Apelo aos trabalhadores da informática para a Greve Geral

9 de Dezembro, 2025
2 mins leitura

Opinião de Bruno Cancelinha

A esta altura, já toda a gente sabe que haverá uma Greve Geral no dia 11. Muitos trabalhadores de vários setores vão parar contra as alterações à lei laboral que o Governo quer impor. Escrevo este texto para apelar diretamente aos meus colegas, técnicos de informática, engenheiros, administradores de sistemas, programadores, especialistas de suporte, QA, DevOps e todos os que fazem o setor funcionar, para que também se juntem à greve. E sim, podem fazer greve mesmo não estando sindicalizados.

Um setor que mudou, e não para melhor

Durante anos, trabalhar em tecnologia significou salários decentes, vínculos estáveis e uma vida relativamente tranquila. Hoje, essa já não é a realidade.

A subida das taxas de juro apertou o cerco e muitos investidores exigiram lucros imediatos às empresas. A fachada dos “unicórnios” ruiu e casos como o colapso da Farfetch tornaram-se símbolo desse processo. O ano de 2022 e 2023 foi, para todo o setor das tecnologias, um ano de viragem. Congelamento de salários e despedimentos coletivos disfarçados de “mútuo acordo” viraram a norma. Praticou-se a velha tática do dividir para reinar, particularmente perverso em contextos de teletrabalho, separando os trabalhadores a serem despedidos e empurrando-os para “acordos mútuos”, sem capacidade de negociarem coletivamente. É nestes períodos que a farsa do “somos uma família” cai por terra e a realidade da luta de classes fica bem exposta perante toda a gente.

Há cada vez mais pessoas a serem formadas nas áreas da tecnologia, entre cursos superiores ou cursos profissionais. A ideia é inundar o mercado de trabalhadores com as competências necessárias e, assim, baixar os salários a todo o setor. Isto sem falar do efeito que a IA poderá vir a ter no nosso trabalho.

O que esta lei significa para nós

Está em curso alterações a todo o setor, e a alteração à lei laboral que o Governo quer impor, é mais um passo no sentido da nossa precarização. Esta lei permite tirar-nos direitos que tínhamos por garantidos. A isenção de horário – prática recorrente no setor e usada até de forma abusiva por muitas empresas – pode vir a ser substituída pelo banco de horas individual, reduzindo 300€ do salário e obrigando os trabalhadores a 2 horas extra de trabalho não pago por dia. Já para pessoas com filhos esta lei permite à empresa impor horários.

A alteração à lei laboral permite também que as empresas possam despedir trabalhadores e contratar uma empresa de outsourcing para fazer o mesmo trabalho. O nosso setor está particularmente vulnerável a esta alteração. Como expliquei há pouco, há agora mais pressão nas empresas para cortar custos e muitas estão a recorrer a empresas de outsourcing. O que está colocado é a possibilidade de sermos despedidos e o nosso trabalho passar a ser feito por uma consultora sediada num qualquer país onde a mão de obra seja ainda mais baixa que cá.

Não vale a pena enterrar a cabeça na areia e fingir que o nosso setor não está a caminho da precarização. A única forma de resistirmos a isso é começar a lutar pelos nossos direitos. Se não tivermos uma estrutura para resistir a esta precarização, se deixarmos as negociações acontecerem de forma “individual”, então vai ser impossível travarmos esta tendência. Por tudo isto, temos de nos juntar todos à greve no dia 11 de Dezembro e começar a organizar o nosso setor para assim resistir e conseguir garantir os nossos direitos.

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