik e Incirlik (uma instalação rádio e base aérea militar, respectivamente) não forem encerradas e a Turquia não sair da NATO, não é muito provável que haja um conflito irreconciliável entre os objetivos militares do sionismo e a Turquia. Hoje, o quadro é esse.

Erdoğan, ao afirmar “Que diferença faz se o nosso nome for Ali ou Umar?1, insinua que Israel está a incitar uma guerra sectária e que ele próprio é amigo do povo iraniano. Por outro lado, as bases militares na Turquia continuam a trabalhar em prol da segurança de Israel e a Turquia atua como intermediária no transporte de petróleo para Israel. O regime autoritário apoia os EUA e o sionismo no âmbito da inteligência e da logística. O regime continua a “comer com o lobo e a chorar com o pastor“, tentando abrir espaço para si próprio e criar oportunidades tanto a nível interno como externo.

Oportunidades e riscos para o regime

Para o regime de Erdoğan, equilibrar o Irão em nome do imperialismo é uma oportunidade importante. A contenção do Irão já está a ser feita por meio de bases e capacidade militar, e esta situação garante que a Turquia continue a ser uma das potências importantes na região. Por outro lado, o regime quer voltar a desempenhar o papel de mediador neste conflito. Está a ser construído um discurso de que Erdoğan, assumindo o papel de protetor do mundo islâmico, salvou a Turquia de entrar nesta guerra. Este argumento alimenta-se também da alegação de que “depois do Irão, é a vez da Turquia“.

Não somos videntes, mas sabemos que a Turquia não será a próxima por duas razões fundamentais: a primeira é que a Turquia é um país que mantém relações comerciais com Israel, que até há dois anos tinha normalizado as relações e estabelecido várias parcerias. Ou seja, o regime turco, ao contrário do que afirma, não é anti-Israel. A segunda é o facto de a Turquia ser um país da NATO. O regime está, na verdade, a encobrir a sua própria cumplicidade, transformando uma estrutura da qual faz parte numa questão de sobrevivência interna. Neste cenário, as oportunidades transformam-se em material político a ser utilizado internamente para consolidar o regime.

Os riscos inerentes à guerra, porém, superam as oportunidades que ela oferece. A Turquia, dependente do exterior, está a ser gravemente afetada economicamente pela guerra e pelas flutuações relacionadas com o petróleo. O facto de a Turquia acolher bases da NATO representa um risco em termos da legitimidade estabelecida internamente. Ainda não existe uma grande mobilização contra a guerra e nota-se uma tendência de distanciamento da opinião pública em relação a esta guerra, no entanto, este ano a Turquia irá acolher a cimeira da NATO e, nos próximos dias, a Frota Global da Resistência (Flotilha Global Sumud) partirá novamente. A Palestina é um dos pontos sensíveis do regime, com todas as suas contradições. Tendo tudo isto em conta, uma eventual mobilização de massas contra os EUA e o sionismo poderá comprometer esta posição mediadora do governo.

O regime autoritário fará tudo o que estiver ao seu alcance para ampliar a sua legitimidade e margem de manobra nos domínios diplomático e militar. Para reprimir a oposição, apontará para as possibilidades de reforçar o poder regional da Turquia e tentará transformar os riscos da guerra numa oportunidade para si próprio. No entanto, o seu sucesso neste processo não será determinado apenas por manobras diplomáticas, mas também pela atitude das massas trabalhadoras na Turquia.

  1. Umar ibn al-Khattab e Ali ibn Abi Talib foram, respetivamente, o segundo e o quarto califas do Califado Rashidun; a primeira ordem política govermentiva islâmica que liderou a comunidade muçulmana desde a morte do profeta Maomé, em 632 d.C., até à fundação do Califado Omíada, em 661 d.C., caracterizada pela sua rápida expansão militar durante a qual se tornou a força económica e militar mais poderosa da Ásia Ocidental e do Nordeste de África. A sucessão de Maomé é o principal fator que levou à divisão entre muçulmanos sunitas e xiitas. Os sunitas acreditavam na escolha de um líder por consenso e, por isso, consideram Umar como o segundo califa e líder supremo (embora respeitem Ali), enquanto os xiitas acreditavam na liderança dentro da família do Profeta, considerando que Ali foi nomeado pelo Profeta e, portanto, o sucessor imediato legítimo, tendo-o na mais alta estima e, assim, vendo a liderança dos três primeiros califas como uma usurpação dos direitos de Ali []
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