25 de janeiro de 1987: 39 anos após a sua morte, o legado internacionalista de Nahuel Moreno

25 de Janeiro, 2026
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Por Adolfo Santos, dirigenteda Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina, e da UIT-QI

Este 25 de janeiro marca mais um aniversário da morte do nosso mestre, Nahuel Moreno, o maior líder trotskista latino-americano e um dos principais continuadores da obra do revolucionário russo. Assim o descreveu o líder trotskista belga Ernest Mandel na sua mensagem de despedida: “Ele foi um dos últimos representantes do punhado de quadros trotskistas que, após a Segunda Guerra Mundial, manteve a continuidade da luta de Leon Trotsky, em circunstâncias difíceis”. Moreno dedicou a sua vida à construção de organizações revolucionárias e da Quarta Internacional, para lutar por governos dos trabalhadores e trabalhadoras e pelo socialismo mundial.

As contribuições políticas e teóricas de Moreno ainda são um verdadeiro guia para as novas gerações de socialistas revolucionários. Foi ele quem tirou o trotskismo argentino da marginalidade para integrá-lo à classe trabalhadora e às suas lutas, construindo organizações revolucionárias. Compreendeu a importância da construção de uma organização internacional para superar, o que ele definia como, um “trotskismo bárbaro”. Em 1948, viajou para Paris e participou no Segundo Congresso da Quarta Internacional, um passo importante para consolidar a sua adesão à causa do internacionalismo operário e da revolução mundial. Além disso, teve uma participação destacada na luta contra o sectarismo de um setor da Internacional que se recusava a reconhecer os incipientes “estados operários” como uma conquista das massas que deveriam ser defendidas da agressão imperialista. Pouco antes de sua morte, ele diria: “(…) a maior parte da minha militância política esteve, e continua a estar, voltada para o partido mundial, para a construção da Quarta Internacional1.

O assassinato de Leon Trotsky em 1940 deixou a jovem Quarta Internacional nas mãos de uma direção pouco experiente que, a partir do Terceiro Congresso em 1951, foi imprimindo uma orientação de capitulação aos partidos comunistas e às direções nacionalistas burguesas da América Latina, Ásia e África. Moreno travou duras batalhas contra o oportunismo impulsionado por Michel Pablo e Ernest Mandel, que levava as organizações trotskistas a abandonar a tarefa de construção de partidos revolucionários e a luta por governos dos trabalhadores e das trabalhadoras. “A consequência mais nefasta dessa capitulação às direções contrarrevolucionárias ocorreu na Bolívia2. Enquanto se desenvolvia uma verdadeira insurreição operária e camponesa nas ruas de La Paz, que destruiu o exército, em vez de impulsionar a mobilização revolucionária como fizeram Lenin e Trotsky em 1917, Pablo e Mandel decidiram apoiar o governo nacionalista burguês de Paz Estenssoro. Uma verdadeira tragédia para a revolução latino-americana e mundial, que terminou em derrota.

O movimento trotskista também sofreu com outra corrente que significaria um obstáculo ao seu desenvolvimento, o “trotskismo nacional”, que menospreza a necessidade de construir uma internacional. Moreno combatia essa visão, que para ele não poderia haver uma elaboração nacional correta sem a contribuição de uma organização internacional, por menor que fosse. A construção de partidos revolucionários – ensinava-nos ele desenvolver-se-á, combinando as lutas nacionais com o acompanhamento dos processos internacionais. Além disso, ele estava convencido de que a chave para as vitórias da classe trabalhadora estavam intimamente ligadas à solidariedade de classe internacional, para a qual era fundamental a construção do partido mundial. “Para nós, o maior crime, a maior traição da burocracia estalinista foi a dissolução da Terceira Internacional, exigida por seus aliados Churchill e Roosevelt1.

A Brigada Simón Bolívar

O morenismo é um exemplo de internacionalismo permanente, tanto na sua determinação em fazer parte da construção do partido da revolução mundial, como na sua intervenção nos processos de luta nos diferentes países. Inspirada em experiências históricas como as Brigadas Internacionais que foram para Espanha lutar com os republicanos contra Franco, a corrente orientada por Nahuel Moreno organizou em 1979 uma brigada internacional para lutar na Nicarágua contra a ditadura de Anastasio Somoza.

A Revolução Nicaraguense encontrou Moreno exilado na Colômbia. Apesar das profundas diferenças e críticas à direção reformista e de conciliação de classes da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) e do fato de que praticamente não existia trotskismo naquele país, Moreno propôs formar uma brigada internacional de combatentes para se juntar à luta armada contra Somoza. Assim nasceu a Brigada Simón Bolívar (BSB). Participaram nela dirigentes e militantes morenistas de diferentes países e lutadores independentes que se uniram para resgatar o legado da solidariedade operária internacional. Parte da Brigada combateu na Frente Sul, onde teve três baixas mortais. Outro grupo, do qual participou Miguel Sorans, dirigente da Esquerda Socialista (IS) e da UIT-QI, tomou o porto nicaraguense de Bluefields, arrancando-o das mãos dos somocistas. Em 19 de julho de 1979, a Brigada entrou triunfalmente em Manágua, recebida pelo povo e pelo sandinismo.

Após a vitória revolucionária, o mandelismo voltaria a capitular, apoiando um governo de unidade com a burguesia, como o liderado pela FSLN. Enquanto isso, a Brigada foi expulsa por organizar mais de 80 sindicatos e promover expropriações rumo ao socialismo. Passaram-se 47 anos e, longe de avançar para o socialismo com a ajuda do movimento operário organizado, como propunha a BSB sob a orientação morenista, a revolução nicaraguense foi traída pela direção sandinista e hoje tornou-se uma ditadura capitalista nas mãos de Daniel Ortega, um dos seus ex-comandantes.

  1. https://nahuelmoreno.org/1986-conversaciones-con-nahuel-moreno/ [] []
  2. https://nahuelmoreno.org/el-partido-y-la-revolucion-1973/ []
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