A era dos charlatães: Musk e o novo jogo do capitalismo

10 de Novembro, 2024
3 mins leitura

Por Ekin Güvençoğlu, do Partido da Democracia dos Trabalhadores (IDP), secção da UIT-QI na Turquia

O sistema em que vivemos tem sido bastante bem-sucedido em criar figuras para esconder as suas crises e gerar narrativas que possam ser comercializadas. Bill Gates, Steve Jobs e, mais recentemente, Elon Musk tornaram-se algumas das estrelas mais brilhantes desta era. Sonhos de como fundar uma colónia em Marte, levar a eletricidade para o futuro e fundir o cérebro humano com a inteligência artificial apresentaram Musk às massas como um “arquiteto do futuro“. Com o apoio que prestou recentemente a Trump, Musk surge, não apenas como um visionário que molda o futuro, mas também como um charlatão que abre espaço para si próprio na cena política em nome da sustentabilidade do capitalismo. Musk, que é também proprietário do ‘X‘ (antigo ‘Twitter‘), o centro de comunicação de todo o mundo, e que o manipula para a sua própria publicidade, será realmente um salvador ou uma ameaça?

O império da visão

A fama de Elon Musk está, na verdade, consolidada pelas empresas e investimentos de que é proprietário. Com empresas como a SpaceX, a Tesla, a Neuralink e a ‘The Boring Company‘, ele atua numa ampla gama de áreas, desde viagens espaciais a veículos elétricos, passando por interfaces cérebro-computador e túneis subterrâneos. Embora estas iniciativas pareçam ter como objetivo moldar o futuro da humanidade, podemos supor que existe outra motivação subjacente. Será que, em vez de resolver os problemas urgentes do mundo, estará a desviar as atenções para outra direção? Por exemplo, será que o sonho de colonizar Marte pode ser um esforço para relegar para segundo plano a resolução de problemas fundamentais como a crise climática, a desigualdade de rendimentos e os problemas de saúde globais? Ou será que a esperança virtual criada pelos avanços tecnológicos está a ser utilizada como um instrumento para ocultar as falhas do sistema atual e impedir que este seja questionado? O nosso foco está a ser desviado, somos mantidos imóveis, aceitamos e somos tornados apáticos. Além disso, o objetivo principal não é a democratização do conhecimento, mas sim, tal como acontece noutros casos, a manipulação das nossas perceções e o varrer dos factos para debaixo do tapete, para que a nova realidade seja comercializada como uma mercadoria vendável. A dinastia da visão que Musk pretende construir serve exatamente para isso.

A parceria entre Musk e Trump

Esta parceria, até agora invisível e sem nome, vinha, na verdade, a avançar há muito tempo através de uma sintonia de discursos. O facto de Musk, após a aquisição do ‘X‘, ter colocado em destaque a violência e os discursos de exclusão e de ódio, além de passar a fornecer às ditaduras as informações que estas desejavam sem qualquer garantia de segurança de dados, pode dizer-se que, na verdade, atendia aos desejos de Trump e lhe dava água ao moínho. A forma mais clara desta parceria atingiu o auge quando Musk anunciou que apoiaria Trump nas eleições dos EUA de 5 de novembro. Além de contribuir com centenas de milhões de dólares para a campanha eleitoral, ele até lançou um sorteio diário na plataforma ‘X‘ entre os apoiantes de Trump em que entrega 1 milão de dolares a quem assina e diz que votará no candidato.

O que fazer?

É preciso identificar bem Musk e outros charlatães que prometem o futuro. Não nos esqueçamos de que, por trás do marketing visionário incessante, que se baseia na descoberta de falhas nos sistemas e no apoio de determinados capitais, estão a classe dirigente que pretende salvar as suas estruturas em crise e os parasitas que dela se alimentam. E, com todo este desenvolvimento tecnológico, temos de determinar se a humanidade precisa realmente de um telemóvel com uma câmara de 100 milhões de píxeis ou de um carro com ecrãs por todo o lado, ou se temos problemas mais fundamentais. Na verdade, a questão é simples: o que vamos dizer contra o facto de o capitalismo apresentar a revolução tecnológica como uma salvação? Enquanto 2,2 mil milhões de pessoas no mundo ainda não têm acesso a água potável ou 833 milhões de pessoas ainda não se alimentam adequadamente, vamos permitir que os charlatães nos enganem?

Ir paraTopo

Don't Miss