Guerra civil e genocídio patrocinados por imperialismos saqueadores no Sudão

1 de Dezembro, 2025
5 mins leitura

Por Miguel Lamas, dirigente do Partido Socialismo e Liberdade (PSL), secção da UIT-QI na venezuela, e da UIT-QI

O país é palco de uma das piores catástrofes humanitárias do mundo e, mais recentemente, de assassinatos em massa e atrocidades contra civis sudaneses em El-Fasher, capital da região de Darfur.

O número de mortos nos últimos dois anos de guerra civil oscila entre 60.000 e 150.000, segundo as fontes; há mais de 13 milhões de deslocados e mais de metade da população, de 52 milhões de habitantes, está em risco de fome. Estima-se que dois terços da população precisam de assistência humanitária para sobreviver. A violência sexual como arma de guerra é generalizada e os indícios de limpeza étnica em Darfur multiplicaram-se após a queda de El-Fasher, o último bastião que restava ao exército naquela região.

O Sudão é um dos países africanos com mais riquezas naturais. Tinha uma grande quantidade de hidrocarbonetos, mas estes encontravam-se no Sudão do Sul, que se separou em 2011, sendo que agora a extração foca-se no ouro. Como toda a África, foi colonizado e saqueado pelos imperialistas da Europa, no seu caso pela Grã-Bretanha. Embora tenha declarado a sua independência em 1956, como a maioria dos países africanos naquela época, diferentes imperialismos continuaram a colonização e a pilhagem do país, com governantes e setores burgueses que serviram a um ou outro imperialismo. Durante 30 anos, de 1989 a 2019, governou o ditador Omar al-Bashir, cúmplice dos imperialismos na pilhagem do país.

Em 2011, o Sudão do Sul, com 12 milhões de habitantes, tornou-se independente, separando-se do Sudão e repudiando a ditadura de al-Bashir. O Sudão do Sul é rico em hidrocarbonetos, com uma população maioritariamente negra africana, enquanto o Sudão tem uma população maioritariamente de ascendência árabe.

Levantamento popular em 2019 e queda do ditador al-Bashir

A queda do ditador Omar al-Bashir ocorreu devido a uma grande revolta popular, com marchas de milhões a exigiram a destituição do presidente al-Bashir, entre dezembro de 2018 a abril de 2019, incluindo uma greve política nacional em maio de 2019, com barricadas erguidas pelos manifestantes que muitas vezes tomaram a cidade, apesar da violência militar.  

Quando, em dezembro de 2018, eclodiu a revolução sudanesa contra al-Bashir, al-Burhan e Hemedti eram dois pilares do regime. Naquele momento, tentaram salvar a situação com uma reformulação para que os negócios capitalistas continuassem a ser feitos. Ambos vieram a protagonizar o golpe de Estado de 11 de abril que derrubou al-Bashir, sendo que continuaram a entregar as riquezas e a agravar a crise do país até hoje.

Ambos agiram como um só homem para reprimir e acabar com a revolução sudanesa, em episódios como o massacre de Cartum, a 3 de junho de 2019, no qual mais de uma centena de manifestantes foram assassinados, ou o golpe de Estado de 25 de outubro de 2021, contestado por milhões de manifestantes nas ruas.

A nova guerra civil

Desde a queda de al-Bashir, os dois tentaram tornar-se o único homem forte do Sudão. Cada um cortejava as diferentes potências imperialistas e cada um era cortejado por elas para saquear o país.

A 15 de abril de 2023, ocorreram os primeiros confrontos da terceira guerra civil sudanesa. O gatilho foi o confronto entre os dois homens fortes do país pelo poder que partilhavam desde 2019: Abdel Fattah al-Burhan, chefe do exército sudanês (Forças Armadas do Sudão – FAS) e chefe de Estado de facto, e Muhammed Hamdan Dagalo Musa, conhecido como ‘Hemedti‘, líder da Forças de Suporte Rápido (Rapid Support Forces – RSF).

Hemediti tinha um histórico de genocídio. Durante a ditadura, entre 2003 e 2019, Hemediti comandou as milícias supremacistas árabes ‘Janjawid‘, que atuaram como tropas de choque do ditador al-Bashir contra populações negras e protagonizaram o genocídio em que morreram cerca de 400.000 pessoas.

Al Bashir recompensou Hemediti por esses massacres com concessões de minas de ouro e o promoveu a chefe da milícia paramilitar que se tornou sua guarda principal, a RSF. Enquanto prosperava no aparato do Estado, tornou-se um dos homens mais ricos do Sudão. E é aqui que entram em cena os Emirados Árabes Unidos (EAU), principal destino do ouro sudanês associado a Hemediti, que lhes exportava o ouro.

Hoje, os Emirados Árabes Unidos, muito ligados aos Estados Unidos, tornaram-se o principal fornecedor de armas, apoio logístico e dinheiro para Hemediti e as suas milícias RSF, através dos seus aliados na região: Chade, Uganda, Somália e a zona Leste da Líbia, Cirenaica. Ao mesmo tempo, a oligarquia sudanesa da capital e o seu homem forte, al-Burhan, tinham outros acordos: a exportação de ouro deveria ser feita através do Egito, o principal defensor de al-Burhan. Para o Cairo, a estabilidade e o controlo do Sudão são fundamentais.

As principais potências imperialistas também estão envolvidas. A China mantém importantes acordos comerciais com Cartum e o seu presidente al-Burhan e também apoia o exército sudanês com armamento. A Rússia também tem relações importantes com Al Burhan neste momento. Os Estados Unidos têm relações com os Emirados Árabes Unidos e, através deles, também com Hemedti, o outro lado da guerra civil.

O destino que as potências imperialistas e a oligarquia do próprio país reservam para o Sudão é o mesmo que ditaram para o Sudão do Sul. O “país mais jovem do planeta” conquistou a sua independência em 2011, sofreu uma guerra civil de 2013 a 2020 e, desde 2017, lidera o índice de Estados falidos, à frente da Somália. É claro que os seus abundantes recursos (petróleo, ouro, prata, diamantes, etc.) não deixaram de fluir para os países capitalistas avançados.

A guerra civil no Sudão não só não tem fim à vista, como ameaça alastrar-se a outros territórios de uma região já instável, alimentada com dinheiro e armas por diferentes patrocinadores imperialistas. Embora lutem entre si, os diferentes imperialismos da China, Rússia e Estados Unidos, os países que intervêm no Sudão e os dois líderes Hemedti e al-Burhan concordam em saquear o país e reprimir qualquer movimento popular que questione esse saque.

África está percorrida, de norte a sul, pela revolução e pela contrarrevolução. Ao pesadelo da guerra civil sudanesa somam-se outros, como o da República Democrática do Congo, todos submetidos ao roubo dos recursos naturais do continente pelas potências imperialistas e pelos setores burgueses africanos associados às potências imperialistas.

Perante isto, o mesmo espírito que impulsionou a revolução sudanesa em 2019 impulsiona agora mobilizações em Madagáscar, Tanzânia, Camarões, Quénia ou Marrocos. Enquanto o capitalismo oferece miséria, pilhagem e guerras, os trabalhadores e a juventude mostram repetidamente que há um caminho de unidade e rebelião para mudar o estado das coisas em toda a África, o continente mais devastado e saqueado pelos imperialismos há muitos séculos. A disjuntiva ‘socialismo ou barbárie‘ é hoje mais verdadeira do que nunca no Sudão e em toda a África. 

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