O povo do Irão exige uma mudança de regime

14 de Janeiro, 2026
3 mins leitura

Por Sarina Esmailzadehda Luta Internacionalista (LI), secção da UIT-QI no Estado Espanhol

Os protestos que eclodiram em dezembro e estão a intensificar-se representam um ponto de inflexão na história do Irão. Trata-se de uma insurreição nascida da convergência de três fatores catastróficos: as consequências humilhantes da ‘Guerra dos 12 Dias‘ com Israel, em junho de 2025, que destruiu a infraestrutura nuclear e o mito da segurança do regime; o colapso absoluto da moeda nacional, com o rial atingindo o valor mínimo de 1.46 milhões por dólar; e a apresentação do orçamento de austeridade do governo de Masoud Pezeshkian, que elimina subsídios vitais. A faísca visível foi econômica — preços, salários, rendas de casa, acesso a medicamentos —, mas o horizonte é político: o direito de viver com liberdade, pão e dignidade.

Três anos após o movimento ‘Mulher, Vida, Liberdade‘, a geografia da resistência ultrapassou as forças de segurança. Enquanto o Grande Bazar de Teerão — o histórico coração económico do país — iniciava uma greve por tempo indeterminado, a periferia do país entrava numa fase insurreccional. Na cidade de Abdanan, os manifestantes conseguiram fazer recuar a polícia, assaltaram a governação e tomaram o controlo das ruas com barricadas. Em Lordegan e Zagros, onde predomina o povo luri, ocorreram confrontos armados com as forças do regime.

Pelo menos 46 mortos foram confirmados na repressão. As forças especiais do regime atacaram o hospital Imã Khomeini, em Ilam, e o hospital Sina, em Teerão, com gás lacrimogéneo para deter os manifestantes feridos que se refugiaram lá. Como de costume, o regime tenta censurar a expressão da mobilização popular através de cortes massivos na internet.

Curdos e baluchis na vanguarda

A propaganda do regime, que durante décadas ameaçou que sem a República Islâmica o Irão se fragmentaria como a Síria, foi desmentida pela realidade das ruas. Numa ação histórica, o Centro de Cooperação dos Partidos do Curdistão Iraniano (uma coligação de sete partidos principais, entre eles o KDPI e o Komala) convocou uma greve geral a 8 de janeiro de 2026. O ponto-chave não foi a reivindicação étnica, mas a solidariedade nacional: a greve foi convocada explicitamente em apoio aos “protestos nacionais” e aos irmãos de Lorestã e Ilam. O sucesso massivo da greve em cidades como Sanandaj e Mahabad demonstrou que o Curdistão atua como o coração democrático de um movimento de alcance iraniano. Os turcos do Irão e os árabes de Juzestão também saíram às ruas, e os baluchis – que tiveram um papel de destaque no movimento ‘Mulher, Vida, Liberdade‘ – juntaram-se aos protestos com uma presença massiva de mulheres.

Porquê «Javid Shah»?

Em muitos protestos ouve-se o grito “Javid Shah” (‘Viva o Rei‘), em referência a Reza Pahlavi, filho do xá da Pérsia deposto na revolução de 1979, que agora se candidata a partir dos Estados Unidos para tentar capitalizar a mobilização popular. Este slogan não deve ser visto apenas como uma nostalgia do passado, mas como uma rejeição consciente e total às alternativas ‘reformistas‘ dentro do sistema islâmico, tanto na figura do ex-presidente Hassan Rouhani como na de Mostafá Tajzadeh, que foi ministro do Interior do governo de Mohammad Jatamí antes de ser preso e que agora vive em França.

Pahlavi ganhou peso graças às ameaças de Donald Trump, que declarou estar “pronto para agir” (“Locked and Loaded“) caso o regime matasse manifestantes, e ao facto de a captura de Maduro ter gerado medo na cúpula do regime. Reza Pahlavi rejeitou explicitamente a intervenção militar estrangeira e apresentou o seu plano para uma transição controlada. Sabemos que esta não é a alternativa democrática de que os jovens e os trabalhadores do Irão precisam para alcançar o objetivo de justiça social e liberdades pelo qual lutam há tanto tempo.

Este fenómeno também põe em evidência tensões dentro do movimento. Setores republicanos, de esquerda ou liberais temem que a nostalgia monárquica desvie os debates centrais sobre democracia, direitos humanos e justiça social. Mas esses debates não podem impedir a solidariedade internacional, que deve partir da denúncia da repressão, da rejeição de qualquer intervenção militar estrangeira e da defesa do direito dos povos do Irão de decidir o seu futuro.

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