Quem desliga e liga a ficha é a mesma mão

17 de Julho, 2026
3 mins leitura

Por Ekin Güvençoğlu, do Partido da Democracia dos Trabalhadores (IDP), secção da UIT-QI na Turquia

Uma manhã, acordas e o modelo de inteligência artificial que era promovido como o mais poderoso do mundo não está a funcionar. Não se trata de um erro teu, nem de uma avaria. Numa sexta-feira à noite, a Casa Branca deu a ordem e uma tecnologia utilizada por milhões de pessoas foi desativada da noite para o dia. Os modelos Fable 5 e Mythos 5 da Anthropic foram exatamente assim: foram desligados a 13 de junho e, duas semanas depois, após negociações, foram reativados. Esta história de ligar e desligar pode parecer um pormenor técnico, mas, na verdade, mostra-nos em cujas mãos está realmente a tecnologia e em benefício de que classe social ela funciona.

O que aconteceu?

Anthropic apresentou o seu novo modelo a 9 de junho como “o modelo mais potente que já disponibilizámos para uso generalizado“. Menos de uma semana depois, a 13 de junho, o acesso foi totalmente bloqueado por uma diretiva de controlo de exportações. Além disso, não foram apenas os estrangeiros que ficaram sem acesso; até os próprios funcionários da empresa, a maioria dos quais nascidos no estrangeiro, deixaram de poder aceder aos seus próprios produtos. Como motivo para esta situação, fala-se de uma infiltração no modelo por parte de um grupo ligado à China ou de uma falha de segurança. A própria Anthropic referiu que a justificação concreta foi comunicada apenas verbalmente. Em resultado, o acesso foi sendo restabelecido gradualmente, mas a questão principal permanece: como é que uma tecnologia utilizada por milhões de pessoas pode ser desativada numa única noite, com uma única ordem?

De quem é a inteligência, de quem é a máquina?

Marx, nos ‘Grundrisse‘, designa o acervo comum de conhecimento da humanidade, acumulado ao longo de milhares de anos, como “inteligência geral” e explica que a máquina é a materialização desse acervo. A máquina, por si só, não é inimiga; torna-se inimiga quando se transforma em propriedade do capital, pois passa a servir um único objetivo: o lucro. É nesse momento que o “trabalho morto” começa a engolir o trabalho vivo. O que hoje é comercializado como inteligência artificial é, na verdade, isto mesmo. Os textos, códigos e imagens que todos nós produzimos – ou seja, a criação comum da humanidade – são usurpados sem autorização e sem contrapartida, sendo transformados em lucro para um punhado de monopólios. Esta tecnologia, que noutro sistema poderia libertar-nos dos trabalhos forçados, transforma-se, nas mãos do capital, numa arma contra nós.

A mentira da tecnologia neutra

Este quadro desmonta, mais uma vez, o mito de que “a tecnologia é neutra“. É um único Estado e um punhado de empresas que decidem se um modelo será aberto ou fechado, e quem terá acesso a ele. Só em 2026, o orçamento destinado aos centros de dados destas quatro ou cinco gigantescas empresas ascenderá a 650 mil milhões de dólares. Esta fortuna, que ultrapassa os orçamentos anuais de países inteiros, é extraída do trabalho coletivo do povo e acumulada nos cofres de um punhado de bilionários. E não se trata de um simples serviço, mas sim de uma política externa personalizada e de um poder de classe concentrado numa única mão; ou seja, para o mundo inteiro, isto é, puramente, uma questão de hegemonia.

O que fazer?

A solução, evidentemente, não é a hostilidade em relação à tecnologia nem a destruição de máquinas! O problema não está nos modelos, mas sim no domínio dos monopólios e de um único Estado que usurpam a nossa inteligência coletiva. Esta tecnologia, que constitui o património comum da humanidade, deve voltar a ser bem comum da humanidade. O que precisamos é de uma ordem digital pública, transparente e aberta ao controlo democrático, bem como de uma luta internacional que una todos os elos da cadeia de valor, desde o mineiro ao engenheiro. Não nos esqueçamos: não são as máquinas que fazem a história, mas sim os seres humanos; ou seja, somos nós que produzimos, educamos e damos vida, e é a nossa luta organizada que lhes irá recordar quem detém, na verdade, a chave.

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