Não a um acordo com Trump para aprofundar a entrega do petróleo e dos nossos recursos!

12 de Janeiro, 2026
6 mins leitura

Pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSL), secção da UIT-QI na Venezuela

No passado dia 3 de janeiro, o governo do ultradireitista Donald Trump executou um ataque criminoso contra o nosso país. Como resultado da operação militar, Nicolás Maduro e a sua esposa, Cilia Flores, foram sequestrados, facto que repudiamos. Naquele dia, ocorreu um verdadeiro massacre. Mais de 100 mortos, entre eles alguns civis, e um número semelhante de feridos, embora os números possam aumentar nos próximos dias. A ação criminosa do imperialismo norte-americano vinha sendo incentivada e promovida há meses por María Corina Machado e outros representantes da oposição patronal venezuelana.

Com as suas primeiras declarações após a invasão da Venezuela, ficou claro que Trump só está interessado no petróleo e nos outros recursos do país. O enorme destacamento naval e os bombardeamentos no Mar das Caraíbas e no Oceano Pacífico nunca foram realmente por causa do narcotráfico. Os Estados Unidos não estão interessados nas liberdades democráticas, nem na liberdade dos presos políticos, nem nos salários e nas condições de vida do povo venezuelano.

Este ataque é a expressão de uma contraofensiva global desencadeada por Trump, que tenta reverter a crise económica e de domínio hegemónico dos Estados Unidos, no contexto da crise global do capitalismo imperialista. O ultradireitista Trump pretende “tornar a América grande novamente”, como afirmou no seu discurso de tomada de posse em janeiro do ano passado, o que até agora não conseguiu concretizar.

Após a intervenção militar na Venezuela, Trump disse que poderia haver um segundo ataque ao nosso país, se o governo venezuelano, liderado pela presidente interina Delcy Rodríguez, não acatasse as suas exigências. Ele disse que agora controlava o país e que iria dirigir o comércio do seu petróleo. Simultaneamente, também ameaçou Cuba, Colômbia, México e Groenlândia.

O Partido Socialismo e Liberdade (PSL) rejeita o plano dos Estados Unidos de recolonizar o nosso país e controlar a exploração e comercialização do petróleo, no âmbito do ressurgimento da Doutrina Monroe e do seu Corolário Trump. Na sexta-feira passada, foi vergonhoso ver os principais CEOs das multinacionais petrolíferas reunidos com Trump na Casa Branca, definindo o destino do nosso petróleo.

Alertamos para o perigo de um pacto entre Trump e o governo venezuelano

Não temos nenhuma confiança no atual governo presidido por Delcy Rodríguez, assim como não tínhamos antes com Maduro ou Chávez, e o que estamos a assistir de momento são sinais claros de que o atual governo chavista está disposto a acatar as exigências de Trump. Pouco depois de Trump anunciar que a Venezuela lhe entregaria entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo, a PDVSA tornou público que está em negociações com os Estados Unidos para vender-lhe “volumes de petróleo”, algo que estaria em consonância com o afirmado por Trump. Por outro lado, já estão a ser dados passos para o restabelecimento das relações diplomáticas com os Estados Unidos, quando o que seria adequado seria romper todas as relações com os EUA e afetar os seus interesses na Venezuela. Apenas seis dias após o brutal ataque dos Estados Unidos, uma delegação de funcionários norte-americanos chegou ao país e se dirigiu à embaixada na capital venezuelana. Chegou-se a saber que existe a possibilidade de Delcy Rodríguez se reunir com Trump.

O que está em jogo agora, diante do perigo de um pacto do governo com Trump, é um maior controle e domínio dos Estados Unidos sobre o petróleo venezuelano. Nas palavras do próprio Trump, o plano é aumentar a produção para que o preço do petróleo no mercado caia, um preço que já estava em queda. Rejeitamos qualquer pacto com Trump, e devemos ser categóricos: se houver um pacto com o imperialismo, haverá mais miséria e espoliação dos nossos recursos e nenhum benefício para o povo trabalhador.

Ninguém pode ter expectativas positivas com esta agressão imperialista e com os planos de dominação colonial sobre a Venezuela. Há uma longa história de intervenções militares dos Estados Unidos no nosso continente e noutras regiões, que só deixaram um rasto de mortos, destruição e maior submissão ao imperialismo e às suas grandes empresas. Não haverá benefícios nem melhores salários com os Estados Unidos e as suas multinacionais, pois para estas, pouco importam as necessidades do povo trabalhador. Não são Trump, um ultradireitista, nem as empresas petrolíferas multinacionais que vão resolver os nossos problemas; pelo contrário, viriam aprofundar a exploração e a destruição dos nossos bens comuns naturais. Só com a nossa organização paciente, a nossa luta e mobilização em cada local de trabalho, de estudo e nas comunidades poderemos recuperar os nossos direitos e dar resposta às nossas principais reivindicações.

O chavismo sempre fez acordos com as multinacionais

É importante lembrar que as empresas multinacionais nunca saíram da Venezuela. Em 2007, Chávez associou as multinacionais petrolíferas à PDVSA por meio da figura das empresas mistas. Nesse acordo entraram a Chevron, a Repsol, a Shell, a Total, a China National Petroleum e a Petrobras, e mais tarde entrariam no esquema a Mitsubishi, a Lukoil, a Gazprom e a Rosneft. As únicas empresas que não entraram no acordo de empresas mistas foram a Exxon Mobil e a Conoco Phillips, porque decidiram sair. Em 2010, Chávez concedeu às multinacionais vários blocos da Faixa Petrolífera do Orinoco, a maior reserva de petróleo bruto do mundo, aprofundando assim a entrega do nosso petróleo.

Os acordos foram concretizados noutros setores económicos, como alimentação, telecomunicações e bancário, incluindo empresas como Nestlé, Coca Cola, Movistar, DHL, Citibank e grandes empresários nacionais, como o Grupo Cisneros.

Entre 1999 e 2014, a Venezuela recebeu mais de 960 mil milhões de dólares por exportações de petróleo. Muito pouco dessa grande quantidade de recursos chegou aos trabalhadores e aos setores populares. Apenas algumas políticas assistencialistas e as Missões, que com o tempo foram se diluindo. A maior parte desse dinheiro foi para negócios obscuros e corrupção, para a compra de armas e contratos com grandes multinacionais. (Tudo isso foi abordado num livro que publicámos em 2018 intitulado “Por que fracassou o chavismo? Um balanço da oposição de esquerda”, que pode ser consultado no site: https://nahuelmoreno.org/por-que-fracaso-el-chavismo-2018/)

O PSL e a nossa corrente socialista revolucionária liderada por Orlando Chirino e José Bodas, protagonistas da luta contra o golpe de Estado e a greve patronal contra o presidente Chávez em 2002, sempre se opuseram a essa política e lutaram por um petróleo 100% estatal sob gestão e controlo operário, e deram a luta por uma verdadeira saída socialista e um governo dos trabalhadores e do povo.

Esta exigência manteve-se com Maduro, que sempre concordou em fazer acordos com os Estados Unidos e as suas multinacionais. De facto, em mais de uma ocasião, dirigiu-se ao governo norte-americano e até a investidores de outras partes do mundo, oferecendo-lhes as nossas riquezas petrolíferas.

Em junho de 2024, Nicolás Maduro convidou empresários estrangeiros a investir no setor petrolífero. Naquela ocasião, ele disse: «Os investidores dos Estados Unidos, da Ásia, da África, de toda a América Latina e do Caribe, de todo o mundo, devem saber que a Venezuela é um lugar de oportunidades e que os investimentos têm garantia de crescimento e oferecem garantias e segurança energética ao mercado internacional.

(https://noticiasvenevision.com/noticias/economia/presidente-nicolas-maduro-invito-a-empresarios-extranjeros-a-invertir-en-sector-petrolero-de-venezuela)

Apelamos à rejeição de qualquer pacto com o imperialismo norte-americano

É preciso mobilizar-se por um aumento salarial e pensões de emergência, igual ao custo da cesta básica. Chega de ajustes para o povo trabalhador! Chega de bónus salariais! Que se discutam os acordos coletivos; pelo direito à greve e à liberdade sindical; pela liberdade total dos presos políticos, incluindo aqueles que já foram libertados, liberdade para as pessoas detidas no âmbito dos protestos contra a fraude eleitoral em julho de 2024. Que se acelere a libertação dos presos anunciada por Jorge Rodríguez. Exigimos especialmente a libertação dos trabalhadores detidos por lutar, por denunciar a corrupção ou por razões políticas, como é o caso de mais de 120 trabalhadores petroleiros que permanecem detidos, e que sejam reintegrados nos seus cargos. Reintegração imediata dos despedidos com pagamento dos salários atrasados. Que cesse a repressão e a perseguição. Revogação imediata do decreto de estado de emergência! Que sejam reabertos os meios de comunicação que foram fechados. Plenos direitos políticos para o povo trabalhador. Que os partidos políticos de esquerda e democráticos sejam legalizados. Exigimos petróleo 100% estatal, sem empresas mistas ou multinacionais; impostos progressivos para todas as empresas multinacionais e grandes empresas nacionais, e que todo esse dinheiro seja destinado a aumentos salariais, saúde, educação e produção de alimentos e medicamentos.

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