O regime autoritário está a reforçar-se: o que nos diz o Mediterrâneo Oriental?

12 de Novembro, 2025
3 mins leitura

Por Sedat Durel, do Partido da Democracia dos Trabalhadores (IDP), secção da UIT-QI na Turquia

O regime autoritário orgulha-se de ter transformado a Turquia num país forte e independente. Analisar os desenvolvimentos na política externa sob a perspetiva da luta de classes pode, muitas vezes, ajudar-nos a compreender se tais afirmações correspondem à realidade. A análise das políticas seguidas pelo AKP (Partido da Justiça e do Desenvolvimento) no Mediterrâneo Oriental, com especial destaque para Chipre e a Palestina, revela que o regime não criou uma Turquia tão forte nem tão independente como se gaba.

A política de retórica patriótica na Palestina

A política do AKP em relação à Palestina nunca foi além da retórica patriótica. O principal interesse do AKP tem sido estabelecer relações com Israel, sobretudo económicas, mas também, evidentemente, militares e políticas. Enquanto a última visita do presidente pirata à Turquia decorreu com cerimónias de alto nível e ostentação, na reunião entre Netanyahu e Erdoğan, realizada nos EUA alguns dias antes de 7 de outubro, Erdoğan tinha manifestado esperanças de uma cooperação crescente “nas áreas da energia, tecnologia, inovação, inteligência artificial e cibersegurança“. Na situação atual, o regime ‘de um homem só‘ – que tenta ser apresentado como o vencedor do processo de cessar-fogo em Gaza devido aos papéis diplomáticos assumidos – não faz nada além de proferir palavras duras, mas sem consequências, contra os comportamentos de Israel que violam o cessar-fogo e contra o bloqueio que mantém sobre Gaza. Quanto ao comércio, todos sabem que continua.

Dizia-se que o regime ‘de um homem só‘ tinha a capacidade de garantir o seu poder recorrendo ao populismo e conquistando o apoio das massas. Apesar de a causa palestiniana ser abraçada por uma esmagadora maioria da sociedade turca e de o regime precisar de um novo épico de heroísmo, nem sequer são dados passos simbólicos que vão além das palavras. Porque o regime ‘de um homem só‘ não tem qualquer interesse na liberdade a que o povo palestiniano tem direito. No entanto, existe uma dependência dos acordos comerciais celebrados com Israel e os EUA. Ou seja, ao contrário do que o regime se gaba, o capitalismo turco não consegue ultrapassar os seus limites. Mesmo quando se trata da Palestina, o regime ‘de um homem só‘ não faz o que quer, mas sim o que é obrigado a fazer enquanto país dependente e semicolonial.

Surpresa eleitoral em Chipre

As eleições realizadas na República Turca de Chipre do Norte (RTNC), por sua vez, demonstram de outra forma que o regime ‘de um homem só‘ não é tão forte como este se gaba. O ex-presidente Ersin Tatar, que contava com todo o apoio material e moral do regime ‘de um homem só‘, sofreu uma derrota esmagadora frente a Tufan Erhürman, defensor da união federativa da RTNC com o sector grego de Chipre. Esta situação constitui um desenvolvimento que poderá abalar a presença da Turquia no Mediterrâneo Oriental e infligir um golpe fatal à economia do dinheiro sujo que tem vindo a crescer em Chipre desde que o AKP chegou ao poder. A aliança do ‘homem só‘ deu respostas contraditórias sobre o processo, na sequência da derrota eleitoral do candidato que apoiou com todas as suas forças. Enquanto Bahçeli defendeu a anexação de Chipre à Turquia, confiando na relutância dos líderes da comunidade grega em apoiar a união, os porta-vozes da Presidência deram respostas moderadas. As tentativas de explicar as declarações de Bahçeli com base no papel de “equilíbrio e controlo” do MHP (Partido do Movimento Nacionalista) na aliança revelam também que houve uma derrota grave e que, para além de Israel, nem mesmo na “pátria filha” se dispõe de um poder capaz de obter sempre resultados. A análise da situação no Mediterrâneo Oriental demonstra, mais uma vez, que o governo do AKP, com quase um quarto de século no poder, não tornou a Turquia mais forte e independente, mas sim mais fraca e dependente.

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