Estados Unidos: Minneapolis explode contra Trump e os assassinatos da ICE

18 de Janeiro, 2026
8 mins leitura

Por Ezequiel Peressini, dirigente da Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina, e da UIT-QI 

Maldita cabra” (“Fucking bitch“). Foram essas as últimas palavras de Jonathan Ross, antes de disparar três vezes e acertar uma bala na cabeça de Renee Nicole Good, numa fria manhã de quarta-feira, 11 de janeiro, na cidade de Minneapolis, Minnesota. Renee era poeta, ativista e observadora legal para monitorar as ações do Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos (ICE) e, junto com seu parceiro, era uma das centenas de pessoas que se manifestavam no centro da cidade coberta de neve para denunciar a brutalidade repressiva. Após os disparos, o ICE impediu a rápida assistência médica e a chegada da ambulância. Horas depois, no Hospital Hennepin, foi confirmado que Renee foi a quarta pessoa assassinada pelo ICE desde janeiro de 2025 (Foi a sexta morta a tiro neste segundo mandato de Trump, sendo que desde setembro houve 11 tiroteios por agentes de imigração dos EUA).

ICE: uma máquina militar para reprimir e assassinar

O assassinato de Renee não é um fato isolado. Minneapolis foi invadida por agentes do  Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos com o único objetivo de sequestrar, deter e deportar massivamente e ilegalmente – e em plena luz do dia – os migrantes sob a denominada e fascista “Operação Metro Surge” (nome dada a operação em curso do ICE de prender imigrantes ‘ilegais’ e deportá-los. Iniciada em dezembro de 2025, ela teve como alvo inicial as cidades de Minneapolis e Saint Paul, expandindo posteriormente para todo o estado de Minnesota. O Departamento de Segurança Interna chamou-a de “a maior operação de fiscalização da imigração já realizada“).

O ICE foi transformada por Trump numa polícia com superpoderes e sem controlo, cujos agentes não podem ser processados, que atuam de forma paralela e com o rosto coberto, apesar das restrições em vários estados, e executam as suas ações de forma preventiva e de inteligência, sem ordem judicial. Assim, foi utilizada para prender Mahmoud Khalil, ativista pró-palestiniano que, após ser libertado, pode ser novamente preso. O ‘Czar das fronteiras‘ Tom Homan, assessor do Departamento de Segurança Interna, afirmou que “Não vamos parar. Não me interessa o que os juízes pensam. Não me interessa o que a esquerda pensa. Estamos a chegar” quando uma ordem judicial proibiu as deportações para El Salvador, em março do ano passado. O resultado dessa política tem sido registos arbitrários, prisões, sequestros, desaparecimentos, interrogatórios e detenções indefinidas e rusgas policiais em escolas, igrejas, locais de culto, armazens, lojas, bares, restaurantes e locais de trabalho de forma totalmente impune. 

A ICE conta com o apoio político de Trump e com a impunidade para matar. A 12 de setembro do ano passado, a ICE disparou e matou Silverio Villegas Gonzalez, de origem mexicana, depois de ter deixado os seus filhos numa pré-escola em Chicago. A 4 de outubro, um agente do ICE assassinou Marimar Martínez após disparar cinco vezes contra ela, enquanto ela percorria o bairro de Brigthon Park, em Chicago, para alertar sobre uma rusgas iminente (em tudo similar ao que aconteceu com a Renee Goode). Na noite de 31 de dezembro, Keith Porter Jr, afrodescendente, saiu para o quintal da sua casa e, como muitos outros, disparou para o ar com a sua arma para receber o ano de 2026. Minutos depois, foi baleado por um agente do ICE, fora de serviço no momento, que morava no mesmo bairro, em Northridge, Los Angeles, Califórnia. Estes e outros assassinatos ficaram impunes e os assassinos continuam em liberdade sob a proteção do Departamento de Segurança Interna. Dias após o assassinato de Renee Good em Minneapolis, a ICE agrediu um jovem, ferindo-lhe o olho, disparou contra duas pessoas nas pernas e, a 16 de janeiro, deteve violentamente Aliya Rahman, que foi retirada do seu carro quando se dirigia ao médico.

O agente Jonathan Ross, que assassinou Renee Good, foi identificado porque os seus disparos foram filmados e reproduzidos em milhões de telemóveis num assassinato televisionado. As imagens mostram claramente a ação criminosa do ICE e das forças repressivas. No entanto, Ross e o resto dos assassinos do poder estão em liberdade e protegidos pela impunidade de Donald Trump e dos seus apoiantes. A porta-voz do Departamento de Segurança Interna usou o mesmo argumento que têm usado para salvar todos os assassinos: “Renee Good usou o seu veículo como arma, tentando atropelar os nossos agentes da lei com a intenção de os matar“, para depois argumentar o uso da força em legítima defesa. A secretária do Departamento de Segurança Interna, Kristi Noem, foi mais longe e afirmou que o que Good fez foi um “ato de terrorismo doméstico“. Este é o argumento político com o qual Donald Trump defenderia posteriormente a ICE e o seu plano repressivo reacionário: “A mulher que gritava era, obviamente, uma agitadora profissional, (…) que então, de forma violenta, deliberada e cruel, atropelou o agente do ICE, que parece ter atirado nela em legítima defesa. (…) a razãod pela qual esses incidentes estão a acontecer é porque a esquerda radical está a ameaçar, agredir e atacar os nossos agentes da lei e agentes do ICE diariamente“.

O fortalecimento do ICE como parte central da política repressiva e anti-imigração ficou demonstrado no seu crescente financiamento e no número de detenções. O último relatório do Conselho Americano de Imigração demonstra que, com a “Grande e Bela Lei” (‘One Big Beautiful Bill‘), Donald Trump e o Congresso aprovaram um aumento extraordinário para o orçamento repressivo. O ICE conta com um orçamento de 45 mil milhões de dólares (15 mil milhões anuais), destinado às detenções migratórias, superando os 9 mil milhões de dólares destinados a todo o Gabinete Federal de Prisões. Quando Trump assumiu o seu segundo mandato, havia 45.000 pessoas detidas em centros de detenção de imigrantes. Em dezembro de 2025, o número cresceu 75%, elevando o número de pessoas encarceradas para 66.000. O número de detenções cresceu 600% em geral e o número de pessoas detidas pela ICE sem antecedentes criminais cresceu 2450% .

O aumento das detenções, a prolongamento do tempo de prisão, a diminuição da libertação dos detidos e as péssimas condições prisionais nos centros de detenção provocaram a morte de 4 pessoas detidas apenas nos primeiros 10 dias de 2026. Enquanto isso, sabe-se que 32 pessoas morreram nas prisões sob custódia do ICE e de Trump durante 2025, o ano mais mortal em décadas, aproximando-se de 2004, quando os centros de detenção ficaram lotados de migrantes árabes e muçulmanos sob o governo Bush Jr, após a queda das Torres Gémeas em 2001. No passado dia 16 de janeiro, foi divulgado que Geraldo Lunas Campos, um migrante cubano de 55 anos, preso em julho do ano passado, foi declarado morto no dia 3 de janeiro enquanto estava detido no Campo East Montana, um extenso acampamento de tendas improvisadas na base militar de Fort Bliss, em El Paso, Texas.

A polarização social e a crise política

O crescente autoritarismo de Trump está a tensionar ao máximo as relações políticas do regime democrático burguês dos Estados Unidos, da mesma forma que tensiona as relações políticas estabelecidas a nível internacional com os acordos pós-Segunda Guerra Mundial. O ultradireitista Trump busca sustentar e potencializar seu papel de ‘policia mundial‘ para reverter sua crise de dominação imperialista; e, dentro dos Estados Unidos, essa política traduz-se num crescente ajuste contra o povo trabalhador empobrecido e um crescente ataque às liberdades democráticas para aplicar o bastão com a maior impunidade possível.

A invasão federal em Minneapolis não tem precedentes. Cerca de 3.000 agentes do ICE chegaram à cidade, o que supera o número de agentes dos 10 maiores departamentos de polícia metropolitana das “Cidades Gêmeas” (Minneapolis e Saint Paul). Isso provocou fortes tensões com prefeitos e governadores democratas. A Califórnia aprovou a proibição de que os agentes atuem mascarados. Outros procuram limitar as buscas sem mandado judicial; no entanto, nada disso foi cumprido até ao momento, e até se viu a polícia local de Saint Paul a colaborar com o ICE, escoltando os seus agentes.

O presidente da câmara de Minneapolis, Jacob Frey, exigiu a retirada do ICE, sentenciando que “Saiam de Minneapolis (…). Não vos queremos aqui” (“Get the f**k out of Minneapolis“). O governador de Minnesota e ex-candidato a vice-presidente de Kamala Harris e do Partido Democrata, Tim Walz, classificou o ICE como “a Gestapo moderna” e a sua intervenção como uma “guerra“, afirmando que está preparado para chamar a Guarda Nacional de Minnesota para expulsar o ICE. O Partido Democrata, pressionado pelas crescentes mobilizações, procura recuperar posições da ordem imperialista que Donald Trump está a enterrar.

A nível judicial, seis procuradores federais de Minneapolis demitiram-se sob pressão do Departamento de Justiça para investigar a esposa de Renee Good, Becca Good, e cinco procuradores de alto escalão de Washington demitiram-se em protesto contra a decisão do Departamento de Justiça de não investigar o agente Jonathan Ross.

As rusgas de Trump podem encontrar simpatia no setor mais radicalizado da extrema direita MAGA (Make America Great Again – Tornar a America Grande Novamente), que celebra o assassinato e a prisão de migrantes, particularmente nos estados do sul. Mas as últimas pesquisas publicadas mostram que 57% rejeitam as táticas repressivas do ICE e que 72% da população temiam que os EUA venham a envolver-se excessivamente na Venezuela como resultado do ataque e invasão de Trump na Venezuela.

A mobilização cresce e a greve geral se prepara em Minneapolis

Apesar da crescente repressão e perseguição e da ameaça de Trump de aplicar a “Lei da Insurreição” de 1807, o movimento de massas de Minneapolis respondeu heroicamente com grandes mobilizações sistemáticas e diversas manifestações de solidariedade com a comunidade migrante e se prepara para uma ‘greve geral‘ na cidade, no próximo dia 23 de janeiro.

Retomando as lições aprendidas com as rusgas policiais que Trump realizou em Los Angeles em julho passado, ou a militarização de Washington em agosto e as mobilizações ‘No Kings‘ (‘Não Há Reis‘) de 14 de junho, as organizações de Minneapolis e cidades vizinhas enfrentaram a repressão. No sábado, 10 de janeiro, mais de 10.000 pessoas se mobilizaram. Mais uma vez, a fúria e a organização popular não demoraram a manifestar-se em defesa da população migrante. A organização popular cresceu. Centenas de pessoas organizaram patrulhas para antecipar a chegada do ICE, criaram sistemas de proteção e alarmes, além de abrigo e assessoria jurídica. A renomada pizzaria ‘Wrecktangle Pizza Place‘, no bairro LynLake de Minneapolis, arrecadou mais de US$ 83.000 online para fornecer alimentos aos imigrantes que não podem trabalhar devido às rusgas policiais; o ICE tentou uma invasão, mas a resistência solidária expulsou os agentes. 

Os sindicatos começam a despertar. Talvez recuperando a histórica greve dos Teammasters que, em 1934, abalou Minneapolis com um movimento operário vigoroso e renovado e os seus líderes combativos e revolucionários. Várias organizações convocam um dia de “sem trabalho, sem escola, sem compras“, uma especie de ‘greve geral‘ a 23 de janeiro; Os principais sindicatos de Minnesota apoiam a convocatória, incluindo o Sindicato Agrupado dos Transportes (ATU) Local 1005, o Sindicato Internacional dos Empregados de Serviços (SEIU) Local 26, o UNITE HERE Local 17, o Trabalhadores das Comunicações da América (CWA) Local 7250 e a Federação de Educadores de St. Paul Local 28. Apesar da convocatória urgente e de outras lutas importantes em curso, como a greve do Sindicato das Enfermeiras de Nova Iorque (NYSNA), que reúne mais de 15.000 trabalhadoras e trabalhadores, a central sindical Federação Americana do Trabalho e Congresso de Organizações Industriais (AFL-CIO) e outros sindicatos nacionais importantes não convocaram nenhuma medida centralizada.

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