Os fundos que entraram em colapso estão a abalar os alicerces do regime

2 de Outubro, 2026
6 mins leitura

Pelo Partido da Democracia dos Trabalhadores (IDP), secção da UIT-QI na Turquia

Enquanto o regime ‘de um homem só‘ prossegue com grande ânimo a sua intimidação contra os setores da oposição – desde as autarquias às organizações de defesa dos direitos e às redes sociais -, foi abalado até ao âmago por um novo escândalo. Desta vez, o palco do escândalo foi a bolsa de valores. Fundos de investimento liderados por figuras próximas do Palácio entraram em colapso, fazendo desaparecer milhares de milhões de dólares. Desde o pequeno investidor, que viu as suas poupanças transformarem-se num pedaço de papel num instante, até aos grandes magnatas de holdings cujas ações atingiram o fundo do poço, um vasto segmento da população sentiu a violência desta explosão com um forte abalo.

Pelo seu impacto, esta “crise dos fundos” não afeta apenas o que se passa na bolsa, mas toda a economia e, consequentemente, também afeta diretamente a classe trabalhadora. Em primeiro lugar, a administração do Palácio tentará fazer recair sobre os trabalhadores a conta dos milhares de milhões de dólares que se evaporaram, através da “socialização das perdas“. Além disso, a economia do país, que já se encontrava numa situação bastante frágil, está a passar por uma nova convulsão com este escândalo. A crise que teve início com o colapso dos fundos abre a porta a uma crise muito mais grave, que se espalhará por todos os setores da economia. E, acima de tudo, este escândalo, no qual o regime ‘de um homem só‘ está atolado até ao pescoço, revela mais uma vez a dimensão da corrupção a que o regime chegou.

O Palácio não tinha conhecimento disso?

No clima de pânico que se seguiu à queda dos fundos, após a reunião do Conselho de Ministros, Erdoğan, num discurso que foi considerado “emocional“, afirmou: “Não temos nem podemos ter nada a ver com aqueles que se apropriam dos bens do Estado e da nação“, anunciando que “se despediriam daqueles que agissem de forma errada“. Será que este escândalo rebentou sem o envolvimento do Palácio, sem que este tivesse conhecimento?

Mehmet Şimşek já tinha revelado, há menos de um ano, que sabiam que estavam a ocorrer manipulações na bolsa. De facto, o aumento repentino do valor de empresas sem correspondência na realidade – chegando, em alguns casos, a 40 vezes o valor anterior – não podia ser explicado de outra forma senão como manipulação. No entanto, durante este processo, não foi tomada qualquer medida relativamente a estas ações, que se enquadram nos crimes de fraude qualificada e constituição de organização criminosa. Pelo contrário, logo após esta declaração de Şimşek, por exemplo, o Conselheiro Principal do Presidente, Fecir Alptekin, foi nomeado membro do conselho de administração da Tera Yatırım (Empresa de corretagem). Em agosto de 2026, o antigo dirigente do MİT (agência nacional de inteligência e segurança civil do Governo turco), Hüseyin Emre Sezer, tornou-se diretor-geral da Tera Yatırım. Alega-se que Serdar Turhan, proprietário da Pusula Yatırım – outro fundo importante que entrou em colapso -, mantém relações estreitas com o vice-presidente da República, Cevdet Yılmaz, e com Bilal Erdoğan, com quem já posou para fotografias. A esposa do ministro da Justiça, Akın Gürlek, exerce funções na Comissão do Mercado de Capitais (SPK) ao longo de todo este processo.

Os acontecimentos que revelaram a fraude parecem ter sido desencadeados mais por pressões externas do que internas. As declarações e advertências feitas pelas instituições de referência do capital financeiro internacional em matéria de investimentos estão a acender o rastilho que marcará o fim da “era de prosperidade“. Entre junho e setembro, as declarações de instituições financeiras que fornecem índices ao capital financeiro global – como a MSCI, a S&P Dow Jones e a FTSE Russell – sobre as fraudes em curso na bolsa de valores da Turquia, juntamente com os avisos de que a classificação da Turquia poderia ser rebaixada, levaram, finalmente, no final de agosto, à implementação de uma série de regulamentações que impõem limites às operações manipuladoras destes fundos. Com o golpe desferido por estas regulamentações no “esquema de pirâmide“, inicia-se uma “grande fuga” das ações dos fundos, levando à sua falência.

“Ninguém pode ser juiz no seu próprio processo”

Esta frase, estabelecida como princípio jurídico na Antiga Roma, resume de forma clara a situação tragicómica em que nos encontramos. Mencionámos acima os nomes de alguns membros do Palácio associados ao escândalo. Essas pessoas são agora responsáveis pela investigação e gestão deste escândalo. Enquanto Cevdet Yılmaz foi nomeado para chefiar o Conselho de Coordenação dos Fundos, o presidente do Conselho de Auditoria do Estado, responsável pela investigação do escândalo, é a mesma pessoa que, ao longo deste processo, exerceu simultaneamente o cargo de vice-presidente da Bolsa de Istambul.

Akın Gürlek, cujo nome tem surgido de alguma forma em todos os escândalos relacionados com o regime que vieram a lume recentemente, está a fazer declarações grandiloquentes de que este escândalo será investigado com determinação. No entanto, após a sua esposa ter passado a integrar o conselho de administração da SPK, meses antes do escândalo vir a público, já tinham surgido na imprensa alegações de que ele próprio teria negociado na bolsa com os fundos em questão. No momento em que a MASAK ((a unidade de informação financeira turca, subordinada ao Ministério do Tesouro e das Finanças, que tem por missão prevenir a lavagem de dinheiro)) deu início às investigações relacionadas com este escândalo, Gürlek anunciou, de forma significativa, o início de uma operação contra antigos dirigentes da instituição, sob a acusação de ligações à FETÖ (organização classificada pelo Estado turco como terrorista) e de espionagem. Enquanto era emitido um mandado de detenção contra Bilal Çalışkan, relacionado com o escândalo da Pusula Yatırım, o facto de ter sido revelado que ele próprio tinha tirado uma fotografia com o suspeito naquele momento ficou registado como um “acaso infeliz“.

Todo este quadro resume o ponto a que chegou a corrupção do regime do Palácio. Agora, em pânico, estão a tentar encobrir os seus crimes e responsabilidades, apresentando bodes expiatórios e recorrendo a táticas do tipo “ladrão astuto“. Se não houver a necessária pressão política e social, é muito claro que o assunto será encerrado com alguns julgamentos e demissões de fachada, sem que os verdadeiros responsáveis sejam desmascarados.

Os impasses do Palácio estão a agravar-se

Numa altura em que começava a abordar a agenda eleitoral, o regime ‘de um homem só‘ traçava planos para prolongar a sua vida política, neutralizando a oposição política e espalhando o desânimo. Utilizava todos os meios ao seu alcance, desde a negociação até à pressão, nesse sentido e continuará a fazê-lo. Por outro lado, estava ciente de que estava muito longe de demonstrar o seu sucesso na obtenção de consentimento, na alteração da sua posição de poder minoritário e na eliminação dos seus adversários.

O facto de o escândalo dos fundos ter surgido numa altura em que a economia atravessava graves impasses constitui a principal fonte do pânico que se vive no Palácio. Numa conjuntura em que não consegue reduzir a inflação nem as taxas de juro, nem impedir o aumento do desemprego, os choques vividos tanto a nível interno como externo aumentam ainda mais a fragilidade da economia e, consequentemente, do regime. A agressividade em relação ao Irão, aliada ao aumento dos preços do petróleo, torna o custo de vida insuportável. O adiamento para um futuro incerto do sonho de financiamento barato, devido ao aumento das taxas de juro nos principais países imperialistas, transforma-se num novo pesadelo para o Palácio.

O quadro atual impõe uma luta radical que ultrapassa os limites da imaginação da oposição do sistema. O sistema podre até às suas últimas fibras, que entrelaça as reivindicações económicas com as democráticas, coloca na ordem do dia uma ruptura radical com o regime de opressão e exploração como única solução real. Por isso, uma aliança política unida e independente da oposição burguesa, formada pelas organizações de trabalhadores e pela esquerda – que serão os protagonistas desta transformação -, continua a ser a nossa necessidade mais premente.

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