Petróleo, silêncio e servidão: o império manda, Meloni obedece

7 de Janeiro, 2026
4 mins leitura

Pelo Movimento da Liga Revolucionária Marxista (M-LMR), secção da UIT-QI na Itália

Há um fio preto – e viscoso como o petróleo – que liga a enésima ação dos Estados Unidos contra a Venezuela, à aquiescência embaraçada (quando não entusiasmada) do governo Meloni, e o silêncio seletivo das grandes instituições internacionais. Um fio chamado imperialismo, que hoje volta a mostrar-se sem sequer tentar disfarçar-se atrás da retórica dos “direitos humanos” ou da “democracia exportada“.

A ação desejada por Donald Trump contra o presidente venezuelano Nicolás Maduro não é mais do que o último capítulo de uma longa guerra não declarada contra um país culpado de uma falta imperdoável: possuir enormes reservas de petróleo e não as entregar docilmente ao capital norte-americano. A Venezuela paga o preço de ter ousado subtrair-se, pelo menos em parte, ao comando do capital transnacional e das suas instituições financeiras. Longe de ser uma questão de liberdade ou do povo venezuelano: aqui se trata de barris, rendimentos e controlo de recursos estratégicos. Marx explicava isso com brutal clareza: quando o lucro chama, o capital não conhece lei. E, de facto, o direito internacional é pisoteado com a mesma desenvoltura com que se assina uma ordem executiva.

Sanções ilegais, ameaças, chantagens diplomáticas, desestabilização económica: o manual do imperialismo é sempre o mesmo. Mudam os alvos, não a lógica. A Venezuela é apenas um dos muitos palcos em que o império tenta reafirmar uma supremacia em crise, descarregando os custos da sua decadência sobre os povos do Sul global. E enquanto Washington age, as chamadas ‘comunidades internacionais‘ permanecem em silêncio. A NATO, braço armado do Ocidente, olha para outro lado. A ONU, paralisada pelas relações de força reais, refugia-se em comunicados vagos e inúteis. A União Europeia, cada vez mais um condomínio de interesses atlânticos, limita-se a seguir a linha ditada pelos Estados Unidos. O silêncio não é neutro: é cumplicidade estrutural.

O quadro amplia-se se olharmos para as últimas ações do governo Trump no mundo: Irão – estrangulado por sanções que afetam a população, Iémen – devastado por uma guerra sustentada e armada pelos Estados Unidos, Síria – desmembrada, bombardeada, ocupada, Palestina – atormentada por décadas de colonialismo, hoje vítima de um genocídio conduzido pelo governo israelita com o total apoio político e militar de Washington, Nigéria – terreno de interferências e militarização, Venezuela – sitiada por ser “errada” geopoliticamente. Estados soberanos tratados como colónias informais, peões sacrificáveis no tabuleiro do capital global.

Particularmente ignóbil é o apoio do governo Trump ao massacre sistemático da população palestiniana. Aqui, a hipocrisia ocidental atinge níveis grotescos: fala-se de “valores“, de “civilização“, enquanto se justifica o aniquilamento de um povo inteiro. O genocídio torna-se “defesa“, e a ocupação torna-se “segurança“. É a linguagem do opressor, interiorizada e repetida pelos seus vassalos.

Entre esses vassalos destaca-se o governo Meloni, herdeiro de uma tradição pós-fascista nunca realmente renegada, que se coloca, sem hesitação, do lado do senhor. Nenhuma voz crítica, nenhuma defesa do multilateralismo, nenhuma autonomia. Apenas obediência. É o paradoxo grotesco de uma direita que grita “Deus, pátria e família” e depois se ajoelha diante da embaixada dos Estados Unidos. Soberanistas com o chapéu na mão.

A presidente do Conselho e os seus ministros gostam de se definir como defensores da italianidade, da soberania nacional e do orgulho patriótico. Mas, quando Washington estala os dedos, eles ficam em posição de sentido. Do ponto de vista marxista, tudo isso não é surpreendente. O Estado, como nos ensina a crítica da economia política, não é um árbitro neutro, mas o comitê de negócios da burguesia. Num país capitalista dependente como a Itália, esse comité responde aos interesses do capital dominante internacional, hoje em grande parte norte-americano. Meloni não trai a Itália: trai apenas a retórica que usa para governar. Na realidade, é perfeitamente coerente com o papel que lhe foi atribuído no sistema capitalista mundial.

Enquanto se invoca o orgulho nacional, aceitam-se bases militares estrangeiras no território, aumentam-se as despesas com a defesa de acordo com os ditames da NATO, fecham-se os olhos perante as guerras imperialistas. Tudo isto temperado com uma linguagem securitária e identitária que serve para distrair as classes subalternas do verdadeiro conflito: o que existe entre o capital e o trabalho, entre exploradores e explorados, entre o centro e a periferia do mundo.

Mas a Venezuela não é um caso isolado, e o horizonte do imperialismo trumpiano está a alargar-se. As ameaças ao México, tratado como quintal de casa; as pressões sobre a Colômbia; o cerco permanente a Cuba; as ambições sobre a Gronelândia, reduzida a território estratégico a ser dividido. É uma política expansionista que não reconhece fronteiras, a não ser aquelas traçadas pelos interesses do capital e do poder militar. Um imperialismo que, na sua fase senil, se torna cada vez mais agressivo.

Perante tudo isto, o silêncio do governo Meloni é ensurdecedor. Mas talvez não seja silêncio: é consenso. Um consenso servil, mascarado de realismo geopolítico. E assim, enquanto se exalta a pátria, aceita-se que a Itália continue a ser uma plataforma militar, uma engrenagem da máquina de guerra da NATO, um país sem voz própria no tabuleiro internacional.

O silêncio é cumplicidade. É necessária uma crítica radical, capaz de desmascarar a hipocrisia de quem fala de valores ocidentais enquanto bombardeia, mata de fome, ocupa. É preciso lembrar que a soberania dos povos não é uma concessão do império, mas um direito a ser defendido contra ele.

Denunciar a agressão à Venezuela significa denunciar todo o sistema que a torna possível. Significa desmascarar o imperialismo como fase necessária do capitalismo em crise. Significa rejeitar a narrativa tóxica que divide o mundo entre ‘bons‘ e ‘maus‘ consoante a sua lealdade a Washington. E significa, acima de tudo, lembrar que a verdadeira soberania não é aquela que se apregoa nos comícios, mas aquela que se conquista ao quebrar as correntes da dependência económica, política e militar.

O resto – as declarações solenes, as bandeiras agitadas, o orgulho nacional sob comando – é apenas ruído. Ou, para ser mais honesto, é o ruído das escovas que lustram os sapatos do império.

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