O plano colonial de Trump e a anexação da Cisjordânia. À sombra de Gaza

31 de Outubro, 2025
5 mins leitura

Por Layla Nassar, da Luta Internacionalista (LI), secção da UIT-QI no Estado Espanhol

À sombra do genocídio em Gaza, o Estado de Israel intensifica a colonização da Cisjordânia com o apoio ou o silêncio cúmplice das potências imperialistas. Enquanto o mundo se comove perante a destruição maciça na Faixa de Gaza, Israel acelera a pilhagem de terras, a expulsão de comunidades inteiras e a repressão brutal do povo palestiniano. A 22 de outubro, o parlamento israelita aprovou, por 25 votos contra 24, o primeiro passo de uma lei para a anexação da Cisjordânia.

As escavadoras, os tanques e as prisões são as três ferramentas do mesmo projeto colonial. O regime sionista consolida no terreno aquilo que o direito internacional condena, mas não impede: o desaparecimento acelerado do Estado palestiniano que, hipocritamente, os governos imperialistas, incluindo o espanhol, se apressaram agora a reconhecer. Um gesto vazio que apenas volta a tirar do necrotério a chamada “solução dos dois Estados” – um Estado palestiniano ao lado de Israel -, que há quase 80 anos é colocada sobre a mesa sem outro resultado senão a continuação do roubo de terras palestinianas. Pela sua natureza supremacista e colonial, o Estado de Israel nunca viverá em paz ao lado de um Estado palestiniano: é um Estado que não tem nem Constituição nem fronteiras, que continua a aspirar ao Grande Israel (do Nilo ao Eufrates, como Netanyahu mostra nos mapas sempre que fala na ONU) e que tem como único elemento de coesão interna a guerra contra um inimigo: o povo palestiniano e os povos árabes em geral. Um Estado que sempre aspirou ao mesmo: uma pureza demográfica, com um território o mais majoritariamente judeu possível, expulsando os palestinianos das suas casas em toda a terra da Palestina histórica.

A Cisjordânia, com 3,2 milhões de palestinianos e mais de 700.000 colonos que a ocupam, segundo os dados mais recentes, é hoje um laboratório de desapropriação planeada, onde se combinam a violência militar, a impunidade diplomática e a cumplicidade aberta de governos que continuam a manter relações militares, políticas, comerciais, económicas e culturais com Israel.

Jenin: o campo de refugiados fantasma

O campo de refugiados de Jenin, o símbolo histórico da resistência palestiniana na Cisjordânia, foi transformado numa base militar. Onde antes havia crianças a brincar e vendedores nas ruas, agora só há escombros, soldados e drones. O exército israelita expulsou os seus 20.000 habitantes das suas casas e instalou as suas tropas para treinarem na guerra urbana que depois exportam para Gaza. Os palestinianos do campo de Jenin não puderam regressar a casa nem para recolher os seus pertences, e vivem precariamente em residências estudantis, acolhidos em casas de familiares ou em pavilhões desportivos e centros de convenções.

A operação para esvaziar o campo, lançada com a cumplicidade da Autoridade Palestiniana, é um exemplo do papel desta burocracia colaboracionista, mais preocupada em demonstrar lealdade a Tel-Aviv do que em defender o seu povo. Os combatentes palestinianos foram perseguidos, humilhados e assassinados. O cerco destruiu cemitérios, hospitais e casas, mas não a memória.

Hoje, o exército israelita está a transformar o tecido urbano do campo de refugiados de Jenin para fins de domínio colonial: novas avenidas para permitir a circulação de tanques, torres de vigilância e a mais recente tecnologia de reconhecimento facial e scanners de retina. As pessoas conhecem hoje Jenin como “a pequena Gaza“.

Al-Mughayyir: oliveiras arrancadas

Em Al-Mughayyir, perto de Ramallah, o exército israelita e os colonos arrancaram mais de dez mil oliveiras. As árvores, símbolo de enraizamento e sobrevivência, foram destruídas para cortar a ligação do povo palestiniano à sua terra. “Sem as oliveiras não podemos viver“, denuncia Marzouq Abu Naim, vice-presidente da Câmara. Desde 7 de outubro de 2023, o exército e os colonos arrancaram mais de 50.000 oliveiras.

O general Avi Bluth ordenou a operação como castigo coletivo, enquanto os ministros fascistas Smotrich (Ministro das Finanças) e Ben-Gvir (Ministro da Segurança Nacional) impulsionavam a colonização e protegiam os ataques dos colonos. Esta é a face rural do mesmo genocídio que devasta Gaza: expulsar, desenraizar e empobrecer para tornar impossível a vida palestiniana. Desde 7 de outubro de 2023, o exército e os colonos mataram cerca de mil palestinianos na Cisjordânia. É o fim do paradigma dos ‘Acordos de Oslo‘ e de qualquer ficção de “processo de paz” e de ‘dois Estados‘.

Mas a resistência não desaparece. Ayou Abu Ali, um jovem camponês ferido por balas de chumbo, afirma que continuará a plantar: “O que eles querem é desenraizar-nos, mas nós voltaremos a semear. Não nos iremos embora“. Nestas palavras reside a força de um povo que não se resigna.

Torturas nas prisões de Israel

Abdullah Saleh, um jovem engenheiro palestiniano, saiu da prisão israelita com menos vinte quilos e o corpo marcado pela tortura. Foi detido durante o assalto a um hospital de Gaza e encarcerado na base militar de Sde Teiman, onde Israel mantém detidos milhares de palestinianos sem julgamento.

Eles tinham um esquema: um dia de abuso psicológico, no dia seguinte físico. Obrigavam-nos a ficar horas de pé, batiam-nos, humilhavam-nos. Queriam fazer-nos esquecer quem éramos“, explica. A ONU e as ONG‘sde direitos humanos denunciaram estas práticas sem obter qualquer resposta.

Saleh passou por várias prisões, de Ofer a Naqab, onde os detidos são amontoados em celas sem luz, sem comida e sem cuidados médicos. “Às vezes penso que a prisão era melhor. Pelo menos lá não via a minha filha a chorar de fome“, diz agora, a partir de uma tenda em Khan Yunis.

O seu testemunho é uma denúncia viva de um sistema prisional colonial baseado na tortura, no isolamento e na desumanização. O corpo palestiniano é transformado num campo de batalha: o castigo como instrumento de dominação política.

O acordo e a impunidade

O chamado “acordo de paz” entre Israel e o Hamas, orquestrado por Donald Trump, não passa de uma trégua para restabelecer a ordem imperial. Após dois anos de massacre, com dezenas de milhares de mortos e Gaza reduzida a escombros, os Estados Unidos impõem um cessar-fogo que não põe fim à guerra: prolonga-a sob outra forma. É uma forma de resgatar Netanyahu do impasse militar em Gaza: o primeiro-ministro israelita tinha estabelecido o objetivo de ocupar a Cidade de Gaza, com mais de um milhão de pessoas, antes de 7 de outubro deste ano, e era evidente que o exército israelita ainda estava muito longe de vencer esta batalha. Também do isolamento internacional, resultado das mobilizações em massa em todo o mundo, que se manifestou no boicote ao seu discurso na Assembleia Geral da ONU.

O objetivo é manter o controlo económico e militar sobre a Palestina e a região. O plano de Trump, que prevê transformar Gaza numa “Riviera do Médio Oriente” sob tutela internacional e administração colonial, é a versão atualizada do antigo mandato britânico. Israel mantém a sua presença armada; as potências árabes colaboram; a Europa aplaude.

Nem o Hamas nem o povo palestiniano aceitaram esta farsa. O jornalista Omar Nazzar é claro: “O mais urgente era parar o extermínio, mas a resistência continua. Denunciámos como Israel e os Estados Unidos são autores de crimes de guerra“.

Intensificar a solidariedade

O genocídio em Gaza e a colonização da Cisjordânia só são possíveis graças à cumplicidade dos governos que, em todo o mundo, sustentam a ordem capitalista e imperialista. Mas a solidariedade também cresce em todo o lado: nas ruas, nas universidades, nas fábricas. A causa palestiniana faz parte da luta mundial contra a opressão, o racismo e a exploração.

Não confiamos nas potências imperialistas nem nas suas instituições. A liberdade da Palestina só virá com a mobilização dos povos, com a resistência operária e popular, com a revolta internacional contra o capitalismo e a guerra. A Palestina é a causa global de todos os oprimidos do mundo.

Do rio ao mar, a Palestina será livre!

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