2025: quando a vida apertou e a contestação voltou

5 de Janeiro, 2026
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Um ano de ataques, resistência e da primeira Greve Geral em mais de uma década. Neste balanço político, analisamos os principais processos que marcaram 2025, da ofensiva do governo da AD à resposta dos trabalhadores.

Em 2025, a vida tornou-se mais difícil para a maioria de quem trabalha em Portugal. O dinheiro passou a chegar cada vez mais curto ao fim do mês, as rendas voltaram a subir, o acesso à saúde tornou-se mais incerto e os serviços públicos continuaram a degradar-se. Ao mesmo tempo, o governo insistiu em falar de “estabilidade” e “responsabilidade orçamental”, enquanto os lucros da banca atingiam novos recordes.

O ano começou com um Orçamento do Estado aprovado graças à abstenção do PS, que permitiu à AD avançar com a sua agenda sem grandes sobressaltos. O aumento do Salário Mínimo Nacional (SMN) para 870 euros foi apresentado como uma vitória, mas nunca chegou a compensar o aumento acumulado dos preços da habitação, da alimentação, da energia e dos serviços essenciais. Para muitos trabalhadores, há muito que o problema deixou de ser poupar, mas chegar ao fim do mês. 

Enquanto os salários perdiam poder de compra, o governo fez opções claras. Medidas como o IRS Jovem beneficiaram sobretudo quem já tem rendimentos médios ou altos, deixando de fora quem ganha o salário mínimo ou valores próximos. Não houve resposta estrutural à crise salarial nem à especulação imobiliária. Pelo contrário, confirmava-se uma política orientada para proteger quem tem mais, num país onde trabalhar não chega para viver. O novo aumento do SMN para 920 euros também não será suficiente para contrariar esta realidade.

Com a contestação social a crescer neste segundo mandato, o governo não mudou de rumo, ainda confiante na certa pacificação social que conseguiu dando migalhas estratégicas durante o seu primeiro mandato, de apenas um ano. Pelo contrário,  o governo decidiu aproveitar o cansaço com sucessivas eleições, a falta de alternativa na oposição e o momento de mudança de Presidente da República para avançar com o anteprojeto “Trabalho XXI”, o pacote laboral que aponta para horários mais flexíveis, maior facilidade nos despedimentos e enfraquecimento de direitos, tudo apresentado como incentivo à “produtividade”.

Na prática, a atuação do governo significou mais pressão sobre quem trabalha e mais margem para as empresas. À medida que as greves se multiplicavam em vários setores, o discurso endureceu. O governo passou a falar em “excessos”, “motivações políticas” e em “impactos económicos”, preparando o terreno para limitar o direito à greve e tentar virar a opinião pública contra quem luta por melhores condições.

2025 deixou claro que a AD não governa para resolver os problemas estruturais do país. Governa para garantir a continuidade de um modelo que beneficia grandes empresas e banca, mesmo que isso signifique agravar a vida da maioria da população.

Rendas a subir, urgências a fechar, serviços a cair

A crise social de 2025 não foi abstrata. Sentiu-se em casa, no trabalho e no acesso a direitos básicos.

Na habitação, milhares de famílias enfrentaram novas atualizações de rendas num contexto em que os preços já eram incomportáveis. Sem mecanismos eficazes de controlo da especulação ou limitação das rendas, o governo manteve políticas que protegem senhorios, fundos imobiliários e grandes proprietários. O resultado foi o aumento do sobreendividamento, da partilha forçada de casas e do afastamento de trabalhadores dos centros urbanos.

No Serviço Nacional de Saúde, o cenário repetiu-se ao longo do ano. O encerramento frequente de urgências de obstetrícia e pediatria deixou populações inteiras sem resposta em momentos críticos, levando a situações extremas, como partos realizados em ambulâncias a caminho de hospitais distantes. Faltaram profissionais, acumularam-se horas extraordinárias e o desgaste tornou-se regra. Em vez de investir de forma estrutural, o governo insistiu em soluções temporárias e em modelos de gestão que abrem caminho à privatização.

A degradação estendeu-se a outros serviços públicos essenciais. Na educação, o início do ano letivo voltou a ser marcado pela falta de professores, pelo envelhecimento do corpo docente e pela precariedade de muitos trabalhadores não docentes, comprometendo o funcionamento regular das escolas. Nos tribunais, a escassez de oficiais de justiça provocou paralisações e atrasos significativos, expondo anos de desinvestimento e promessas por cumprir. Nos transportes, foram várias as greves que procuraram tornar visível uma realidade comum a vários outros setores: salários baixos, horários desregulados e uma pressão constante sobre quem trabalha para manter serviços a funcionar.

O apagão energético tornou esta fragilidade ainda mais evidente. Durante horas, milhares de pessoas ficaram sem eletricidade, com impactos diretos na vida quotidiana, nos transportes, nas comunicações e até no funcionamento de serviços de saúde. Longe de ser um episódio excecional ou meramente técnico, o apagão expôs as consequências de décadas de liberalização do setor energético, de desinvestimento na rede pública e de subordinação de um serviço essencial à lógica do mercado.

Estas situações têm uma raiz comum: escolhas políticas que tratam direitos essenciais como negócios e sacrificam serviços públicos em nome das “contas certas”, enquanto milhões continuam a ser canalizados para benefícios fiscais, apoios às empresas e pagamento de juros à banca.

O poder em crise, cada vez mais longe do país real

A crise social que marcou 2025 teve um reflexo direto no plano político. Em vez da “estabilidade” prometida, o ano foi atravessado por crises institucionais, escândalos e recomposições parlamentares que expuseram a fragilidade do regime e a sua incapacidade de responder às necessidades da maioria da população.

A queda do governo de Luís Montenegro, em março, não resultou de uma rutura política profunda, mas da fragilidade de um executivo sem maioria absoluta, incapaz de reverter o agravamento das condições de vida e abalado por suspeitas graves de conflito de interesses. O aumento do custo de vida, o colapso dos serviços públicos e a crescente contestação social tornaram insustentável a narrativa da “normalidade” que o governo procurava manter.

O caso da Spinumviva, empresa imobiliária ligada à família do primeiro-ministro e cruzada com alterações à lei dos solos promovidas pelo próprio executivo, tornou-se mais um símbolo visível dessa promiscuidade entre poder político e interesses privados. Ainda assim, como tantas outras vezes, a crise foi gerida nos bastidores institucionais, sem esclarecimentos sérios nem verdadeira prestação de contas perante a população. Note-se que o caso acabou por não ter qualquer desfecho substantivo, confirmando a regra da impunidade quando os interesses do poder estão em causa.

Neste contexto, as eleições legislativas de maio confirmaram o impasse político. A AD voltou a vencer, mas sem maioria absoluta; o PS aprofundou a sua crise política e eleitoral, culminando na demissão da sua liderança; e a esquerda parlamentar sofreu uma derrota significativa; mantém-se um quadro político frágil, reciclado e incapaz de dar resposta aos problemas estruturais do país, com um governo consciente de que, para já, se consegue manter em funções, mas que não pode dar como garantido que chegará ao final da legislatura.

A extrema-direita cresce à sombra da crise do regime

O dado político mais marcante deste processo foi o crescimento da extrema-direita. O Chega afirmou-se como principal força da oposição, beneficiando do desgaste do regime, da frustração social acumulada e da incapacidade das forças reformistas em apresentar uma alternativa credível para quem vive do trabalho.

Este crescimento não representou uma rutura com o sistema. Pelo contrário, a extrema-direita consolidou-se como uma força plenamente integrada no jogo institucional, disponível para sustentar políticas reacionárias e ataques a direitos sempre que isso seja necessário para garantir a continuidade do modelo económico e social dominante. O debate político foi sendo empurrado para a direita, normalizando discursos securitários, racistas e profundamente antissociais.

Um dos principais alvos desta ofensiva foi a população imigrante. Ao longo do ano, a nova legislação restringiu direitos, fragilizou o reagrupamento familiar e aumentou a insegurança jurídica de milhares de trabalhadores. Apesar de várias normas terem sido consideradas inconstitucionais, o governo insistiu na mesma orientação, reforçando uma narrativa que associa imigração a “desordem” e “ameaça”.

Este discurso securitário não se ficou pela imigração. Preparou também o terreno para ataques mais amplos aos direitos democráticos, incluindo o direito à greve e à luta coletiva, apresentados como entraves à “estabilidade” e ao “funcionamento da economia”. Em 2025, tornou-se claro que dividir a classe trabalhadora é parte central desta estratégia. Ao fragilizar uns, cria-se o pretexto para rebaixar direitos e salários de todos.

Muita luta, pouca força coletiva

Se no plano institucional 2025 foi marcado pela instabilidade e pela degradação do regime, no plano social foi um ano de intensa combatividade da classe trabalhadora. Ao longo de praticamente todo o ano, multiplicaram-se greves, protestos e paralisações em setores estratégicos, mostrando que a disposição para lutar não só existe como se aprofundou à medida que se agravavam as condições de vida e de trabalho.

Na saúde, na educação, na justiça, nos transportes e na logística, os trabalhadores responderam ao desgaste acumulado com ações de luta persistentes. Enfermeiros, técnicos de diagnóstico, professores, trabalhadores não docentes, oficiais de justiça e trabalhadores dos aeroportos estiveram na linha da frente de greves e protestos contra salários baixos, falta de pessoal, precariedade e degradação dos serviços.

As greves dos trabalhadores da SPdH/Menzies, com forte impacto nos aeroportos, tornaram visível a importância estratégica de setores frequentemente invisibilizados e explorados. Mostraram também como conflitos localizados podem ter impacto nacional quando tocam pontos centrais do funcionamento da economia.

Esta combatividade, no entanto, desenvolveu-se de forma fragmentada. Greves parciais, separadas por setores, empresas ou distritos, tornaram-se a regra. Num dia paravam os enfermeiros, noutro os técnicos, noutro ainda os professores ou os trabalhadores dos transportes. Em muitos casos, a luta foi mantida deliberadamente em “lume brando”, com calendários espaçados e sem qualquer tentativa séria de coordenação à escala nacional.

O resultado foi um grande desgaste das bases, sem a força coletiva necessária para impor recuos significativos ao governo ou às patronais. A luta existiu, mas raramente foi colocada em movimento de forma unificada.

Este bloqueio não foi um acaso. Desde o início do ano, as direções da CGTP e da UGT optaram por uma estratégia de contenção, apostando na concertação social, em reuniões de gabinete e numa lógica de “esperar para ver”. Mesmo perante o Orçamento do Estado, a queda do governo ou o anúncio de reformas laborais, evitaram assumir a necessidade de uma resposta nacional à altura dos ataques em curso.

Ainda assim, 2025 deixou uma marca importante. A persistência das greves e a adesão significativa em vários setores mostraram que, apesar do controlo imposto de cima, crescia nas bases a consciência de que os problemas não eram isolados e exigiam respostas comuns. Foi essa contradição — muita disposição para lutar, pouca unidade à escala necessária — que atravessou todo o ano e preparou o terreno para um salto na luta.

Da dispersão à Greve Geral

Os últimos meses de 2025 marcaram um salto qualitativo na luta social. Depois de um ano inteiro de greves dispersas, protestos sectoriais e desgaste acumulado, tornou-se cada vez mais evidente que os ataques do governo da AD não podiam ser enfrentados de forma isolada. A acumulação de conflitos acabou por criar as condições para uma resposta à escala nacional.

Em novembro, esse clima tornou-se impossível de ignorar. Em vários setores, cresceu a pressão de baixo para cima para uma resposta unificada contra as reformas laborais anunciadas, o agravamento do custo de vida e os ataques aos direitos democráticos. A manifestação de 8 de novembro, que juntou dezenas de milhares de trabalhadores e ativistas em Lisboa, expressou de forma clara essa exigência: aumentos salariais, defesa dos direitos e travão à ofensiva neoliberal do governo.

Perante este cenário, as direções sindicais foram obrigadas a reconhecer o novo equilíbrio de forças. Ainda tentando manter o controlo do processo e limitar o alcance da mobilização, acabaram por convocar uma Greve Geral para 11 de dezembro. A decisão não resultou de uma viragem estratégica das direções, mas da pressão acumulada nas bases e da impossibilidade de continuar a conter a luta apenas com ações simbólicas ou sectoriais.

A Greve Geral de 11 de dezembro de 2025 foi um momento histórico. Pela primeira vez em mais de uma década, trabalhadores de transportes, serviços públicos, escolas, saúde, indústria e outros setores estratégicos paralisaram em simultâneo, afetando de forma visível a normalidade económica e social do país.

Apesar das tentativas do governo e das entidades patronais para desvalorizar o seu impacto, a paralisação de serviços, o aumento dos tempos de espera e a interrupção de cadeias logísticas tornaram impossível negar a dimensão da mobilização. A Greve Geral rompeu o isolamento das lutas e mostrou, na prática, a força da ação coletiva.

A Greve Geral não resolveu, por si só, os problemas acumulados nem fez o governo recuar de imediato. Mas marcou uma mudança importante. Elevou o patamar da resposta social, reforçou a confiança coletiva e mostrou que existe um caminho alternativo à passividade, à negociação permanente em gabinete e às ilusões de que o Parlamento, por si só, dará resposta aos ataques em curso.

O desafio que se coloca para o período seguinte é transformar esta força num processo continuado. Isso exige coordenação das lutas, unidade entre setores e uma política independente dos governos e das direções que sistematicamente travam a mobilização.

2025 não terminou como começou. A disposição para lutar ficou demonstrada. O que está em aberto para 2026 é se essa força será organizada e ampliada à altura da ofensiva que aí vem, ou se será novamente dispersa e contida. É nesse terreno que se jogará o próximo capítulo.

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