Dívida externa: a maldita herança económica da ditadura

13 de Março, 2026
2 mins leitura

Por José Castillo, dirigente da Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina, e da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidos (FIT-U)

A ditadura genocida tinha um objetivo económico preciso: aprofundar a semicolonização do país pelo imperialismo norte-americano e aumentar qualitativamente a superexploração do povo trabalhador. Através do terror, com desaparecimentos e detenções (que afetaram principalmente ativistas, membros de comissões internas, delegados e dirigentes sindicais) e proibindo a atividade sindical, o ministro da Economia de Videla, José Alfredo Martínez de Hoz, conseguiu, logo nos primeiros meses, reduzir os salários em 40%. Seguiram-se encerramentos de empresas, uma abertura brutal às importações e um esquema financeiro que enriqueceu os patrões nacionais e estrangeiros “amigos” da ditadura genocida.

Mas, sem dúvida, o legado mais macabro foi a dívida externa. Quando Videla assumiu o cargo em 1976, o endividamento ascendia a 4 mil milhões de dólares. Em 1983, era de 46 mil milhões. Metade tinha sido contraída pelos próprios militares com a desculpa de obras faraónicas (como as do Mundial de 1978), compra de armas ou diretamente para o roubo e o seu enriquecimento pessoal. A outra metade correspondia à dívida de empresas: grupos nacionais como Pérez CompancMacriTechintFortabatMadanesGalicia ou mesmo filiais de transnacionais que se endividaram naqueles anos. Domingo Cavallo, presidente do Banco Central em 1982, “estatizou” essa dívida externa privada, transferindo-a para o Estado argentino.

O mais escandaloso é que todos os governos subsequentes (Raúl Alfonsín de 1983-1989, Carlos Menem de 1989-1999, Fernando De la Rúa de 1999-2001, Eduardo Duhalde de 2002-2003, Néstor de 2003-2007 e Cristina Kirchner de 2007-2015, Mauricio Macri de 2015-2019, Alberto Fernández de 2019-2023 e agora Javier Milei) a reconheceram e pagaram, aceitando o jogo de refinanciamentos infinitos, “quitas“, capitalizações e múltiplos mecanismos em que os juros se acumulavam, contraíam-se novos empréstimos para pagar os anteriores e, assim, a dívida crescia como uma bola de neve rumo ao infinito. Hoje, meio século depois, devemos mais de 500 mil milhões de dólares.

A dívida externa foi uma fraude em toda a linha. Imoral, porque foi paga e continua a ser paga com fome, pobreza, miséria e pilhagem por parte de todo o povo trabalhador para o enriquecimento de alguns poucos abutres. Ilegítima, porque nasceu de uma ditadura genocida. Ilegal, porque muitos dos fundos originais nem sequer foi possível provar que existiram como um crédito normal ou que nunca chegaram ao país. E fraudulenta, como demonstrou o juiz Ballesteros numa sentença exemplar no ano 2000, após uma investigação exaustiva do jornalista e historiador Alejandro Olmos. Essa sentença, que declarou como culpados Martínez de Hoz (Ministro da Economia entre 1976-1981) e outros representantes da ditadura, não teve qualquer efeito penal porque o caso já “havia prescrito“. Quanto à recomendação, que consta na própria sentença, de enviar os seus resultados ao Congresso Nacional, acabou por ser arquivada e lá permanece desde então.

Não há saída para o povo trabalhador nem possibilidade de desenvolvimento para o nosso país se não começarmos por deixar de pagar essa dívida, herança infame da ditadura. A 50 anos da ditadura genocida, devemos recordar, mais do que nunca, que a origem desta fraude (essa hemorragia que continua a afundar-nos) residiu nas políticas da ditadura genocida, apoiada pelo imperialismo, pelo FMI e pelas grandes patronais nacionais e estrangeiras.

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